perspectivas

Sábado, 2 Abril 2022

A ideologia e os seus lugares-comuns

Filed under: Hannah Arendt — O. Braga @ 7:32 pm

Um “cliché”, ou “lugar-comum” em bom português, é uma expressão linguística que foi — outrora — inovadora, mas que perdeu a sua novidade e originalidade devido a um excesso de uso.

Um “slogan” publicitário também pode ser considerado um “lugar-comum”, por exemplo: por exemplo, a frase de Fernando Pessoa, referindo-se à Coca-cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se".

Os slogans políticos (os clichés ideológicos) também são “lugares-comuns” cunhados originalmente por ideólogos, mas que são repetidos ad Nauseam pelos seguidores da ideologia.

A forma de pensar através de clichés (ou de “lugares-comuns”) é característica de pessoas que seguem fielmente uma determinada ideologia — sendo que uma ideologia é uma redução e/ou simplificação de uma determinada corrente filosófica que, não tendo o estatuto de ciência, também não é possível decidir da sua exclusão do domínio dos conhecimentos regidos pela relação entre a teoria e a prática.


A professora Helena Serrão transcreve aqui um texto de Hannah Arendt acerca do nazi Eichmann que, segundo esta, se expressava constantemente através de lugares-comuns (ou clichés). A expressão sistemática através de clichés revela, por um lado, uma mente com limitações cognitivas, e por outro lado revela o espírito de um burocrata — o que vai dar no mesmo: um burocrata é quase sempre (em juízo universal) limitado no que diz respeito ao Coeficiente de Inteligência.


Porém, convém dizer que nem sempre o uso de lugares-comuns é negativo; por exemplo, é positivo quando são utilizados pontualmente para estabelecer uma sincronização comunicacional imediata com uma plateia ou com os leitores.


O que a Hannah Arendt se refere, no texto, é ao uso sistemático dos lugares-comuns, que é característica do espírito do burocrata (neste caso, do burocrata nazi Eichmann).

Segundo Hannah Arendt, todo o pensamento ideológico (as ideologias políticas) contém três elementos de natureza totalitária:

1/ a pretensão de explicar tudo;
2/ dentro desta pretensão, está a capacidade de se afastar de toda a experiência;
3/ a capacidade de construir raciocínios lógicos e coerentes (clichés) que permitem crer em uma realidade fictícia a partir dos resultados esperados por via desses raciocínios — e não a partir da experiência.

Por exemplo, a ideia de “transformar o mundo” (Karl Marx), que é um cliché progressista e revolucionário de tipo “Pacheco Pereira”, significa ultimamente, de facto, burocratizar o Homem. Não tenho dúvidas que este cliché poderia ter sido utilizado por Eichmann. Por exemplo, o marxismo cultural (ou politicamente correcto que o Pacheco Pereira nega que exista) é a burocratização do espírito do nosso tempo.

Quando uma burocracia cativa ou controla um sistema político — que é o que está acontecer hoje, por exemplo, na União Europeia —, seguem-se as revoluções que são os seus partos sangrentos. Eichmann já era um burocrata do sistema político alemão, antes da revolução nazi de 1933.

Uma situação semelhante acontece com a democracia portuguesa: está a burocratizar-se rapidamente.

Por exemplo, o espírito da Constituição portuguesa já perdeu o seu valor simbólico (por exemplo, com a legalização da eutanásia), e foi substituído pelos clichés anónimos e anódinos de uma classe de burocratas politicamente instalada, que custa muitíssimo mais ao povo português do que custaria uma aristocracia (entendida enquanto escol).

As decisões despóticas do Estado socialista português são finalmente tomadas por um burocrata anónimo, subalterno, pusilânime, e provavelmente cornudo.


Hannah Arendt lies web

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