perspectivas

Sexta-feira, 22 Maio 2020

O Homem-Massa no século XXI

Um livro que deveria ser obrigatório ler no liceu (vamos pugnar pelo retorno dos liceus, que o politicamente correcto e o nacional-porreirismo abrilista aniquilaram) — seja na disciplina de Filosofia ou na de Língua Portuguesa — é a “Rebelião das Massas” (1929) do filósofo Ortega y Gasset.

homem-massa-webO meu filho mais novo é doutorado em Bioquímica por uma prestigiada universidade do mundo anglo-saxónico. Eu digo-lhe, insistentemente: “tens que complementar a especialização, por um lado, com a aprendizagem (nos tempos livres) das artes tradicionais e/ou das disciplinas das Humanidades, por outro lado.”

Umas das críticas feitas por Ortega y Gasset (partilhada também por Patrick J. Deneen no seu livro “Why Liberalism Failed“) é a crítica do monopólio da especialização — repito e sublinho: monopólio; porque “especialistas” sempre os houve — a que Gasset chamou de “Barbárie da Especialização” inerente a uma “Era da Auto-satisfação”.

A “Era da Auto-satisfação” e da “Barbárie da Especialização” (sic) é o tempo moderno das economias de abundância, que gerou gentinha da estirpe da Maria João Marques, a que se refere aqui o José da Porta da Loja. Esse tipo de gentinha é o que Ortega y Gasset chamou de “Homem-Massa”.

A Maria João Marques é o avesso do radicalismo esquerdopata; mas faz parte da mesma teia e trama cultural que gerou o Homem-Massa que “nunca tem dúvidas e raramente se engana” (ao Cavaco Silva, faltou-lhe o liceu) — a minha primeira crítica (civilizada) às ideias da Maria João Marques teve como consequência imediata o bloqueio no Twitter; aquela triste criatura não admite quaisquer críticas.


O Homem-Massa possui a psicologia de uma criança mimada e exibe um sentimento superioridade em relação a quem ouse contrariá-lo: tem um ego do tamanho do universo — mas o seu ego mantém-se a um nível infantil de desenvolvimento —, ao mesmo tempo que despreza os aspectos hierárquicos da sociedade, da Natureza e da cultura; e todas as instituições da sociedade são concebidas (pelo Homem-Massa) à sua precária medida (o Homem-Massa é um sofista moderno, uma espécie de Protágoras de Abdera, mas com inteligência inferior): segundo o Homem-Massa, as instituições deixaram de ter valor em si mesmas, porque são todas (igualmente) equivalentes, e porque “o homem é a medida de todas as coisas”.

O Homem-Massa está isento de restrições — esta ausência de restrições advém (não só, mas também) do preceito cultural segundo o qual “Letras são Tretas” que é assimilado nas Multiversidades (as Universidades já não existem). As “Letras são Tretas” geraram um vazio epistemológico no Homem-Massa (uma ausência de uma perspectiva histórica do conhecimento), uma ignorância acerca do passado histórico, e mais: até mesmo um desprezo por esse passado histórico aliado a uma egologia eternamente presentista.

culto-do-corpo-webO actual narcisismo exacerbado – e pior!: o culto do narcisismo!: quem não é notoriamente narcisista é desprezado pela cultura do Homem-Massa — é característico da “Era da Auto-satisfação” que alimenta a ideia endógena segundo a qual “a vida é coisa fácil e sem grandes limitações” que leva o Homem-Massa a fechar-se em relação a qualquer juízo crítico sério; e uma tendência culturalmente ingénita de impôr as suas ideias triviais e sem qualquer respeito pelas ideias dos outros. Esta vulgaridade é característica do “barbarismo espiritual” (sic) da “Barbárie da Especialização”.

O Homem-Massa acredita que a Matéria é a única realidade, por um lado, e por outro lado é adepto exclusivo do “culto do corpo”; prefere viver sob um regime que não privilegie a discussão livre — e vem daqui o fechamento em relação a qualquer juízo crítico (o Homem-Massa prefere a supressão do debate de ideias, em nome da supremacia de uma putativa “especialização”).

O Homem-Massa caminha a passos largos para a sua morte espiritual, ao mesmo tempo que frequenta freneticamente ginásios e clínicas médicas para tentar adiar a sua morte biológica.

O Homem-Massa desconhece (ou despreza) a literatura anterior ao século XX.

As grandes obras literárias (Cervantes, Shakespeare, Camões, etc.) são anti-utopias, porque acentuam as falhas humanas e demonstram a tendência inevitável do ser humano para a tragédia (o Homem-Massa ignora a categoria do “trágico”, o que o transforma em um neurótico permanente). Pelo contrário!: o Homem-Massa ignora (ou nega mesmo) a existência da Natureza Humana. E assim a literatura clássica foi praticamente banida das Multiversidades, em nome da “Barbárie da Especialização” .

Com o advento do Homem-Massa, a noção de “ser humano” foi reduzida a aspectos físicos comezinhos, como a genitália e a cor da pele (e ao feminismo estupidificante e radical da Maria João Marques). Na Era da Especialização, o Homem-Massa convenceu-se de que “eu é que sei!” (a dúvida socrática desapareceu da nossa cultura intelectual), adoptando um isolamento epistemológico e uma certeza moral invioláveis.

3 comentários »

  1. Não achas que a popularização da cremação no Ocidente contribua de alguma forma para a barbárie?

    Esse negócio que se tem popularizado no Ocidente – pela propaganda de Hollywood -, de jogar o corpo de um ser humano falecido numa fornalha para virar cinzas (cremação), não seria mais um dos elementos que visam, subconscientemente, enfraquecer a noção da sacralidade da vida humana?

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    Comentar por Denis Camursa — Quarta-feira, 6 Outubro 2021 @ 5:53 pm | Responder

    • 1/ Eu não concordo com a actual Igreja “Católica” que se tornou permissiva em relação à cremação — por várias razões, desde logo porque, por exemplo, se o Padre Pio de Pietrelcina tivesse sido cremado, o seu corpo não estaria incorrupto e à vista de todos os que visitam a igreja de San Giovanni Rotondo, em Itália.

      Ademais, temos dezenas de outros fenómenos de incorrupção dos corpos após a morte física — por exemplo, Santa Maria Bernadette, São Francisco Xavier, o Santo Padre Pio de Pietrelcina, São João Maria Vianney, Santa Catarina de Labouré, Santa Rita de Cássia, Soror María de Jesús de Ágreda, São Silvano, Santa Cecília, Santa Catarina de Bolonha, para além de dezenas de outros casos.

      Portanto, a MINHA visão especifica acerca deste assunto é católica tradicional, e portanto, é anterior ao Concílio do Vaticano II — o que você não tem necessariamente que adoptar, porque você não é católico.

      Há uma razão mística para NÃO defender a cremação. E essa razão mística foi repudiada pela Igreja “Católica” anti-cultural do após Concílio do Vaticano II.

      2/ Você, não sendo católico tradicional, pode invocar outras razões para ser CONTRA a cremação.

      Existe uma influência cultural directa, no Ocidente (a cultura “New Age”) das religiões monistas (Budismo, por exemplo) e politeístas (Hinduísmo) orientais, e nos cultos gnósticos ocidentais (por exemplo, a maçonaria irregular actual, ou as seitas gnósticas da Baixa Idade Média) as quais, tradicionalmente, cremam os seus mortos porque desdenham e desprezam o corpo humano — o que não acontece na tradição judaica-cristã, em que o mundo material também faz parte da glória de Deus.

      Este desprezo pelo corpo humano — desprezo pelo mundo material porque, alegadamente, este é criado por um deus maléfico (gnosticismo), ou está sujeito ao malefício inerente à Samsara (budismo e Hinduísmo), foi importado pelas filosofias New Age do Ocidente (desde o tempo de Espinoza e de Schopenhauer) que descambaram, por diferenciação cultural sucessiva, em um novo culto gnóstico da Mãe-terra em que a excepcionalidade ontológica do ser humano é negada.

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      Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 7 Outubro 2021 @ 10:14 am | Responder

      • Entendo. Os homens santos do passado para os católicos possuem uma importância maior do que para os protestantes, em geral.

        O próprio Senhor Jesus teve o seu corpo após a morte cuidado tratado com carinho, piedade e consideração, embalsamado e colocado numa tumba.

        A Bíblia também nos relata que, quando do advento do Messias, “os mortos em Cristo ressuscitarão” (1 TS 4:16). Este texto, a mim, passa-me a ideia de que os restos mortais dos corpos dos santos (as pessoas que morreram com Cristo) – nem que sejam apenas os seus ossos – devem ser cuidados e, de alguma forma, preservados para esse advento.

        Saindo um pouco dessa questão teológica/bíblica, vejo como um elemento importante que deve ser conservado, a saber, essa questão de termos carinho pela memória dos nossos entes queridos, ir no funeral e de vez em quando no seu túmulo para expressarmos nossa reverência.

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        Comentar por Denis Camursa — Quinta-feira, 7 Outubro 2021 @ 1:20 pm


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