Diverti-me lendo a “análise” da Raquel Varela em relação à Manif dos coletes amarelos portugueses — em dois textículos: o primeiro com o título “Steve Banon, chegou?”, e o segundo titulado “Uma vitória para a direita e outra para extrema-direita”.
1/ A posição da Raquel Varela em relação aos "gilets jaunes" lusitanos é ambígua — porque, por um lado, ela critica os me®dia que, falando tanto da “Manif de extrema-direita”, fizeram a propaganda da chamada “extrema-direita”; e, por outro lado, a Raquel Varela diz que os motivos da Manif dos "gilets jaunes" de “extrema-direita” são justos (“salário mínimo, descida de impostos”).
E depois há uma contradição da Raquel Varela: ela esconde o facto de a Esquerda ser endogenamente contra qualquer descida geral de impostos, porque o próprio princípio de redução de impostos, entendido na cultura antropológica e exclusivamente em si mesmo, coloca em risco o estatuto (cultural) da omnipotência do Estado socialista.
“Esquerda” e “redução geral de impostos” são dois conceitos contraditórios nos seus próprios termos.
Por isso é que os me®dia (maioritariamente de Esquerda) criticaram a Manif dos "gilets jaunes" Tugas: se estes reclamam “descida de impostos” → só podem ser da “extrema-direita” — quando, de facto, é exactamente o contrário: eu ainda não vi, por exemplo, a Marine Le Pen a reclamar “descida de impostos” em França e em termos gerais, embora ela “cavalgue” habilmente os "gilets jaunes" franceses: o mais que ela faz é reclamar contra a descida de impostos (decretada pelo psicopata Macron) dos mais ricos.
A chamada “extrema-direita” francesa não é contra o roubo dos impostos: constitui-se apenas como uma forma nacionalista de socialismo.
Para a Raquel Varela, parece que são igualmente de “extrema-direita”, por exemplo, o Matteo Salvini em Itália, a Marine Le Pen em França, o Nigel Farage do UKIP (United Kingdom Independent Party), o Donald Trump e o Steve Bannon: estão todos no mesmo saco da “extrema-direita”; mas há uma diferença enorme entre dois grupos distintos: Donald Trump, Matteo Salvini e Nigel Farage (e também Viktor Órban na Hungria, entre outros) pretendem menos influência do Estado na sociedade e descida geral de impostos (por exemplo, na Hungria o IRS é de 15% para todos os cidadãos, sejam pobres ou ricos), ao passo que Marine Le Pen e Steve Bannon defendem a existência de um Estado plenipotenciário (seria impensável que Marine Le Pen defendesse qualquer baixa de impostos para os ricos: por isso é que os comunistas franceses votam nela).
Esta clivagem ideológica (a qualidade da influência do Estado na sociedade) é fundamental para definir o que é parte da chamada “extrema-direita”, por um lado, e por outro lado o que é parte do “conservantismo” (ou melhor: “páleo-conservadorismo”).
Uma das razões por que Steve Bannon foi afastado da administração de Donald Trump tem a ver exactamente com a forma diferente como os dois vêem o papel do Estado na sociedade — e não exactamente com o nacionalismo: podemos defender um Estado não-intrusivo e sermos, ao mesmo tempo, “nacionalistas” (ou “patriotas”, se preferirem, o que vai dar no mesmo).
Ora, Steve Bannon e Marine Le Pen são nacionalistas que defendem um Estado forte e intrusivo — ao contrário do que acontece, por exemplo, com Donald Trump ou/e Nigel Farage, que defendem descida de impostos, menos Estado intrusivo, e ainda assim são também nacionalistas.
a/ Ser “nacionalista” não significa necessariamente ser “fascista” ou de “extrema-direita”;
b/ O corte geral nos impostos não é característica endógena da Esquerda.
Por isso é que a análise da Raquel Varela é divertida: está errada, ou é enganadora.
2/ A Esquerda, da chamada “política identitária” (o marxismo cultural ou politicamente correcto), é que defende uma certa forma de segregação social através da violência (basta vermos a acção dos movimentos Antifa nos Estados Unidos) — exactamente o contrário do que escreve a Raquel Varela:
“E sou contra a extrema-direita, que na realidade não é sequer uma ideologia tout court como tantos pensam, mas uma associação criminosa. Um perigo para a sociedade porque não se baseia em propostas universais para o bem estar geral, através da luta política organizada, mas na defesa da segregação social, aplicada através da violência”.
Nós vemos a violência política generalizada na Esquerda (nos movimentos Antifa), e não na chamada “extrema-direita” da Marine Le Pen, por exemplo.
A própria política identitária, por parte da Esquerda, é uma forma de segregação social iníqua, que baseia uma pretensa legitimidade da segregação, na identidade da pessoa em causa.
“Bater nos imigrantes” não é a mesma coisa que “ser contra a imigração massiva e desregrada”;
mas a Raquel Varela coloca os dois conceitos no mesmo saco: para ela, as duas coisas são a mesma coisa.
“Bater nos imigrantes” (como bater em qualquer pessoa) é crime contra a integridade física, crime esse que consta do Código Penal.
“Ser contra a imigração massiva” é um conceito político racional que nada tem de criminoso — a não ser que a Raquel Varela comece a defender a criminalização das ideias.