perspectivas

Sábado, 22 Dezembro 2018

A Raquel Varela e os "gilets jaunes" Tugas

Diverti-me lendo a “análise” da Raquel Varela em relação à Manif dos coletes amarelos portugueses — em dois textículos: o primeiro com o título “Steve Banon, chegou?”, e o segundo titulado “Uma vitória para a direita e outra para extrema-direita”.


1/ A posição da Raquel Varela em relação aos "gilets jaunes" lusitanos é ambígua — porque, por um lado, ela critica os me®dia que, falando tanto da “Manif de extrema-direita”, fizeram a propaganda da chamada “extrema-direita”; e, por outro lado, a Raquel Varela diz que os motivos da Manif dos "gilets jaunes" de “extrema-direita” são justos (“salário mínimo, descida de impostos”).

E depois há uma contradição da Raquel Varela: ela esconde o facto de a Esquerda ser endogenamente contra qualquer descida geral de impostos, porque o próprio princípio de redução de impostos, entendido na cultura antropológica e exclusivamente em si mesmo, coloca em risco o estatuto (cultural) da omnipotência do Estado socialista.

“Esquerda” e “redução geral de impostos” são dois conceitos contraditórios nos seus próprios termos.

Por isso é que os me®dia (maioritariamente de Esquerda) criticaram a Manif dos "gilets jaunes" Tugas: se estes reclamam “descida de impostos” → só podem ser da “extrema-direita” — quando, de facto, é exactamente o contrário: eu ainda não vi, por exemplo, a Marine Le Pen a reclamar “descida de impostos” em França e em termos gerais, embora ela “cavalgue” habilmente os "gilets jaunes" franceses: o mais que ela faz é reclamar contra a descida de impostos (decretada pelo psicopata Macron) dos mais ricos.

A chamada “extrema-direita” francesa não é contra o roubo dos impostos: constitui-se apenas como uma forma nacionalista de socialismo.


taxas-webO que temos que fazer em primeiro lugar é definir “extrema-direita”: na medida em que não existe uma noção clara de “extrema-direita”, andamos todos a brincar com as palavras — assim como não existindo uma noção clara de “homofobia”, segue-se que tudo o que nós quisermos (subjectivamente) pode ser considerado “homófobo”.

Para a Raquel Varela, parece que são igualmente de “extrema-direita”, por exemplo, o Matteo Salvini em Itália, a Marine Le Pen em França, o Nigel Farage do UKIP (United Kingdom Independent Party), o Donald Trump e o Steve Bannon: estão todos no mesmo saco da “extrema-direita”; mas há uma diferença enorme entre dois grupos distintos: Donald Trump, Matteo Salvini e Nigel Farage (e também Viktor Órban na Hungria, entre outros) pretendem menos influência do Estado na sociedade e descida geral de impostos (por exemplo, na Hungria o IRS é de 15% para todos os cidadãos, sejam pobres ou ricos), ao passo que Marine Le Pen e Steve Bannon defendem a existência de um Estado plenipotenciário (seria impensável que Marine Le Pen defendesse qualquer baixa de impostos para os ricos: por isso é que os comunistas franceses votam nela).

Esta clivagem ideológica (a qualidade da influência do Estado na sociedade) é fundamental para definir o que é parte da chamada “extrema-direita”, por um lado, e por outro lado o que é parte do “conservantismo” (ou melhor: “páleo-conservadorismo”).

Uma das razões por que Steve Bannon foi afastado da administração de Donald Trump tem a ver exactamente com a forma diferente como os dois vêem o papel do Estado na sociedade — e não exactamente com o nacionalismo: podemos defender um Estado não-intrusivo e sermos, ao mesmo tempo, “nacionalistas” (ou “patriotas”, se preferirem, o que vai dar no mesmo).

Ora, Steve Bannon e Marine Le Pen são nacionalistas que defendem um Estado forte e intrusivo — ao contrário do que acontece, por exemplo, com Donald Trump ou/e Nigel Farage, que defendem descida de impostos, menos Estado intrusivo, e ainda assim são também nacionalistas.

a/ Ser “nacionalista” não significa necessariamente ser “fascista” ou de “extrema-direita”;

b/ O corte geral nos impostos não é característica endógena da Esquerda.

Por isso é que a análise da Raquel Varela é divertida: está errada, ou é enganadora.


2/ A Esquerda, da chamada “política identitária” (o marxismo cultural ou politicamente correcto), é que defende uma certa forma de segregação social através da violência (basta vermos a acção dos movimentos Antifa nos Estados Unidos) — exactamente o contrário do que escreve a Raquel Varela:

“E sou contra a extrema-direita, que na realidade não é sequer uma ideologia tout court como tantos pensam, mas uma associação criminosa. Um perigo para a sociedade porque não se baseia em propostas universais para o bem estar geral, através da luta política organizada, mas na defesa da segregação social, aplicada através da violência”.

Nós vemos a violência política generalizada na Esquerda (nos movimentos Antifa), e não na chamada “extrema-direita” da Marine Le Pen, por exemplo.

A própria política identitária, por parte da Esquerda, é uma forma de segregação social iníqua, que baseia uma pretensa legitimidade da segregação, na identidade da pessoa em causa.

“Bater nos imigrantes” não é a mesma coisa que “ser contra a imigração massiva e desregrada”;

mas a Raquel Varela coloca os dois conceitos no mesmo saco: para ela, as duas coisas são a mesma coisa.

“Bater nos imigrantes” (como bater em qualquer pessoa) é crime contra a integridade física, crime esse que consta do Código Penal.

“Ser contra a imigração massiva” é um conceito político racional que nada tem de criminoso — a não ser que a Raquel Varela comece a defender a criminalização das ideias.

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2 comentários »

  1. “Extrema-direita” reivindicando “salário mínimo”? Percebi que essa senhora não entende de anarcocapitalistas (a extrema-direita). Parece que não gira bem da cachola.

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    Comentar por Jobson Coutinho — Domingo, 23 Dezembro 2018 @ 2:35 pm | Responder

  2. Caro Orlando, já viu a última do Anselmo Borges? E desta vez não está sozinho… (Em defesa deles, porém, há o facto de que tudo aquilo que vem da Marta Leite Ferreira é lodo tóxico.)

    https://observador.pt/especiais/as-respostas-as-questoes-dificeis-sobre-o-natal-mesmo-as-mais-inconvenientes/

    Se bem que esse Manuel Linda também não enganava ninguém. Apenas nunca tinha sido é tão explícito como agora, pelo menos que eu me tenha apercebido.

    Isto só lá vai mesmo com uma cerimónia solene de anatemização… Há que deixar de ter medo de a usar quando é necessária! Se não tiver efeito nos hereges, ao menos sempre se protegem os fiéis!

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    Comentar por Simão Thomaz de Vilhena — Segunda-feira, 24 Dezembro 2018 @ 12:50 am | Responder


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