perspectivas

Segunda-feira, 13 Agosto 2018

A felicidade das bestas

Filed under: ética,Holanda,modernidade — O. Braga @ 10:53 am

 

Vemos aqui, no Blasfémias, um fragmento de uma troca de correspondência privada que se torna pública, porque quem a quiser ler, pode ler. O assunto é a Holanda, o país de origem dos Anabaptistas, e mais concretamente, a Amesterdão, a cidade das putas nas montras.

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Foi um holandês (de origem francesa e emigrado em Inglaterra), de seu nome Bernard de Mandeville, que deu o mote à sociedade moderna: “os vícios privados são virtudes públicas” — escreveu Mandeville. Só que a Holanda actual levou este princípio do holandês Mandeville ao seu limite previsível: os vícios públicos passaram agora a ser virtudes privadas: esta é uma das razões por que, na Holanda, as putas públicas se exibem em montras privadas.


Com o mundo moderno, o sucesso mundano passa a ser mais importante do que as exigências da ética.

Por isso, era necessário criticar a “hipocrisia” dos chamados “virtuosos” que praticavam a “caridade cristã”: a denúncia de Mandeville (e, mais tarde, na mesma linha de Mandeville, as críticas de Hutcheson, do paneleiro David Hume, e de Adam Smith aos “caridosos cristãos”) à caridade cristã tornou-se em uma nova forma de hipocrisia.

O holandês Mandeville (descendente de Huguenotes franceses), sublinhando a prosperidade natural do vício, torna-se no propagandista de facto daquilo a que, mais tarde, Adam Smith chamará de “mão invisível”.

Se o governo é ainda necessário (diz Mandeville), torna-se praticamente em uma espécie de “piloto automático”, se a máquina social está bem montada. A bebedeira, o deboche e o putedo fazem “avançar” o comércio e a indústria; até os assassinatos são úteis, na perspectiva da “felicidade da colmeia” — este conceito de “felicidade da colmeia” esteve na origem do princípio utilitarista, da autoria de Hutcheson (e não de Bentham, como se diz por aí), da “maior felicidade para o maior número”.

Mandeville foi o precursor da coisa. Depois dele surgiu quem lhe “dourou a pílula”: Hutcheson estabeleceu a trave-mestra do utilitarismo (que é uma versão moderna da ética da Escola Cirenaica): “a acção que consegue a maior felicidade para um maior número de pessoas”, afirma Hutcheson, “não pode ser má”. E quem não pertence ao “maior número”, que se foda! (Hutcheson não afirmou isto, mas infiro eu): para isso é que existe a eutanásia!

Mandeville já tinha denunciado a “hipocrisia da falsa caridade cristã” do assistencialismo aos pobres: diz Mandeville que é preciso deixar os pobres sofrer as leis naturais e, sobretudo, alegrar-nos com a abundância de crianças pobres mas com mérito, que foram educadas na resignação porque são “o maior e o mais vasto beneficio que provém da sociedade” (sic). Ou seja, se os pobres tiverem mérito, está tudo bem porque resignados estão; mas se houver pobres sem mérito, então não fazem parte do princípio da “felicidade para o maior número”… e portanto, que se fodam!

E o panasca David Hume, na sequência de Mandeville e de Hutcheson, questiona-se: « ¿se a utilidade é o fundamento da virtude, como qualificar de “vício” aquilo que é útil?! ». Ora aqui está!

Defendendo-se em causa própria, o fanchono pergunta ¿como pode ser “vício”, por exemplo, a utilidade do apanascamento nos WC públicos, ou a utilidade de arrear as calças na via pública?! — porque quem “arreia a jiga” na rua, ou se apanasca pelas esquinas e bosques públicos, serve-se da utilidade ditada pelos seus próprios interesses. ¿Haverá maior utilidade do que a do nosso próprio interesse?!

Finalmente, Adam Smith retirará qualquer resquício de moral (ainda existente) da actividade económica. Os negócios são negócios; amigos à parte.

O que interessa é a “felicidade da colmeia”, ou, nos tempos que correm. a felicidade das bestas.

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3 comentários »

  1. Cara, os anabatistas não surgiram na Holanda, dos Menonitas. Os anabatistas existem desde o século III, quando houve a primeira cisão na cristandade. Parte dos cristãos uniram-se a Roma (os católicos) e a outra parte – por entender que o crente não deveria participar da política – seguiu fiel ao Novo Testamento. E por isso foram perseguidos pela igreja institucionalizada. Há passagens históricas que corroboram essa teoria, como é registrado em “O Rastro de Sangue”, do Dr. James Milton Carroll.

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    Comentar por Pepe Pereira — Segunda-feira, 13 Agosto 2018 @ 7:55 pm | Responder

    • Você está a fazer uma confusão entre os Anabaptistas, por um lado, e os Valdenses (da Idade Média), ou com os Cátaros e Albigenses, por outro lado.

      ¿Por que é que você, antes de abrir a boca, não pensa um pouco e faz uma pesquisa?!

      https://en.wikipedia.org/wiki/Anabaptism#History

      Os Anabaptistas são uma deriva (uma sequela) do Calvinismo.

      Leia e aprenda, e não me faça perder tempo com merda desta!

      Os Anabaptistas surgiram com o calvinista Ulrich Zwingli no final do século XVI (século 16), praticamente simultaneamente na Suíça e na Holanda — e só mais tarde o Anabaptismo se expandiu para outros países, como a Inglaterra, por exemplo.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 13 Agosto 2018 @ 8:20 pm | Responder

      • E por falar em Zwinglio, já aproveitando o tema do artigo, diz o mesmo:

        “Bem sabeis a vida vergonhosamente nefanda que até aqui (falamos só de nós) infelizmente temos levado com mulheres que induzimos ao mal e com as quais temos dado muitos escândalos”. Fonte: Zwinglio, Werke, I, 225.

        Lutero e os primeiros “reformadores” pregaram a poligamia.

        Eu repito com Dante: “Entregou-se tanto ao vício da luxúria que em sua lei tornou lícito aquilo que desse prazer, para cancelar a censura que merecia.”

        P.S.: James Milton Carrol é anistórico quando associa aquela mentira sobre o Catolicismo e o imperador Constantino. Seus livros contêm mentiras flagrantes para um historiador sério ou até mesmo um leitor atento.

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        Comentar por Augusto Paiva — Domingo, 2 Setembro 2018 @ 8:40 am


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