perspectivas

Quinta-feira, 15 Fevereiro 2018

As bruxas: as feministas da Idade Média

Filed under: feminazismo,feminismo,Idade Média — O. Braga @ 6:25 pm

 

“ Yo no creo en brujas, pero que las hay, ¡las hay!”


Em 1395 foi publicada pela Faculdade de Teologia de Paris, uma decisão segundo a qual a ofensa a Deus (abnegação do 1º Mandamento) não era uma simples abjuração, mas antes era uma forma de idolatria — o que era uma consequência de a bruxaria ser (naquela época) considerada como uma ofensa ao 1º Mandamento, conforme a tradição da teologia católica; mas também era uma consequência do ensinamento de Jean Gerson segundo o qual a moral pertencia ao domínio da fé, o que dava autoridade ao Antigo Testamento que já considerava a bruxa como uma idólatra (como vemos, o conceito de “bruxa” é anterior ao Cristianismo).

isabel-moreira-bruxa-web

A ideia segundo a qual a feitiçaria era uma ofensa à “religião” (sendo que a feitiçaria seria organizada em uma ou várias seitas) conduzia à conclusão de que, através da bruxaria, o Diabo não era apenas um agente da actividade maléfica das bruxas, mas antes era o próprio objecto de culto das bruxas.

Em 1480 foi publicado pelos dominicanos Jacob Sprenger e Heirich Krämer (e com aprovação papal), o Malleus maleficarum (ou Martelo das Feiticeiras), que era uma descrição dos actos das bruxas. A partir daí, a bruxa passou a ser, a par com o usurário, um inimigo da raça humana.


Sendo que, no imaginário popular ou/e erudito, as feiticeiras ou bruxas se organizavam em seitas, não é difícil sabermos que as seitas ultra-puritanas (e gnósticas) dos cátaros ou albigenses, considerados os maiores rivais da ortodoxia medieval, foram identificadas com a bruxaria; e outro grupo puritano e gnóstico, também ele identificado com a bruxaria, a Vauderie ou Waldensianos, apenas conseguiu sobreviver, enquanto seita, nas escarpas dos Alpes ocidentais, afastados da comunidade católica.

Interessante, a diferença entre a feiticeira, por um lado, e o feiticeiro, por outro lado.

As feiticeiras, quando a sua ira era provocada, afligiam o corpo dos adultos e das crianças, matavam porcos, espalhavam a doença entre o gado — o conhecido “mau olhado” da bruxa —, tornavam os homens sexualmente impotentes, ou faziam cair tempestades para arruinar as colheitas de alguém. A simples misoginia não chega para explicar por que razão se pensava que a maior parte das criaturas maléficas seriam do sexo feminino.

As mulheres, especialmente se eram simultaneamente velhas, solteiras e de “poucos amigos”, eram como uma espécie de “monges”, e recorreriam a métodos excepcionais para conseguirem os seus objectivos — porque a sua condição existencial impedia-as de utilizarem os métodos supra-naturais convencionais e admitidos.


As bruxas eram portadoras de um ressentimento (a que hoje chamaríamos de “ressentimento feminista”), em contraposição com os feiticeiros que eram frequentemente membros do clero (católico): onde o feiticeiro actuaria pelo fogo e pela espada, a feiticeira actuaria pela doença e pela tempestade.

As bruxas não eram apenas inimigas de um determinado católico, mas faziam parte de uma conspiração geral contra a Igreja Católica. Por exemplo, as bruxas de Macbeth (Shakespeare) colaboravam com outras bruxas para ampliar o dano infligido à sociedade, e elas próprias não negavam que, por detrás de cada manifestação de maldade, se procurava a mão do inimigo universal, isto é, do próprio Diabo.

É ponto assente que se imaginava que as bruxas formavam uma “seita de maldade”, semelhante à dos cátaros ou da mesma espécie da dos Waldensianos — porque a seita era o tipo de dissidência que os ortodoxos (católicos) melhor conheciam.

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2 comentários »

  1. Em relação às aprovação papal existe a seguinte introdução na edição pt-br da edição bestbolso:

    «Heinrich Kramer (1430-1505) foi um religioso e Inquisidor alemão. Juntou-se à Ordem dos Pregadores ainda jovem, e foi indicado para a posição de inquisidor por volta de 1474. Solicitou ao papa Inocêncio VIII permissão para investigar e punir atos de bruxaria na Alemanha, e a Bula Papal emitida em resposta serviu como legitimação para que ele escrevesse O martelo das feiticeiras. Entendido como um guia para reconhecer, capturar e punir bruxas, o livro foi condenado pela Universidade de Colônia, instituição para a qual foi submetido para aprovação, por instigar atos antiéticos, ilegais e contrários à doutrina católica. Ainda assim, o livro foi muito utilizado pelas cortes seculares, e Kramer continuou sendo convidado para fazer pregações sobre o assunto.

    James Sprenger (1435-1495) foi admitido como noviço na Ordem dos Pregadores em 1452, tornou-se posteriormente mestre e deão da faculdade de teologia da Universidade de Colônia, e então foi indicado como Inquisidor das províncias de Mainz, Trier e Colônia. Apesar de ser com frequência apontado como coautor de O martelo das feiticeiras, junto a Heinrich Kramer, historiadores afirmam que seu papel foi o de colaborador, e que sua influência foi usada para atribuir caráter oficial à publicação de Kramer.»

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    Comentar por CondeGil — Sexta-feira, 16 Fevereiro 2018 @ 8:38 pm | Responder

    • 1/ preste atenção ao meu texto ! Não existiram — na Idade Média — “punições a bruxas” enquanto pessoas individuais; isso é mito protestante.

      O que existiram foram perseguições a seitas divergentes da ortodoxia católica, seitas essas que eram tidas como “praticantes de bruxaria”, porque, como escrevi, a seita era o tipo de dissidência que os ortodoxos (católicos) melhor conheciam.

      2/ o BestBolso está completamente errado !

      A publicação do “Martelo das Feiticeiras” teve aprovação do Papa em 1480. Essa aprovação poderá ter sido retirada mais tarde pelo Papa que lhe seguiu, mas na época da publicação do livro, esta foi aprovada pelo Papa.

      “Aprovar a publicação” não significa “aprovar a perseguição e a punição das bruxas”. São coisas diferentes.

      Segundo o medievalista Umberto Eco (italiano) — a cujas obras tive acesso, também para escrever este verbete —, Jacob Sprenger e Heirich Krämer pertenciam à mesma ordem religiosa (dominicanos) e foram (os dois) co-autores do livro.

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      Comentar por O. Braga — Sábado, 17 Fevereiro 2018 @ 10:24 am | Responder


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