perspectivas

Quarta-feira, 27 Dezembro 2017

Por outras palavras: são burros

 

É curioso o facto de os ateístas (em geral) se preocuparem (pelo menos) tanto com Deus quanto os católicos. dawkins-and-freud-web

É o caso do Ludwig Krippahl: a quantidade de textículos que ele publica com referência a “Deus” excede mesmo (em termos relativos) a quantidade dos meus textos sobre o tema. Se eu fosse crente de Freud, diria que a psicanálise poderia explicar esse fenómeno ateísta; mas, depois de Karl Popper, sabemos que a psicanálise (assim como o materialismo dialéctico marxista) não é falsificável, e por isso não pode fazer parte da ciência.

Outra característica da escrita do Ludwig Krippahl é a logomaquia: ele passa de alhos a bugalhos a uma velocidade surpreendente, criando nexos causais onde não estes existem, em termos práticos; por exemplo, quando, baseando-se na definição enviesada de “esperança”, parte para a substituição da religião pela ciência.


A fé é confiança. A “fé em Deus” é a confiança no Criador do Universo.

A argumentação do Ludwig Krippahl é velhinha e já passou de moda; baseia-se no argumento ateísta, naturalista e cientificista do “God of the Gaps”. Por exemplo, a ciência sabe como o “estrondear da divindade” (o relâmpago e a trovoada) se transforma (através do pára-raios) em um risco facilmente dominável. ¿Não será este um exemplo para o facto de a religião se encontrar em retirada, tendo de deixar o campo aberto para a ciência? (pergunta o naturalista).

Ou seja, para o Ludwig Krippahl e quejandos, a ciência substitui a fé (religiosa), enquanto por “fé” se entende, então, a consideração de explicações não provadas e sobrenaturais como sendo verdadeiras.

Tendo como base este critério, seria então possível esperar — e aqui está a esperança cientificista do Ludwig Krippahl — que cada vez mais fenómenos do nosso mundo se tornem acessíveis a uma interpretação natural (e naturalista). O objectivo final consistiria, então, num saber total; e a questão de Deus seria resolvida de uma maneira negativa: a religião teria de retirar-se cada vez mais para o campo do “até-agora-não-explicado” — e é nisto que consiste o conceito de “God of the Gaps” —, até que, um dia, Lhe acabar o ar, e o “Deus-tapa-buracos-do-conhecimento” não ter espaço para viver.

A religião poderia (segundo a fé e a esperança do Ludwig Krippahl e quejandos), talvez, nutrir ainda a esperança de que restará sempre algo de inexplicável.


cientismoA ciência baseia-se em factos, e em nexos causais entre factos. Nasce assim o mundo moderno, onde, na opinião dos imbecis, a religião já não tem qualquer lugar. Para os idiotas, o tema da “religião” fica arrumado: o que conta é o “facto”.

¿Mas o que é um “facto”? As percepções sensoriais são, em primeiro lugar, percepções da retina que transmitem imagem das coisas. ¿Os factos são imagens?!

Quando uma pedra está ao sol, aquece. ¿Será o Sol a “causa” do calor da pedra? Desde Kant que sabemos que a “causa” é uma ideia que existe apenas na nossa cabeça; não é possível ver a “causa” em lugar algum. A “causa” só existe no nosso pensamento. Ou seja, o facto de “a-pedra-aquecida-pelo-Sol” é um produto da percepção sensorial e do esforço interpretativo do cérebro humano.

Segundo Kant, transportamos connosco uma multitude de interpretações / categorias deste tipo na nossa cabeça, e aplicamo-las ao caos das percepções sensoriais, de modo a que possa nascer daí um mundo ordenado. Isto significa que um facto é algo que adquiriu uma estrutura por intermédio da nossa consciência. E com esta definição, inverte-se subitamente a situação de partida da ciência: um “facto” é “algo feito” (segundo a origem latina da palavra, factum): é necessária uma série de categorias (antecipantes) e axiomas na nossa cabeça para transformar uma percepção da retina (por exemplo) em uma percepção sensorial.

Não existe nenhum órgão dos sentidos no qual não tivessem sido integradas geneticamente teorias antecipantes.

A observação (por exemplo, a observação da parte de um cientista) não é um comportamento passivo como é, por exemplo, o de uma câmara fotográfica, mas antes é uma figuração activa semelhante ao trabalho de um pintor. O cérebro pode estruturar estímulos da percepção sobre a retina de modos muito diferentes: o olho é entendido como um sistema de processamento de dados que projecta formas na Natureza. De um modo geral a percepção tem mais ver com a interpretação do que com a recepção bruta de informação.

Segundo Karl Popper, qualquer percepção ou observação já está (previamente) “impregnada de teoria”, através das categorias estabelecidas pelo nosso cérebro, por exemplo, ou da nossa linguagem — visto que essas categorias também estruturam as nossas actividades intelectuais.

Portanto, verificamos que não é possível afirmar, de modo algum, que os factos podem ser pressupostos indiscutivelmente como pontos de partida da ciência.

Porém, independentemente da forma como surge o nosso mundo dos factos, este é o ponto de partida da investigação científica: a ciência baseia o seu êxito na capacidade de suprimir questões e partes da realidade — que é o que fazem os naturalistas da laia do Ludwig Krippahl ou do Carlos Fiolhais: suprimem ou obnubilam partes da realidade em nome da defesa do cientismo.


Parece-me óbvio que o Ludwig Krippahl (ou o Carlos Fiolhais ) nunca perceberão o que eu quis aqui dizer com este texto, porque têm o espírito obstipado. São técnicos especializados, mas são espiritualmente tapados, míopes intelectuais incapazes de ver dois palmos à frente dos respectivos narizes. Por outras palavras, são burros, mas com alvarás de inteligentes conferidos pela cáfila elitista e gnóstica que nos governa.


Voltemos à ciência. Esta reúne uma quantidade de medições e observações que as transformam em teorias e em hipóteses. No entanto, pode-se dizer — em bom rigor — que não existe qualquer certeza para os prognósticos da ciência, porque todas as observações foram feitas no passado. Não existe qualquer garantia de que, no futuro, os fenómenos voltem a surgir da mesma forma — apesar de existir uma certa probabilidade; e esta probabilidade é tanto maior quanto maior for a frequência com que certos fenómenos foram observados no passado. Porém, os dados sensoriais podem dar origem a teorias muito diferentes que se transformam em diferentes modelos de interpretação (paradigma).

Ou seja, não é possível termos (total) confiança na ciência, e por isso não podemos basear a nossa “esperança” (propriamente dita), na ciência — porque uma qualquer teoria científica caracteriza-se pela abertura à possibilidade de fracasso. Segundo Karl Popper, é irrealista exigir certeza à ciência, uma vez que que ciência é, por princípio, hipotética e falível.

Substituir literalmente o conceito de “esperança com Deus” pelo conceito de “esperança com a ciência” é um absurdo que só pode vir de um atrasado mental.


Em súmula:

  • A ideia segundo a qual a ciência pode substituir a religião através de um saber inequívoco é uma ideia do século XIX que está ultrapassada.
  • Apesar dos seus êxitos, a ciência (propriamente dita) já não possui o romantismo do século XIX: oferece modelos e hipóteses que permitem laborar com maior ou menor sucesso, mas que permanecem refutáveis.
  • Ora, a esperança não se pode basear senão na confiança que se baseia na certeza que a ciência não tem. Por falhar este raciocínio tão simples é que o Ludwig Krippahl é burro.


Ficheiro PDF do texto do LK.

1 Comentário »

  1. Saudações! Podemos conversar ao vivo ou por escrito sobre estas coisas?

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    Comentar por Henrique — Segunda-feira, 1 Janeiro 2018 @ 12:36 pm | Responder


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