perspectivas

Quarta-feira, 28 Setembro 2016

O Domingos Faria e a confusão do amor politicamente correcto

 

O conceito de “amor” tem sido a ser prostituído por ditos “intelectuais”, e parece que o Domingos Faria embarca no sofisma.

“(…) quando se diz que os homossexuais são incapazes de ter crianças que são o fruto dos seus actos de amor, o Swinburne parece estar a fundir os conceitos de amor e de sexo/procriação. Todavia, tais conceitos não são coextensionais; pois, há muitos actos sexuais que não são actos de amor, bem como há actos de amor que não são actos sexuais. Por exemplo, as carícias, olhares, ou até a partilha das tarefas domésticas não são afinal "actos de amor"? Mas terão esses actos de estar fundidos ou ligados com actos sexuais? Parece óbvio que não”.


Tradicionalmente, faz-se a distinção entre espécies diferentes de “amor”:
  • libido (o amor pelo prazer e o sexo)
  • eros (o amor pelo belo, o deixar-se comover pela sedução do sedutor)
  • filia (o amor entre os corações que não podem viver um sem o outro)
  • ágape (o amor imanente pela comunidade, o amor pelo “outro” em abstracto, o amor pela sociedade, o amor pela continuidade e futuro da pólis)

O amor propriamente dito é a aspiração à unidade daquilo que se completa (também na Natureza). Aquilo que, por princípio, não se completa (naturalmente), também não pode constituir uma unidade. Neste sentido, o amor entre seres humanos é constituído pela libido, eros, filia e ágape.

Diz o Domingos Faria que o acto da libido pode não ser um “acto de amor” — enquanto que, para outros, o “ amor” pode ser reduzido ao acto libidinoso.

O amor propriamente dito é a aspiração à unidade daquilo que se completa (na Natureza).
Aquilo que, por princípio, não se completa (naturalmente), também não pode constituir uma unidade.

O acto sexual amoroso (ou seja, que inclui em si a libido, eros, a filia e o ágape) do qual pode resultar a procriação — que não tem que ser sempre procriativo, mas que é intrinsecamente procriativo — entra na dimensão do ágape (no sentido grego de “amor à comunidade ou amor ao bom futuro da pólis”) que o acto sexual homossexual não tem, porque o acto sexual amoroso do qual pode resultar a procriação contribui para a continuidade e para o futuro da sociedade.

O acto sexual amoroso do qual pode resultar a procriação contém em si a libido, o eros, a filia e o ágape — ao passo que, mesmo que o acto sexual homossexual abranja em si mesmo a filia, é intrinsecamente desprovido de ágape.

Ou seja, o “acto de amor” propriamente dito não pode ser reduzido à libido ou ao eros: tem que ter em si, também, a filia e o ágape. Quando nós separamos o “acto de amor”, por um lado, e o “acto sexual”, por outro lado, estamos simultaneamente a retirar o ágape dos conceito de “amor” e de “acto sexual”.

Obviamente que há sempre excepções à regra: há casais heterossexuais que não querem procriar (eliminam o ágape da sua relação amorosa e/ou sexual), e pares de homossexuais que adoptam crianças abandonadas (tentando suprir a insuficiência endógena do seu relacionamento sexual). Mas o que o Domingos Faria não deve fazer é tomar a excepção pela regra, negando o juízo universal.


É evidente que um ser humano não é (por exemplo) uma salamandra. Nas salamandras, a fertilização necessária para a procriação obtém-se naturalmente sem cópula sexual.

Nos insectos, pode-se observar que o macho não introduz os seus órgãos genitais nos da fêmea, mas antes pica a fêmea nas costas — e isto não é natural, considerando a posição dos órgãos sexuais: no entanto, na natureza dos insectos, isto não leva à eliminação de um comportamento não-natural, mas antes leva à normalização da constituição física da fêmea que desenvolve uma nova abertura nas costas no lugar onde o macho realiza a picada, abertura na qual o macho copula. Mas (penso que aqui não estou errado), o ser humano não é um insecto.

Portanto, eu tenho uma certa dificuldade em comparar o ser humano com uma salamandra ou com um insecto — como faz a sociobiologia que fundamenta (talvez inconscientemente) a tese do Domingos Faria — porque um insecto ou uma salamandra não têm consciência ou percepção da libido, do eros, da filia e do ágape.

A biologia e a sociobiologia podem criticar as normas sociais humanas — por exemplo, podem criticar a norma social que diz que “o sexo deve servir para procriar” —, mas não podem fornecer uma fundamentação das normas (sejam quais forem estas), porque a situação da natureza animal não pode ser transposta sem reservas para o mundo dos seres humanos: não é possível deduzir directamente valores e normas a partir dos factos naturais sem cometer um sofisma naturalista.

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