perspectivas

Segunda-feira, 1 Agosto 2016

O realismo do reaccionário

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 10:39 am

 

O reaccionário não procura andar para trás no tempo: em vez disso, procura mudar de direcção. O passado está morto e enterrado; o futuro a Deus pertence.

Do passado, o reaccionário colhe a Tradição, mas não o reifica porque isso seria uma ucronia e uma impossibilidade objectiva; mas ao procurar mudar a direcção dos acontecimentos presentes, o reaccionário reafirma a sempiterna noção segundo a qual os problemas fundamentais do ser humano não têm solução humana.

8 comentários »

  1. O reaccionário descrê do homem ou espera pelo homem?

    Comentar por João Marafuga (@marafuga) — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 11:05 am | Responder

    • O que você pretende perguntar é o seguinte:

      ¿O reaccionário acredita no ser humano (em geral), mas enquanto indivíduo? — “acreditar” entendido aqui no sentido de “esperar” dele alguma coisa.

      Ou seja, a dicotomia inerente à sua pergunta não existe ou é uma falsa dicotomia.

      É claro que o reaccionário acredita no ser humano enquanto ser inserido no Cosmos, o que significa que os problemas fundamentais do ser humano não têm solução humana. Sublinho: fundamentais.

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 1:30 pm | Responder

  2. Sr. Braga, não complexifique o que não tem complexidade.
    Eu perguntava se o reaccionário descrê da humanidade ou se espera o/um salvador.

    Comentar por João Marafuga (@marafuga) — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 2:22 pm | Responder

    • A realidade é complexa; não convém simplificar muito aquilo que é em si mesmo complexo.

      A sua pergunta é agora diferente, porque fala em “Humanidade”, em vez de “homem”. A Humanidade implica um colectivo, e o homem é individual. Faço minhas as palavras de Fernando Pessoa, esse grande reaccionário:

      «A primeira verdade da sociologia (…) é que a humanidade não existe. Existe, sim, a espécie humana, mas num sentido somente zoológico: há a espécie humana como há a espécie canina. Fora disso, a expressão “humanidade” pode ter somente um sentido religioso ― o de sermos todos irmãos em Deus, ou em Cristo.

      (…)

      Na realidade social há só dois entes reais ― o indivíduo, porque é deveras vivo, e a nação, porque é a única maneira como esses entes vivos, chamados indivíduos, se podem agrupar socialmente de um modo estável e fecundo. A base mental do indivíduo (…) é o egoísmo (…). Esse egoísmo é o da Pátria, em que nos reintegramos em nós através dos outros, fortes do que não somos. »

      “A humanidade não existe sociologicamente, não existe perante a civilização.

      Considerar a humanidade como um todo é, virtualmente, considerá-la como nação; mas uma nação que deixe de ser nação passa a ser absolutamente o seu próprio meio. Ora um corpo que passa a ser absolutamente do meio onde vive é um corpo morto.

      A morte é isso — a absoluta entrega de si próprio ao exterior, a absoluta absorção no que o cerca. Por isso, o humanitarismo e o internacionalismo são conceitos de morte, só cérebros saudosos do inorgânico o podem agradavelmente conceber.

      Todo o internacionalista deveria ser fuzilado para que obtenha o que quer: a integração verdadeira no meio a que tende a pertencer. Só existem nações, não existe humanidade.

      Posto isto, a resposta está dada: o reaccionário não espera um salvador (um ser humano) para humanidade, por um lado, e por outro lado, a humanidade é composta por indivíduos, e é nos indivíduos que o reaccionário acredita.

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 3:43 pm | Responder

  3. Sr. Braga, eu gostava, se tiver alguma disponibilidade para isso, de me levantar, quero dizer, de ir de baixo para cima.
    Agora, a minha pergunta é esta: Eça de Queirós, estava ou não contra a ordem burguesa? Olhe, eu próprio lhe dou a resposta: Estava.
    Nesta conformidade, um reaccionário não será alguém não-pacificado com a História? Ele não será alguém que se sente traído pela História? E se for “sim” as respostas às perguntas, o reaccionário descrê do homem e espera pelo homem, isto é, pelo salvador… que a vinda deste será certa. Mas por este lado, o reaccionário articula-ser com a esquerda naquele mesmo ponto onde ele e esta chegam, encetando a marcha de costas.

    Comentar por João Marafuga (@marafuga) — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 7:12 pm | Responder

  4. Não é impossível porque você coloca mal o problema. A questão não é entrar numa máquina do tempo e voltar, mas simplesmente restaurar valores, costumes e uma ordem moral pretérita. Isso é perfeitamente possível, afinal é baseado em coisas que existiram objetivamente. Ora, se o revolucionário pode moldar o mundo a um futuro que ele trama na cabeça dele, que nunca existiu na prática! Neste sentido, por que o reacionário não poderia restaurar o passado.
    Vou dizer o que é mesmo impossível: ser conservador e não ser reacionário. Porque o conservadorismo de Scruton, Pereira Coutinho e demais, conserva o presente. Ora, o presente será futuro, amanhã. Logo, ele está apenas contribuindo com as mudanças revolucionárias. Desculpe a linguagem, mas não vejo outra forma de exemplificar o conservadorismo do presente. Os conservadores dos valores atuais, passam lubrificante, enquanto os revolucionários metem a pica.

    Comentar por Cinéfilo Realista (@cinerealista) — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 9:43 pm | Responder

  5. Se leio, como li, o livro AS CIDADES E AS SERRAS, o autor aparece aos meus olhos como um abjecto reaccionário. Para o meu amigo, parece haver reaccionários e reaccionários. Uns seriam de trazer por casa; outros seriam autênticos. Espero não se poder descortinar aqui nenhuma espécie de desconstrucionismo.
    A verdade é que eu detesto muitas coisas desta república que temos… sem acreditar que a solução seja o regresso à monarquia. É de Portugal que falo. Como sair daqui? Eu aponto para a ideia de que o povo levante barreira à destruição dos relacionamentos… a começar pelo relacionamento dos relacionamentos que é essa união entre marido e mulher.

    Comentar por João Marafuga (@marafuga) — Segunda-feira, 1 Agosto 2016 @ 10:47 pm | Responder

    • Você diz que não quer complicar mas depois chegamos os dois à conclusão de que as coisas não são simples. Você aborda várias temáticas ao mesmo tempo e em três comentários diferentes, o que torna ainda mais difícil a resposta. Eu vou tentar responder àquilo que eu considero ser relevante nos seus três comentários, fazendo uma síntese dos ditos.

      1/ Sobre Eça de Queirós

      Eça de Queirós foi um escritor realista, ao contrário da esmagadora maioria dos escritores portugueses do século XIX que eram românticos. A crítica dos românticos à burguesia era muito mais violenta do que a do Eça. Os românticos chegaram ao ponto de colocarem em causa a existência dos costumes — coisa que o Eça não fez. Os românticos são o produto da Revolução Francesa, e os reaccionários recrutaram-se entre os espectadores da primeira fila da revolução.

      O reaccionário é aquele que não só tem um sentido apurado para detectar o absurdo, mas também tem um palato adequado para o saborear: e neste sentido, o Eça soube saborear o absurdo que existia na burguesia do seu tempo. Mas isso não significou que o Eça colocasse em causa os costumes e a civilização, como o fizeram implícita- ou explicitamente os românticos (como Camilo Castelo Branco).

      ¿Eça foi reaccionário? Penso que não. Talvez o único escritor português reaccionário terá sido Fernando Pessoa.

      2/ Quem “descrê do homem e espera pelo homem” é o revolucionário (e não o reaccionário), porque para aquele, o futuro é uma certeza e o passado é colocado em dúvida. O revolucionário descrê do homem do passado e espera pelo Homem Novo que, no fundo, de humano tem pouco ou nada.

      As pessoas normais consideram que o passado é algo imutável e que o futuro é algo de contingente ― “o passado está enterrado e o futuro a Deus pertence”, diz o senso-comum.

      A mente do revolucionário não raciocina desta forma: para ela, o futuro utópico é um objectivo que será inexoravelmente atingido ― o futuro utópico é uma certeza; não pode ser mudado.
      Por outro lado, a mente revolucionária considera que o passado pode ser mudado (e ferozmente denunciado!) através da reinterpretação da História por via do desconstrucionismo ideológico Em suma: o futuro é uma certeza, e o passado uma contingência.

      Portanto, aquilo que você diz ser uma característica do reaccionário, é, em vez disso, uma característica do revolucionário.

      Os movimentos nazi na Alemanha e fascista em Itália foram movimentos revolucionários.

      3/ A questão do tempo

      aliás, vou escrever um verbete sobre esse assunto.

      Para o reaccionário, o tempo profano é cíclico (ver, por exemplo, Santo Agostinho), e só não é cíclico o tempo que resulta da erupção do sagrado na realidade humana (como por exemplo, a vida de Jesus Cristo). Pelo contrário, tanto a burguesia como a esquerda, concebem o tempo linear — como uma linha que tem um princípio e um fim.

      O tempo cíclico é traduzido na ideia de Fernando Pessoa de “velhice do eterno novo”: o eterno novo é velho.

      A burguesia e a esquerda pensam, por exemplo, que através de leis do Direito Positivo, o tempo linear não pode retroceder e a realidade transforma-se radicalmente; tudo o que a lei estabeleceu é um dado absolutamente adquirido e não pode ser revogado.

      Mas o reaccionário vê nisso apenas a “velhice do eterno novo”, uma repetição cíclica (não idêntica, mas semelhante) do tempo profano. É neste sentido que o reaccionário “não anda para trás” (porque não precisa de andar para trás, porque o tempo profano é cíclico, e “o novo é velho”), e apenas muda de direcção quando faz a crítica da nova velhice da novidade.

      4/ Roger Scruton

      Tenho respeito por algumas ideias de Scruton, que não é um reaccionário; mas prefiro o reaccionário G. K. Chesterton. Chesterton é o típico reaccionário que merece ser lido. Se tomarmos o Chesterton como bitola, facilmente chegaremos à conclusão de que o Eça não foi um reaccionário. Eça era um burguês realista, aprimorado e estrangeirado, com algum desprezo pelas coisinhas pequeninas portuguesas.

      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 10 Agosto 2016 @ 12:23 pm | Responder


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