perspectivas

Terça-feira, 21 Junho 2016

O nominalismo do papa Chico

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 11:35 am
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O papa Chiquinho disse recentemente duas coisas: 1/ que a maioria dos casamentos católicos são inválidos; 2/ que conhece casos de união-de-facto que, estes sim!, são realmente “casamentos”.

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O Chico segue a tradição dos jesuítas que inventaram a “casuística”. A casuística defende a ideia de que não existem regras, nem excepções — senão quando nos dá jeito que existam. Para o Chiquinho, não existe o juízo universal (o que é também uma característica do politicamente correcto). E o Chico serve-se da casuística para malhar nos católicos. O papa Chiquitito adora bater nos católicos.

Em vez de combater uma determinada cultura politicamente correcta, o Chico combate as pessoas. O alvo dele não é a ideologia da moda: são as pessoas — o que é uma forma de camuflar a ideologia.


papa-freak-webO nominalismo é a teoria segundo a qual “nada há de universal no mundo para além das denominações, porque as coisas nomeadas são todas individuais e singulares”. O Nominalismo nega a existência dos géneros e das espécies que, alegadamente, não existiriam senão em nome.

Por exemplo, segundo o nominalismo (se levarmos o conceito até às suas últimas consequências), não existe a categoria de “ser humano”: em vez disso, existe apenas o Manuel, o José, o Roberto, etc.. O conceito de “ser humano” é apenas uma etiqueta (segundo os nominalistas), graças à qual podemos representar a classe de indivíduos; as ideias gerais (representadas por categorias) não têm um objecto real: são apenas abstracções obtidas por intermédio da linguagem. Ou seja, o nominalismo defende a ideia segundo a qual as coisas ou objectos da experiência não têm realidade intrínseca fora da linguagem que as descreve.

Mas os nominalistas não fazem a seguinte pergunta: se o Manuel e o Joaquim são diferentes, ¿qual é a razão das semelhanças entre os dois?

Partindo do princípio evidente de que o Manuel e o Joaquim são semelhantes (embora não sejam idênticos), a razão das semelhanças entre os dois deve ser, com certeza, objectiva. Ou seja, a razão das semelhanças entre o Manuel e o Joaquim não é uma “abstracção”, no sentido de “inexistente” ou “irreal”.

O nominalismo do papa Chico é uma forma de materialismo.


Na Idade Média, a cerimónia do casamento dito “católico” realizava-se fora da igreja.

As igrejas, em geral, tinham uma porta lateral e secundária, onde, no limiar da porta, o Padre coordenava as cerimónias de casamento: os nubentes, familiares e convidados permaneciam fora da igreja. Só depois dos votos, da troca de alianças e do aperto de mão (os noivos medievais não davam beijo na boca: apertavam as mãos, por um lado, e por outro lado davam apenas o “beijo da paz” na face), então entravam todos para a igreja para a celebração da missa. Ou seja, separava-se o profano, por um lado, do sagrado, por outro lado: a Igreja Católica da Idade Média considerava a cerimónia do casamento um acto profano e secular.

Na Idade Média não era necessária a presença de um Padre para o casamento, que se caracterizava como um acto social e secular. A cerimónia do casamento poderia ser efectuada sem a presença do Padre, por exemplo, em um notário; e se o casamento fosse completado por relações sexuais, criava, segundo os cânones católicos e prática existentes, um casamento legal e sagrado. Colocado no limiar da porta da igreja, o Padre não estava a celebrar ou a administrar um sacramento, mas antes a verificar a adequada conduta de uma operação social que tinha muito mais de profano do que de sagrado. O sacramento do casamento católico seria administrado mais tarde, durante a missa, em que estavam presentes os noivos, famílias, e convidados.

A situação mudou por causa dos alegados “casamentos clandestinos” que punham em causa as heranças. O mundo secular e político pressionou a Igreja Católica no sentido da mudança de postura em relação ao casamento.

Na Idade Média era relativamente normal que um casal procurasse um Padre para se casarem de forma “clandestina” — ou seja, sem conhecimento das respectivas famílias. O Padre casava-os, desde que ambos fossem mentalmente idóneos e tivessem atingido a puberdade. Mas, muitas vezes, as respectivas famílias tinham outros planos, e tinham já casamentos arranjados com filhos ou filhas de famílias ricas.

Ou seja, a Igreja Católica ia muitas vezes, sem querer, contra interesses materiais privados das heranças: segundo a doutrina mantida pelos teólogos do século XII, bastava uma troca de consentimentos e de palavras adequadas entre duas pessoas fisicamente capazes e frente a um sacerdote, em qualquer circunstância e de qualquer forma, se verificasse um casamento sacramentado. Isto significava que o casamento — segundo a Igreja Católica medieval — era possível sem a participação dos pais ou sem uma série de rituais sociais e profanos.

Perante a pressão do Poder político sobre a Igreja Católica no sentido de mudar a sua doutrina acerca do casamento, os jesuítas aproveitaram a oportunidade para controlar totalmente a instituição casamento. O cardeal Morone (um apoiante dos jesuítas) surgiu com a ideia segundo a qual a Igreja Católica deveria aceitar a invalidação dos casamentos “clandestinos”, mas alterando a definição de “clandestinidade”. Os jesuítas são inteligentes, mas de uma inteligência perversa.

No futuro (a partir de meados do século XVI), todos os casamentos deveriam ser administrados pela Igreja Católica, perante o pároco e as testemunhas. Acabaram os casamentos “clandestinos” que pusessem em causa as heranças; e os nubentes eram exortados — mas não obrigados — a adiar as relações sexuais para depois da bênção do casamento durante a missa nupcial. Acabaram as cerimónias de casamento à porta da igreja. Ao afastar a doutrina da lei canónica, segundo a qual um contrato matrimonial seguido de copula carnis constituía um casamento cristão (ignorando o vasto conjunto de ritos sociais profanos), o casamento deixou de ser um processo social que a Igreja Católica garantia, para passar a ser um processo eclesiástico que a Igreja Católica administrava — conforme o Ritual Romano de 1612, que deslocou o rito cumprido a porta da igreja para o altar, e que passou a dar pouca atenção às tradições da Europa católica.

Ou seja, o papa Chico, aparentemente, tem razão. Mas só aparentemente. Para que um casamento seja cristão, não necessita de um Padre, nem que seja realizado dentro de uma igreja. Mas ele não tem razão quando se esquece que, mesmo que um casamento se realize à porta da igreja, só será cristão quando os casados adoptem um projecto de vida que passa pela fé cristã.

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