perspectivas

Sábado, 16 Abril 2016

Anselmo Borges, o papa Chico e a quadratura do círculo

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 12:07 pm
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Com a verdade me enganas, Anselmo Borges!

É verdade — como diz o Anselmo Borges referindo-se ao papa Chico — que cada ser humano tem a sua própria consciência que é distinta das dos outros seres humanos.

Porém, todas as manifestações da vida humana individual são precedidas de uma interpretação do mundo, que é uma hipótese de fundo — na maior parte dos casos, não reflectida — sobre o sentido da vida e sobre o valor das coisas que são desejáveis. Sem uma confiança primordial (ou desconfiança) em um determinado sentido da vida, não é possível viver, nem agir — caso se entenda por viver e agir algo mais do que um simples processo biológico.

Esse sentido da vida, qualquer que seja, é um juízo último não expresso (subconsciente ou mesmo inconsciente) sobre a realidade global cósmica e humana que entram na nossa existência quotidiana, determinando — como uma espécie de bússola invisível — a nossa relação com o mundo e connosco próprios. Cada ser humano vive a partir de uma determinada e particular cosmovisão; e esta nunca é um resultado de uma reflexão racional. Os budistas chamam a isso (a essa determinada e particular cosmovisão) de “Kharma”.

Essa cosmovisão, particular a cada ser humano, é sempre o resultado de uma interpretação pré-racional das experiências feitas no mundo: nunca é possível comprová-la em termos experimentais ou científicos. Se alguém vive, mais ou menos consciente, de acordo com a máxima segundo a qual a vida não obedece a nenhum valor superior; ou se concebe o casamento como um acidente da sua vida pessoal; ou se concebe o comportamento homossexual como sendo normal e até recomendável — então, em cada um destes juízos, a Existência é interpretada sempre em relação à sua Totalidade. Quando alguém goza a vida sem quaisquer limitações, também já fez uma interpretação da Existência (não só a existência desse alguém, mas também a de todos!).

As acções do ser humano, enquanto ente individual, reflectem essa interpretação da existência que é pré-racional (Kharma).

O Anselmo Borges escreve (parafraseando o papa Chico):

“É preciso dar "espaço à consciência dos fiéis: somos chamados a formar consciências, não a pretender substituí-las". A Igreja não abandona pastoralmente "os fiéis que simplesmente vivem juntos, que contraíram matrimónio apenas civil ou são divorciados e voltaram a casar". É contra o machismo, exalta o prazer erótico, é a favor do feminismo, entende quem tem tendência homossexual e percebe que há situações em que "a separação é inevitável, podendo até chegar a ser moralmente necessária". "Não há receitas simples." "A Igreja não é uma alfândega", mas "um hospital de campanha", "a misericórdia é a trave-mestra que sustenta a sua vida." "Na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e de práxis, mas isso não impede que subsistam diferentes modos de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que derivam dela."

“A Igreja Católica é contra o machismo mas a favor do feminismo” — diz ele (passemos adiante).

A interpretação pré-racional da existência (de que falamos acima) também caracteriza, por exemplo, o psicopata. E se as múltiplas interpretações pré-racionais da existência são equivalentes, ou pelo menos semelhantes, então chegamos à conclusão do Anselmo Borges e do papa Chico: “Na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e de práxis, mas isso não impede que subsistam diferentes modos de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que derivam dela."

Entramos já no relativismo ético. A Igreja Católica do papa Chico defende o relativismo como único valor absoluto; pretende transformar o conceito de “interpretação” em uma espécie de círculo quadrado que acomoda todas as interpretações pré-racionais da existência.

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