perspectivas

Quinta-feira, 17 Março 2016

Hoje é coisa fina não ser “conservador nos costumes”

 

Hoje é chique não ser “conservador nos costumes”; fica bem; dá uma áurea de super-homem; é ser progressista, aparentemente partilhando com a Esquerda a excentricidade do “génio individual”. A preocupação do liberal que se preze é o de não ser “conservador nos costumes”, para poder defender, perante a Esquerda, o conservadorismo na economia. Cede num lado para poder afirmar-se noutro; trata-se de uma cedência. Mas a verdade é que não existe conservadorismo na economia nem nos costumes: o que existem são políticas económicas erradas (por exemplo, o socialismo) e costumes errados.

Dificilmente poderei ser considerado um conservador nos costumes. Sou a favor da legalização total das drogas, do jogo e contra a existência do crime de lenocínio. Acho que o contrato de casamento não deve ser tipificado, mas a sê-lo não deverá impôr restrições de género ou número. Acho que um casal deve poder recorrer aos métodos que achar necessários para constituir família desde que não viole os direitos de outrem, e considero a institucionalização como o pior destino possível a dar a uma criança que perca os pais biológicos. Com o aborto, é diferente”.

Como dizia Nicolás Gómez Dávila, “o individualismo é o berço da vulgaridade”. Porém, na Esquerda, a defesa das mesmas teses libertárias das do escriba liberal não tem um cariz individualista ou utilitarista — e é isto que é difícil de perceber. Ou seja, o liberal de direita e o “libertário” de esquerda concordam sobre as mesmas coisas, mas com fundamentos diferentes.

Por exemplo, o João Semedo (Bloco de Esquerda) diz que basta que os cuidados paliativos não se apliquem, na redução do sofrimento, a uma só pessoa, para que a eutanásia deva ser legalizada. Ou seja, basta que a situação de doença terminal de uma só pessoa não possa ser abrangida pelos cuidados paliativos, para se impôr a legalização da eutanásia para todos.

Isto é tudo menos utilitarismo, que se baseia na máxima da “maior felicidade para o maior número”, e não na da “maior felicidade para todos”.

Nos países anglo-saxónicos ou do norte da Europa, onde o aborto e a eutanásia foram legalizados, seguiu-se o princípio utilitarista da “maior felicidade para o maior número” — e por isso é que a eutanásia descambou e passou a ser “suicídio a pedido do cliente” de qualquer idade. Mas a Esquerda não tem uma tradição utilitarista; aliás, Karl Marx dizia pejorativamente que “o utilitarismo é moral de merceeiro inglês”.

A posição do João Semedo acerca da “eutanásia para todos por causa de um só”, não é utilitarista.

Então, ¿o que é? ¿Será que a ética do João Semedo é ontológica (kantiana)? Também não. A ética do João Semedo é teleológica. É uma ética de terra queimada, na esteira de Gramsci; é preciso não olhar a quaisquer meios para atingir o fim da destruição da ética judaico-cristã que, alegadamente, sustenta o capitalismo.

A tese da “eutanásia para todos por causa de um só” aparece, na praça pública, travestida da defesa dos direitos daquele indivíduo.

Faz-se o apelo à emoção por causa daquele indivíduo em particular, entre milhões de outros, que não pode ser abrangido pelos cuidados paliativos. A tese da “eutanásia para todos por causa de um só”, do João Semedo, até parece a ética da Misericórdia cristã do papa-açorda Francisco. Um liberal de direita até poderia defender a legalização da eutanásia em nome do individualismo; o João Semedo defende a legalização da eutanásia em nome de uma utopia colectivista que subverta a ordem natural da realidade. No meio disto tudo, o inteligente é o João Semedo, e os liberais são os idiotas úteis.

O critério do João Semedo que se aplica à eutanásia foi o mesmo aplicado pela Esquerda à legalização do aborto.

Não é um critério utilitarista (como o que existe, por exemplo, em Inglaterra ou nos Estados Unidos em relação ao aborto) — porque a cultura antropológica portuguesa não tem uma tradição utilitarista —, mas é um critério subversivo e colectivista utópico, que visa minar a cultura antropológica no sentido de “criar as condições necessárias” na cultura antropológica para uma revolução (mais ou menos violenta).


O liberalismo do insurgente é um momento do processo revolucionário do João Semedo:

« Há muitos motivos para você ser contra o socialismo, mas entre eles há dois que são conflitantes entre si: você tem de escolher. Ou você gosta da liberdade de mercado porque ela promove o Estado de direito, ou gosta do Estado de direito porque ele promove a liberdade de mercado. No primeiro caso, você é um “conservador”; no segundo, é um “liberal”.

(…)

Ou você fundamenta o Estado de direito numa concepção tradicional da dignidade humana, ou você o reinventa segundo o modelo do mercado, onde o direito às preferências arbitrárias só é limitado por um contrato de compra e venda livremente negociado entre as partes.

(…)

O conservadorismo é a arte de expandir e fortalecer a aplicação dos princípios morais e humanitários tradicionais por meio dos recursos formidáveis criados pela economia de mercado. O liberalismo é a firme decisão de submeter tudo aos critérios do mercado, inclusive os valores morais e humanitários.

O conservadorismo é a civilização judaico-cristã elevada à potência da grande economia capitalista consolidada em Estado de direito. O liberalismo é um momento do processo revolucionário que, por meio do capitalismo, acaba dissolvendo no mercado a herança da civilização judaico-cristã e o Estado de direito. »

Olavo de Carvalho, “Por que não sou liberal”

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