perspectivas

Quarta-feira, 2 Março 2016

A Raquel Varela diz que o suicídio no Alentejo não tem nada a ver com a religião

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:51 pm
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A Raquel Varela é de opinião de que as ciências sociais são tão exactas quanto a biologia ou a matemática. Naturalmente que só nos resta rir da sua (dela) visão científica histriónica. Quando a sociologia, por exemplo, adopta estrita- e rigorosamente o método científico das ciências da natureza, a Raquel Varela só pode escrever disparates.

 

hr-algarvio

Quando a Raquel Varela critica aqui o livro do Henrique Raposo acerca do Alentejo, ela parte do princípio de que o dito livro é científico (no sentido da ciência positiva das ciências da natureza). Ora, que eu saiba, o Henrique Raposo não é propriamente um cientista, nem penso que ele tenha escrito o livro para um qualquer peer review. Portanto, os pressupostos da Raquel Varela em relação à análise do livro de Henrique Raposo estão errados. Mas os burros são os outros…! 

A Raquel Varela tem pérolas deste tipo:

“O suicídio tem uma relação directa, não exclusiva, com o envelhecimento e também com a solidão”.

A interpolação do termo “não exclusiva” impede a necessidade de qualquer medição exacta. Ademais, o “envelhecimento” é um conceito objectivo, mas “solidão” é um conceito subjectivo. Seria semelhante se eu dissesse o seguinte:

“A sede tem uma relação directa, não exclusiva, com a necessidade de água no organismo e também com a vontade de beber”.

As estatísticas (nos Estados Unidos) dizem-nos, de facto, que 36 em 100.000 pessoas com mais de 75 anos, suicidam-se. Mas também dizem que 13 em cada 100.000 pessoas entre os 20 e 24 anos se suicidam. O que interessa saber é o peso percentual de cada um destes extractos etários em relação à população total do país; e se fizermos essas contas, ficamos a saber que a Raquel Varela não tem tanta razão quanto parece.

E, uma vez que a Raquel Varela fala de Durkheim, segundo este (e concordo!) a medida estatística tem o inconveniente de ser extrínseca aos fenómenos sociais — por outras palavras, a razão (a causa) desses fenómenos sociais “fica na sombra”, por assim dizer, do ponto de vista da análise estatística. O problema da explicação do fenómeno social permanece intacto, depois da estatística, porque “a sociabilidade não se encontra em parte nenhuma” [“A divisão do trabalho social”], e porque em vez de “sociabilidade” devemos falar de “solidariedade”.

A pergunta que Henrique Raposo faz é (também) a seguinte: “¿será que a solidariedade no Alentejo é do mesmo tipo de solidariedade que existe em Trás-os-Montes, por exemplo?”. É um facto (um dado da experiência) que não são do mesmo tipo. Trata-se de uma evidência. E, partir de uma evidência, Henrique Raposo parte para uma análise da cultura alentejana.

O que o Henrique Raposo faz no seu livro é uma análise cultural (filosofia: ética, cultural, metafísica) do alentejano, mas não uma análise sociológica (no sentido da sociologia). Na medida em que o Henrique Raposo faz juízos de valor — embora baseados em dados da experiência —, o livro não é científico propriamente dito. Mas a Raquel Varela faz juízos de valor em nome da “ciência”.

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