perspectivas

Domingo, 31 Janeiro 2016

O jacobinismo é uma forma romântica de revolta

 

A Helena Matos tem razão neste artigo:

“O nosso problema é o iluminismo jacobino, esse período/modo de ser em que umas criaturas se achavam melhores que as outras e como tal se entendiam não só predestinadas para mandar como não aceitavam quaisquer limites à sua vontade”.

O que distingue realmente o Partido Comunista do Bloco de Esquerda é que o primeiro adopta uma forma racionalista de revolta, enquanto que o segundo adopta o jacobinismo que é uma forma romântica de revolta.


A forma romântica de revolta vê-se no calvinista Byron, por exemplo, mas também em Schopenhauer ou em Nietzsche — para além de Rousseau. A forma romântica de revolta tende a elevar a vontade (subjectiva) sacrificando o intelecto; impacienta-se com quaisquer cadeias de raciocínio e glorifica determinadas formas de violência.

Na política prática, a forma romântica de revolta tem importância como aliada de um nacionalismo emotivo e não fundamentado racionalmente. Por tendência, os revoltosos românticos tendem a ser hostis à Razão, e até anticientíficos; é por isso que não vale a pena perder tempo a argumentar com eles. Discutir com alguém do Bloco de Esquerda ou da ala radical do Partido Socialista, é pura perda de tempo.

Algumas das formas mais extremas do forma romântica de revolta encontram-se entre os anarquistas russos, mas foi a Alemanha que deu saída à filosofia anti-racional da Vontade Nua. Trata-se de uma filosofia aristocrática da rebelião (Byron) que, em crescendo, inspirou uma longa série de movimentos revolucionários — desde a Carbonária (depois da queda de Napoleão), até ao golpe de Estado de Hitler em 1933; e em cada fase inspirou o modo de pensar e sentir entre intelectuais e artistas.

As pessoas cultas de França, no século XVIII, admiravam muito a chamada “sensibilité” (sensibilidade), a tendência para a emoção, em especial a da simpatia: para ser verdadeira e genuína, a “sensibilidade” tinha que ser directa, violenta, inteiramente liberta do pensamento e da razão. Um homem de “sensibilidade”, no século XVIII, choraria copiosamente ao ver a miséria de uma só família campesina, mas ficaria indiferente diante um programa político de melhoria das condições de vida do campesinato. Um homem de “sensibilidade” supõe os pobres mais virtuosos do que os ricos (na linha de Rousseau).

Esta atitude romântica da “sensibilidade” encontra-se plasmada no Bloco de Esquerda e no Partido Socialista de António Costa.

Os românticos não ambicionam paz e descanso, mas antes uma vigorosa e apaixonada vida individual. Não simpatizam com o industrialismo, por ser feio: a minhoca é útil mas não é bela; o tigre é belo mas não é útil. A moral dos românticos tinha motivos estéticos; mas o problema do romantismo actual é o de que inverteu os valores estéticos do século XVIII.

Nos românticos — verifica-se isto, por exemplo, no Daniel Oliveira — o erro do ser humano não tem origem na psicologia do indivíduo, mas antes tem origem no padrão de valores. Admiram as paixões fortes, sejam quais forem, na qualidade e nas consequências sociais; e têm uma enorme dificuldade em renunciar a satisfações presentes para obter vantagens futuras (Carpe Diem). O movimento romântico visa libertar a personalidade humana de quaisquer convenções e moralidade sociais, criando um espírito de revolta inconsequente e irracional.

1 Comentário »

  1. […] Aquilo que a chamamos hoje “pseudo-ciência” é mais cientismo do que outra coisa: o controlo da ciência pela ideologia política. A ciência está sitiada; e o Rerum Natura está calado, como seria de esperar. E este novo cientismo tem origem no romantismo contemporâneo de que falei aqui. […]

    Pingback por O politicamente correcto diz que “as ciências são todas iguais” | perspectivas — Terça-feira, 9 Fevereiro 2016 @ 12:20 pm | Responder


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