perspectivas

Segunda-feira, 25 Janeiro 2016

¿O Cristianismo é contra a auto-defesa?

Filed under: A vida custa — O. Braga @ 1:01 pm
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Se a acção de vida de Jesus Cristo fosse seguida estritamente (à letra) por todos os homens, não haveria descendência humana; a humanidade acabava, porque Jesus Cristo não teve filhos, e não consta que os seus apóstolos próximos tivessem tido prole. Quem fizer uma leitura literal do Novo Testamento chega à conclusão de que Jesus Cristo pretendia acabar com a humanidade — o que é um absurdo: ¿como é que Alguém que pretendia a paz entre os homens pudesse querer que a humanidade tivesse um fim imediato?!

O problema do homem moderno é o de que perdeu a noção de religião transcendental, e depois surgem dislates deste tipo.

nuno-alvares-pereira-webO Cristianismo como religião transcendental parte do princípio da superioridade ontológica de Jesus Cristo. Mas o homem moderno concebe a “diferença ontológica” como sinónimo de “hierarquia”, e a hierarquia como sinónimo de “desigualdade” no sentido de “injustiça”. E, por isso, a desigualdade é vista — mesmo por quem se diz de “Direita” — pelo homem moderno como sendo um mal a erradicar.

Porém, a verdade é que a hierarquia — assim como a disciplina e a ordem — é um valor estético com consequências éticas. A desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas antes com uma desigualdade justa [Nicolás Gómez Dávila] que se traduz no princípio de equidade de Aristóteles.

Um cristão vê em Jesus Cristo, não um ser da sua igualha, mas antes um ser ontologicamente superior; e aceita a superioridade Dele. É isto que um homem moderno, embotado espiritualmente, não compreende; e é isto que faz com que um cristão propriamente dito não pertença verdadeiramente à modernidade.

O cristão sabe que, sendo Jesus Cristo ontologicamente superior, é-lhe impossível ser igual a Ele; é-lhe impossível seguir literalmente a sua acção — da mesma forma (analogia) que um jogador amador de xadrez não pode ser, por princípio, um campeão mundial, embora deseje seguir-lhe o exemplo. O cristão reconhece as suas limitações face ao exemplo superior de Jesus Cristo.


Outra asneira é a que afirma que “Jesus Cristo proibiu isto e aquilo”; a ignorância do homem moderno em relação ao Cristianismo identifica estritamente a religião cristã com a lei de Moisés (Judaísmo) ou com o Alcorão: o homem moderno e ignaro olha as religiões todas por igual.

Em todo o Novo Testamento, Jesus Cristo nada mais fez do que aconselhar; ora, aconselhar não é proibir. A proibição pressupõe um poder autoritário, ao passo que um conselho é um ensinamento de um Mestre, de um ser ontologicamente superior. Jesus Cristo ensinou e aconselhou os homens, e não fez uso de qualquer poder autoritário.

Uma visão autoritarista acerca de Jesus Cristo é uma estupidez. A autoridade de Jesus Cristo é uma autoridade de facto, e não uma autoridade de direito; e o homem moderno, em geral, não consegue ver a diferença entre os dois tipos de autoridade.


Quando Jesus Cristo estava para ser detido pelos romanos, preocupou-se com a segurança e com a integridade física dos seus discípulos, conforme se pode ler em Lucas 22, 36:

“(…) agora, quem tem uma bolsa que a tome, assim como o alforge, e quem não tem espada que venda a capa e compre uma”.

É absolutamente claro que Jesus Cristo se preocupou com a auto-defesa (no sentido da preservação da vida humana) dos seus discípulos, porque os ameaçava um perigo de morte vindo dos romanos.

O que o homem moderno não consegue perceber, em Jesus Cristo, é a diferença entre “dar a outra face” em assuntos veniais e materiais, por um lado, e por outro lado a defesa que Jesus Cristo fez do direito à preservação da vida humana (direito à auto-defesa, quando a vida está em perigo).

Uma coisa é eu dar a outra face quando me insultam, por exemplo; outra coisa é colocar voluntariamente a cabeça no cepo à espera da guilhotina. Jesus Cristo fez a distinção entre as duas coisas, embora ele próprio — como ser ontologicamente superior — se oferecesse a um sacrifício último que instituiu uma diferenciação cultural que marca a humanidade.

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1 Comentário »

  1. Muito bom, essa deve servir para calar os “cromos” do blog historia maximus e a quem leva o Novo Testamento à letra… não sei o que achar Sr. Orlando, o que essa gente faz parece-me que pode ser qualificada como uma radicalização do cristianismo que tem como consequência a “castração” do cristão; será que isso foi trabalho da dita teologia da libertação, transformar cristãos em pacifistas que respondem a ameaças somente dando a face? Só de imaginar que a teologia da libertação quer transformar cristãos nos hippies pacifistas dos anos 60 até me dão náuseas… Como seria o mundo de hoje se respondêssemos às invasões árabes com a nossa face? Se Jesus Cristo dizia que o homem justo deve permanecer armado e que o mundo jaz no maligno é evidente que às vezes será preciso “partir ovos”. Parece que alguns nem digo propriamente esquerdistas mas “liberais pó.de.arroz” não querem entender isso… preferem todos fingir que são tão bons como Cristo e com esse delírio messiânico vão acabar crucificados pelo inimigo em vão… Ao Sr.Orlando só fazia falta um programa de rádio para ser o Michael Savage português que bem nos faz falta, sobretudo à minha geração que parece ter esquecido Deus, ter esquecido o que são fronteiras, ter esquecido o que é cultura e aos poucos ir esquecendo a própria língua transfigurando a sua identidade… são em norma “cidadãos do mundo” como dizia a minha ex.professora(ultramarxista) de filosofia.

    Comentar por Eu Mesmo — Segunda-feira, 25 Janeiro 2016 @ 6:17 pm | Responder


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