perspectivas

Quarta-feira, 13 Janeiro 2016

Cátaros, albigenses e valdenses eram seitas gnósticas

 

O problema da narrativa histórica é o de que depende da interpretação dos factos, e não dos factos em si mesmos; ou melhor dizendo, os factos documentados apenas servem para fundamentar uma qualquer interpretação deles. Os historiadores contam uma história que não tem necessariamente uma relação causal e, sobretudo, não vai à essência dos factos.

Temos aqui uma narrativa histórica acerca dos cátaros, albigenses e valdenses; os factos citados (datas, eventos, nomes de pessoas) correspondem, grosso modo, à verdade histórica. Mas o erro da narrativa está na essência: parte-se do princípio (na narrativa) de que as seitas da Antiguidade Tardia que deram origem aos cátaros, albigenses e valdenses, eram cristãs — o que é absolutamente falso.

O problema dos historiadores em geral é o de não terem estudado suficientemente filosofia. Afirmar que as seitas gnósticas da Antiguidade Tardia eram cristãs, é um erro de palmatória.

A gnose consiste em um movimento religioso da Antiguidade Tardia, que teve uma das suas raízes no helenismo (principalmente no neoplatonismo), cuja origem grega determina a sua ideia de que o Ser Verdadeiro e Perfeito se encontra no mundo espiritual; e a outra raiz da gnose é a visão dualista proveniente do Oriente e de acordo com a qual existe uma contradição radical entre o espírito e a matéria1 , bem e mal, luz e trevas.

Os primeiros textos gnósticos datam do século II d.C do império romano, já no tempo cristão. As suas origens são obscuras e as suas formas são variadas. Desenvolveu-se paralelamente ao Cristianismo, como uma grandeza religiosa independente.

O que é comum entre as variadas seitas gnósticas é uma compreensão da existência humana marcada por um pessimismo em relação ao mundo e um dualismo profundo e radical, por uma incerteza em relação à existência, pelo medo do mundo e de si próprio. Segundo a gnose, a salvação resulta do “conhecimento” — a gnose2 , e obtém-se através do conhecimento do “local onde estávamos, para onde fomos lançados, para onde nos precipitamos, de que fomos salvos, o que é o nascimento, o que é a reencarnação3 . Existe, na gnose, o sentimento geral de que não se pertence a realmente a este mundo mau, e de que nossa pátria fica noutro lugar 4 .

O material religioso gnóstico é sempre sincrético (sincretismo) e está associado a material helenista, a tradições mandeias e maniqueístas. Todo este material é depois adaptado ao cristianismo da época, dando a ilusão de que se trata de um interpretação do Cristianismo. Trata-se de uma “religião parasita”5 porque se serve de outras tradições religiosas, organizando-as de formas diferentes.

A gnose foi identificada durante muito tempo como uma heresia cristã6 ; mas só no século XV é que se descobriu que ela (a gnose) tem outras manifestações, e que deve ser considerada como uma forma específica (e não cristã) de compreender a existência surgida na Antiguidade Tardia e com ligações a diversas tradições religiosas, cujos mitos utilizou para exprimir as suas próprias concepções. A tese de que a gnose é uma religião específica e não uma heresia cristã é corroborada pelo Corpus Hermeticum [hermetismo] não cristão, que é uma colecção de escritos cuja figura central é Hermes, um deus grego (paganismo), e pelas descobertas de Nag Hammadi.

Desde o século XV impôs-se a convicção de que a gnose é uma religião autónoma da Antiguidade Tardia, e não uma heresia cristã.


Escaping_reality
Apesar de uma grande variedade de seitas e de mitos, é possível reconhecer na gnose uma estrutura fundamental comum: uma valorização negativa da realidade concreta, e um pessimismo em relação ao mundo; o ser humano considera-se a si próprio um estranho atirado para este mundo: ele sofre por causa do mundo, o que é sinal de que está destinado a uma outra realidade melhor (negação da realidade concreta, ou a utopia moderna).

A experiência dualista fundamental é tão radical que a alternativa ética colocada ao ser humano se transforma em um dualismo do Ser, que se baseia no Cosmos e na sua realidade. A imagem de Deus é dualista: de um lado, está o Deus superior, acima do mundo, espiritual e bom; o seu domínio (o pleroma) e os seus habitantes (eons). E, do outro lado, o criador do mundo [que corresponde ao Deus dos cristãos], incapaz e ignorante (o demiurgo) e os seus acompanhantes (arcontes, espíritos planetários, e outros), a matéria, o Cosmos, e o mundo dos seres humanos. Portanto, para os gnósticos, o mundo é um produto do infortúnio e da fraqueza do demiurgo cristão, e o Deus bom e superior não é responsável por ele.

O Deus bom estava confrontado com um mundo mau criado pelo Deus cristão (o demiurgo), no qual o bem, o espiritual, estavam ligados ao mal e ao material. Ora, esse Deus bom dos gnósticos não podia ter qualquer contacto com esse mundo mau, para não se manchar. Por isso, os gnósticos inventaram um domínio entre esse Deus bom e o mundo — o pleroma, que significa “a plenitude” — constituído por seres espirituais mistos emanados desse Deus gnóstico bom (emanação, neoplatonismo), numa sequência complexa de tríades, octoades, etc..

O Deus mau dos cristãos (o demiurgo) é o criador do mundo mau e da matéria maldita, porque se desviou da sua origem (do pleroma), por causa da cegueira e do erro, e do pecado, encarnando agora o princípio contrário: o do mal, que é o Deus cristão da matéria, das trevas e da mentira. Existem formas radicais de gnose em que em que o princípio do mal (o Deus cristão) é tão primordial como o do Deus bom dos gnósticos (px., em Marcião).

Quando o Deus mau dos cristãos (o demiurgo) criou a matéria maldita, marcou a realidade do mundo com uma coexistência entre o bem e o mal; por isso, o gnóstico deseja a libertação das circunstâncias materiais que o limitam e motivam para o mal.

retabulo-flammarionPara que o ser humano se salve, necessita da gnose — o conhecimento dos verdadeiros nexos cosmológicos e éticos, que constituem o fundamento para um comportamento correcto. As almas não podem alcançar esta gnose pelas suas próprias forças e, por isso, um dos eons do pleroma assume a tarefa de aproximar a almas dispersas nos corpos humanos e entregues ao engano, através do conhecimento sobre os verdadeiros nexos que levam à salvação.

Nas versões gnósticas helenistas, esta figura do salvador é, por exemplo, Hermes; nas correntes que parasitavam o Cristianismo, a figura do salvador é Jesus Cristo. O debate do Cristianismo primitivo com a gnose foi difícil porque os cristão helenistas (por exemplo, Orígenes) tinham, em grande parte, um pensamento semelhante ao dos gnósticos; e por isso é que as convicções gnósticas também se propagaram ao Cristianismo.

Os gnósticos dividem os seres humanos em três categorias: os Pneumáticos (espirituais) que têm assegurada a salvação através da gnose (conhecimento); estão predestinados pelo Deus bom à salvação. Os Psíquicos, que estão perdidos e que podem alcançar a salvação limitada através da fé e das obras. Os Hílicos, para os quais não existe salvação .

Portanto, a gnose é uma religião elitista e esotérica, para a qual o mundo e a História não possuem senão um significado negativo; o ser humano deve libertar-se do mundo e da História através do conhecimento dos nexos cósmicos, para anular os efeitos que o acidente cósmico (a criação) teve para ele.

Em suma, a gnose é uma religião anticristã, e não propriamente uma heresia cristã. À luz desse anticristianismo, podemos perceber a animosidade que levou ao massacre dos cátaros. Não pretendo justificar esse massacre com os critérios éticos actuais, mas apenas perceber que, na Idade Média, qualquer religião anticristã era passível de perseguição política, como aconteceu também com o Islamismo.


Notas
1. no catolicismo, esta contradição não existe: a matéria é também obra de Deus, e o mundo material foi criado por Deus para beneficio do Homem
2. para os católicos, a salvação resulta da Graça de Deus
3. O gnóstico Téodoto, século II, na versão de Clemente de Alexandria, “Contra Téodoto”
4. no catolicismo, a imperfeição do mundo é uma contingência que deve ser suportada com paciência e até com alegria, e com a ajuda gratuita da Graça Divina
5. Norbert Brox
6. Irineu, Adversus Hareses, I 11-31

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