perspectivas

Domingo, 22 Novembro 2015

Anselmo Borges e a violência das religiões

 

Outro texto controverso do Anselmo Borges: coloca as religiões todas no mesmo saco, como faz, aliás, o ateísta Richard Dawkins. Anselmo Borges generaliza propositadamente; há uma intenção em colocar as religiões todas no mesmo saco.

Aliás, José Pacheco Pereira, no último programa Quadratura do Círculo também comparou a Jihad islâmica com a “primeira cruzada” cristã como exemplo de “fanatismo suicida”; de facto, ele enganou-se, porque não se tratou da primeira cruzada, mas de uma outra posterior conhecida como a “cruzada dos pobres” e que teve a sua origem não no Papa, mas no Sacro Império Romano-Germânico (actual Alemanha).

Tanto Anselmo Borges como José Pacheco Pereira misturam a “brutal história criminosa das religiões” (para utilizar uma expressão de Anselmo Borges), por um lado, com a génese criminosa de algumas religiões, por outro lado. Tanto um como o outro são intelectualmente desonestos.

No Cristianismo, a eventual “brutal história criminosa das religiões” não é incentivada e propagandeada nos Evangelhos, que são os textos do fundamento da religião cristã. Mesmo nas cartas apostólicas de S. Paulo não encontramos qualquer apelo à violência física de tipo jihadista ou de qualquer tipo. De forma semelhante, nos textos búdicos, não encontramos qualquer apelo à violência física.

Já no Alcorão, que é o texto fundamental do Islão, os apelos à violência física e ao assassínio são constantes e sistemáticos — fazem parte da lógica interna do Islamismo.

Ou seja, não podemos confundir aquilo que os homens fazem de uma religião ao longo da História, por um lado, com aquilo que faz parte intrínseca dessa religião e que está na sua génese, por outro lado. Não devemos confundir o rei Nabucodonosor com Nabonocudosor.

Ora, é esta confusão que é feita por Anselmo Borges e José Pacheco Pereira em nome do politicamente correcto, e por isso é que são intelectualmente desonestos.

Anselmo Borges procura identificar a “imposição da verdade através da persuasão” (a religião da palavra, que é o Cristianismo), por um lado, com a imposição da verdade através da violência (a religião do livro, que é o Islamismo), por outro lado. Ele mistura estes dois planos e fá-lo de propósito.

Quando cada um de nós afirma qualquer coisa, está sempre a tentar impôr uma nossa verdade aos outros. Sempre, quer queiramos ou não.

Por exemplo, quando eu digo que “amanhã vai chover”, estou a tentar impôr uma verdade a quem me ouve. Mas essa imposição de uma verdade (que pode ser doxa  ou episteme ) é normalmente feita através da persuasão. A minha opinião meteorológica (doxológica ou epistemológica) pretende transmitir uma verdade, mesmo que quem me ouça não a considere como sendo verdade.

Naturalmente que Anselmo Borges não podia deixar de falar na Inquisição. Lembro aqui a afirmação do historiador francês Pierre Chaunu: « A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa. »

No entanto, a Revolução Francesa foi feita em nome da igualdade, fraternidade e da puta-que-os-pariu. A lengalenga da Inquisição não serve para branquear o “progresso hegeliano da História” defendido por Anselmo Borges ou por José Pacheco Pereira.

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