perspectivas

Quinta-feira, 19 Novembro 2015

O politicamente correcto, o mimetismo cultural, e a desumanização do ser humano

 

Quando as acções humanas parecem ser “copiadas” espontaneamente de outras, falamos de “mimetismo”. Fernando Pessoa dizia que o povo português é parecido com o povo alemão: tem uma forte tendência para o mimetismo cultural; age e pensa em turba.

mimetismoRené Girard dizia que muitas das nossas emoções mais fortes são, de facto, geradas por mimetismo; e os me®dia desempenham um papel essencial no mimetismo cultural. Quando uma emoção forte tem efeito sobre outrem, e depois de devidamente propagandeada pelos me®dia, assume uma dimensão de círculo vicioso em crescendo até à histeria social que pode colocar em causa a integridade física e moral das pessoas que padecem dessa mesma emoção forte.

Na medida em que muitas das emoções fortes — e mesmo extremas — em circulação na sociedade têm um fundamento mimético, são emoções derivadas, ou seja, violam o princípio da procura da originalidade. Isto levou a que alguns escritores — por exemplo, Camus, Sartre, e os existencialistas em geral — pensassem ser original a criação de personagens que não tinham emoções (por exemplo, n’ “O Estrangeiro”, de Camus): a falta de emoções da personagem do Estrangeiro faz dele um ser humano diferente, que foge à bitola do mimetismo emocional; e, por isso, é um homem “original”; é o novo homem romântico do século XX: original, talvez, mas sem as emoções exacerbadas do romantismo do século XIX. Do “oitenta” do século XIX passámos ao “oito” no Existencialismo do século XX.


Hoje é vulgar uma preocupação fanática em não “ferir os sentimentos” dos outros, porque não se aceita (através de um mimetismo cultural) o facto de podermos “ferir os sentimentos” dos outros sem querer, por exemplo; ou que os “sentimentos feridos” de outrem podem não ser da minha responsabilidade.

Um igualitarismo radical, que é a base do politicamente correcto, tende a tornar ofensiva qualquer comparação entre pessoas que possam sugerir subjectiva- ou objectivamente que uma delas é “superior” à outra — o que gera uma paranóia cultural que transforma o mimetismo emocional em uma obrigação social. A diferença entre pessoas é vista pelo politicamente correcto como sinónimo de hierarquia.

O politicamente correcto torna as diferenças — objectivas, entre pessoas — quase invisíveis; e esta invisibilidade das diferenças também está ligada à preocupação fanática de não “ferir sentimentos”. Esta noção politicamente correcta, segundo a qual o reconhecimento da realidade, tal qual esta se nos apresenta, é “ofensivo” — leva a uma espécie de pânico cultural acerca de qualquer emissão de um juízo de valor sobre qualquer pessoa: não se trata de um exacerbar do “eu”, como se diz aqui: mas antes trata-se da anulação colectiva do “eu” individual: quando se invoca o “eu”, é para o anular logo a seguir.

Em geral, a contemporaneidade tende a ter uma relação patológica com as emoções — em parte devido ao aumento da importância social e política das mulheres. As emoções substituíram agora os juízos de valor morais realistas (com aderência à realidade), e rotulam esses juízos de valor realistas como sendo “anticientíficos”. O homem contemporâneo rejeita o Deus “invisível” e, simultaneamente, classifica a consciência, a moral, os valores, o sentido da vida, como sendo matérias “não-científicas” — desumanizando, assim, o ser humano.

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