perspectivas

Domingo, 8 Novembro 2015

Anselmo Borges está errado acerca do dualismo aplicado ao ser humano (1)

Filed under: Igreja Católica,Quântica — O. Braga @ 10:59 am
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Hoje já não é possível falar de conceitos filosóficos de forma totalmente abstracta, ou seja, sem meter alguma da mais actualizada filosofia da ciência no “barulho” da discussão. O Anselmo Borges escreve aqui:

Podemos afirmar que Anselmo Borges é “um ateu que ainda não saiu do armário”.

« Já não é sustentável uma concepção dualista do ser humano, à maneira de Platão ou Descartes: composto de alma e corpo, matéria e espírito. O homem é uma realidade unitária, para lá do dualismo e do materialismo.

O jesuíta J. Mahoney, que já foi membro da Comissão Teológica Internacional, escreveu de modo feliz: “Não se deve considerar a alma humana, constitutiva da pessoa, como se fosse um espírito puro infundido a partir de fora num receptáculo biológico no instante da concepção, mas referir-se a ela mais apropriadamente entendendo-a como um brotar ou emergir a partir do interior do próprio material biológico dado pelos progenitores, genuínos originantes pela sua parte, sem necessidade de ter de recorrer a uma intervenção divina quase milagrosa, para a produção de uma nova realidade.

Portanto, a afinidade que existe entre matéria e espírito permite-nos, e inclusivamente exige-nos, considerar o emergir da nova pessoa humana como um processo que leva tempo e requer um certo período de existência pré-pessoal como o umbral através do qual se dá a passagem a uma existência animada no sentido pleno da palavra.” »


O Anselmo Borges traduz a mundividência imanente generalizada dos “progressistas” (positivistas e utilitaristas) que actuam dentro da Igreja Católica e que toleram o aborto.

Vamos definir “dualismo”: em metafísica, é a teoria segundo a qual a realidade é formada de duas substâncias independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente: por exemplo, o espírito e a matéria, ou, como em Descartes, a alma e o corpo.

¿Será que esta definição é absurda? Vejamos, na física quântica, os conceitos de “onda” e de “partícula” que formam a realidade material: são duas “substâncias” independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente; e no entanto enformam a realidade material. Aconselho a Anselmo Borges, que está em Coimbra, que aprenda alguma coisa com o Carlos Fiolhais, em vez de escrever asneiras.

Posto isto, faço a seguinte pergunta: ¿Newton estava totalmente errado na sua mecânica? Resposta: não. O próprio Einstein aproveitou alguns conceitos de Newton; e Einstein também esteve errado em alguns conceitos, por exemplo, na sua recusa do conceito de “não-localidade”. Ou seja, o “dualismo metafísico” deve ser entendido como um conceito dinâmico, e não — como faz Anselmo Borges — como um conceito cristalizado no tempo de Descartes ou de Platão.


O prémio Nobel John Eccles escreveu o seguinte1 :

“A nossa simples existência como um Eu consciente é um milagre. Dado que as propostas de solução materialistas não permitem explicar a nossa singularidade, da qual fazemos experiência, sinto-me obrigado a deduzir a singularidade do Eu, ou da alma, de uma criação espiritual sobrenatural. Para exprimi-lo em termos teológicos: cada alma é uma criação divina.”

O cérebro é a condição necessária, mas não a condição suficiente da consciência. Tratamos aqui de uma diferença lógica que fundamenta a capacidade que o espírito tem de influenciar o cérebro e o organismo: “só volto a ser senhor na minha casa sob esta condição!”; não é por que se transplanta o cérebro de um lado para outro que a consciência se altera na sua essência, embora possa ser modificada na sua substância (epifenómeno).

Segundo Eccles, a relação entre o espírito e o cérebro poderia ser imaginada à semelhança da relação entre o pianista e o piano: embora o pianista precise do piano para tocar, aquele pode subsistir sem este.

Esta versão do problema do cérebro é designada de “dualismo”, porque parte de duas entidades separadas (o espírito e a matéria do cérebro).

A objecção essencial contra o dualismo foi sempre a de saber como é que o espírito, entendido como imaterial2 , actuaria sobre a matéria do cérebro. Se o espírito quiser actuar sobre a matéria do cérebro a partir do exterior, tem que desrespeitar a primeira lei da termodinâmica3 . Seria necessária uma energia material exterior ao sistema físico para influenciar a matéria. Porém, isso seria incompatível com as leis da natureza, uma vez que a energia no universo tem de permanecer sempre constante.

Porém, existe uma particularidade da física quântica4 : a amplitude de probabilidade da função de onda quântica de uma partícula elementar não constitui um campo material, mas ainda assim actua sobre a matéria, ao causar probabilidade de um processo de partículas elementares. Este facto abriu a possibilidade de estados finais diferentes, resultantes de processos dinâmicos idênticos, sem que tivessem sido alteradas as condições iniciais como por exemplo, o suprimento de energia.


Portanto, a ideia de Anselmo Borges segundo a qual a consciência ou a alma humanas é “um brotar ou emergir a partir do interior do próprio material biológico dado pelos progenitores” traduz uma forma de epifenomenalismo, ou seja, é uma forma de ateísmo e de materialismo. Grande parte dos teólogos católicos actuais são ateístas da espécie de Espinoza: “Deus sive Natura”. Perante o que Anselmo Borges escreveu, podemos afirmar que Anselmo Borges é “um ateu que ainda não saiu do armário”, e portanto não tem autoridade moral para falar em nome da Igreja Católica.

Fazendo uma analogia: da mesma forma que a luz se expressa na realidade através de duas “substâncias” independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente — a onda e a partícula —, assim o ser humano contém em si duas “substâncias” independentes uma da outra e de natureza absolutamente diferente. Como se faz a “fusão” entre a consciência ou alma humana, por um lado, e a matéria biológica, por outro lado, é o busílis da questão.


Por fim, temos o conceito de “reencarnação” — não confundir com “metempsicose”, que admite como sendo normal o retrocesso ontológico (por exemplo, no Budismo), ao passo que a “reencarnação” propriamente dita admite o retrocesso ontológico apenas em casos muito excepcionais e em um contexto de uma espécie de casuística.

Os Evangelhos têm algumas referências à reencarnação, por exemplo quando Jesus Cristo pergunta aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam: “João Baptista; outros, Elias; outros, ainda, um dos profetas” (S. Marcos 8,27). Mas a reencarnação tornou-se um tabu na Igreja Católica a partir do concílio de Niceia sob os auspícios do imperador Constantino cuja amante era uma ex-prostituta (segundo a teoria da reencarnação, temos que expiar em vidas futuras os desmandos da actual vida). Durante a patrística cristã, a reencarnação foi um conceito aceite pela maioria dos cristãos de antanho.

O fenómeno da reencarnação já é investigado em algumas universidades americanas. Por exemplo, O Dr. Ian Pretyman Stevenson foi um médico psiquiatra de origem canadiana que acabou a sua vida profissional como professor na universidade da Virgínia, Estados Unidos. O prof. Stevenson dedicou grande parte da sua vida a investigar os relatos de “experiências de quase-morte” e de “reencarnação”; entre dezenas de milhares de testemunhos, Stevenson foi estudando esses relatos com toda a dúvida metódica que caracteriza a ciência, arranjando uma explicação “científica” para a maioria dos casos relatados.

A Igreja Católica terá que alterar a sua doutrina, não no sentido proposto por Anselmo Borges, mas antes no sentido oposto, baseando-se nas experiências espirituais humanas e nos dados fornecidos pela Física, que é a ciência por excelência.


Notas
1. 1989, Evolution Of The Brain : Creation Of The Self.
2. a onda quântica pura também é imaterial, porque não tem massa
3. Princípio da equivalência (ou conservação de energia): a energia não pode ser nem criada nem destruída, mas apenas transformada. Num sistema fechado (alegadamente o universo considerado como sistema fechado), a sua energia total permanece constante e representa o “equivalente mecânico” do calor
4. John Eccles e F. Beck, 1991

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1 Comentário »

  1. […] sequência do verbete anterior, Anselmo Borges, depois de ter suspenso o dualismo metafísico, defende o dualismo não superado de […]

    Pingback por Anselmo Borges está errado acerca do dualismo aplicado ao ser humano (2) | perspectivas — Segunda-feira, 9 Novembro 2015 @ 9:17 am | Responder


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