perspectivas

Terça-feira, 3 Novembro 2015

O gnosticismo de Frei Bento Domingues

 

“Alguns leitores reagindo ao meu texto do domingo passado, disseram-me: se o panorama da família em desconstrução e reconstrução é tão caótico, como poderão as famílias agrupar-se para evangelizar, encher de alegria, antigos e novos projectos familiares?

Podem. Com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu – de avós a netos – que sem alarido, já vivem antigos e novos processos de alimentar e renovar a esperança das futuras gerações. Por outro lado, a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura, como certa apologética pouco católica, ignorante e sectária, insiste em proclamar”.

Frei Bento Domingues : Que temos nós a ver com os migrantes?


Ao contrário do que o Frei Bento Domingues declara sobre quem não concorda com ele, eu não considero que o Frei Bento Domingues seja ignorante; de ignorante, ele tem pouco. O ignorante não age com dolo, exactamente porque ignora.

Em contraponto, a perversidade não é ignorante, porque a intencionalidade do perverso revela-se nas suas ideias e acções — ao passo que o ignorante não age em função de uma causa. O moto do ignorante é a doxa, ao passo que o do perverso é a manipulação e adulteração do episteme.

Uma das características marcantes do politicamente correcto  é o de rotular de “ignorante” toda a gente que tenha ideias diferentes da norma politicamente correcta. ¿Não concordas com o “casamento” gay? Então és ignorante!. ¿Não concordas com as “famílias arco-íris”? Então és ignorante!. E por aí afora. O Frei Bento Domingues enquadra-se perfeitamente no espírito da Esquerda politicamente correcta mais radical. O mais que poderei dizer de Frei Bento Domingues é que ele parece ser psicótico; mas nunca “ignorante”.


Repare-se no trecho supracitado de Frei Bento Domingues. ¿O que é que ele quer dizer com “com diferentes configurações, existem, por todo o mundo, milhões de famílias que o amor reuniu”? ¿Refere-se ele (Frei Bento Domingues), por exemplo, às famílias poligâmicas que prevalecem no Islão? ¿Frei Bento Domingues avaliza a poligamia? Ele não o diz explicitamente. Mas ¿será que a poligamia vai ao encontro do critério do “amor” que o Frei Bento Domingues refere? ¿Será que, em nome de um pretenso “amor”, vale tudo?

¿E o que é que o Frei Bento Domingues quer dizer com “a graça do Evangelho não contraria os trabalhos escondidos da natureza e da cultura”? ¿Será que, na opinião do Frei Bento Domingues, a Natureza determina a ética e a moral? O Frei Bento Domingues não diz quase nada de concreto: em vez disso, “atira umas coisas para o ar”. A ambiguidade é uma característica do perverso.


A perversidade de Frei Bento Domingues vai mais longe quando ele compara a renúncia à vida familiar por parte de Jesus Cristo e dos seus apóstolos (que os sacerdotes católicos seguiram), por um lado, com a “diversidade das famílias modernas”, por outro lado.

“ (…) é o desentendimento no seio da Sagrada Família que revela, da forma mais abrangente e radical, a essência do cristianismo: fazer família com quem não é da família, esperança activa e horizonte da humanidade, sempre a retomar, nos mais diversos estilos, tempos e lugares”.

Ou seja, para o Frei Bento Domingues, Jesus Cristo é ontologicamente equivalente ao Zé da Esquina, e a mãe de Jesus é ontologicamente semelhante à Senhora Mariquinhas do talho lá bairro dele.

E quando Jesus Cristo renuncia à companhia da Sua família biológica por espírito de missão, o Frei Bento Domingues vê nesse facto a construção de um novo tipo de família, desta vez desligada de quaisquer laços biológicos. Só falta que Frei Bento Domingues diga que Jesus Cristo e os apóstolos “faziam amor” em orgias gay nas margens do Mar Morto: era o “amor” que os guiava.

Diz, a seguir, Frei Bento Domingues:

“[Jesus Cristo] vivia e interpretava a sua missão como a loucura de fazer família com quem não era da família. O que ele combatia era a família como central de egoísmo, a família fechada sobre si mesma que não se preocupa com os de fora”.

fbd-2-webFrei Bento Domingues identifica o altruísmo, por um lado, com a abolição (ou pelo menos, desvalorização) da família biológica, por outro lado. Trata-se, óbvia- e evidentemente, de uma falsa dicotomia que caracteriza um espírito perverso ou psicótico que se esconde por detrás de uma pretensa angelitude construída pelos me®dia.

Quando o Frei Bento Domingues pretende que é possível que toda a gente seja idêntica a Jesus Cristo, ele torna inútil a figura de Jesus Cristo.

Fazendo eu, aqui, uma analogia: Jesus Cristo é o farol que orienta os navegantes; mas o Frei Bento Domingues quer que os navegantes se transformem no próprio farol — o que faz com que o farol deixe de fazer qualquer sentido simbólico. Ou seja, o Frei Bento Domingues pretende anular o Cristianismo utilizando como meio os próprios Evangelhos: maior perversidade do que esta não pode existir.

A vida de Jesus Cristo é reduzida (por Frei Bento Domingues) a uma experiência possível ao comum dos mortais; ou seja, segundo Frei Bento Domingues, “toda a gente pode ser um Jesus Cristo”. Para o Frei Bento Domingues, Jesus Cristo não tem uma simbologia transcendente: em vez disso, Jesus Cristo é simbolicamente imanente; Ele é (segundo Frei Bento Domingues) uma espécie de encarnação do Grande Ser (a Humanidade) de Augusto Comte, e o Cristianismo deixou de se identificar com a evolução espiritual e transcendental do indivíduo, para passar a identificar-se com o “progresso imanente do Grande Ser”.

A verdade, caros amigos, é que não existe qualquer dicotomia necessária entre a família biológica, por um lado, e o altruísmo, por outro lado — como o Frei Bento Domingues, de forma subliminar, pretende afirmar. É  perverso que, em nome do “altruísmo”, se defenda a prevalência de formas de “família” contra-natura ou eticamente condenáveis. Só falta que o Frei Bento Domingues defenda clara- e explicitamente (porque ele já o faz implicitamente) a poliamoria como “forma de família” válida.


Escreve o Frei Bento Domingues:

“Os sonhos são antecipações do futuro e o futuro é a união na diferença”.

O que o Frei Bento Domingues pretende dizer é o seguinte:

“Se nós sonharmos que pode existir um paraíso na Terra, então segue-se que esse sonho preconiza e antecipa a realização do paraíso na Terra futuro, e a imanentização do Escathos. Ou seja, há uma certeza do futuro paraíso terrestre.1 O que é preciso é sonhar.

Por outro lado, a ‘união na diferença’ significa um futuro isento de mal. Se todas as diferenças estão unidas, deixa de haver (de facto) diferenças: o retorno ao Uno é imanente e realiza-se no Absoluto da Ideia de Hegel por intermédio da identificação do finito com o infinito — ou seja, através da divinização da História”.

O filósofo Eric Voegelin escreveu o seguinte:

« Quando o coração é sensível e o espírito contundente, basta lançar um olhar sobre o mundo para ver a miséria da criatura e pressentir as vias da redenção; se são insensíveis e embotados, serão necessárias perturbações maciças para desencadear sensações fracas.

É assim que um príncipe mimado se apercebeu pela primeira vez de um mendigo, de um doente e de um morto ― e tornou-se assim em Buda; em contrapartida, um escritor contemporâneo vive a experiência de montanhas de cadáveres e do horroroso aniquilamento de milhares de indivíduos nas conturbações do pós-guerra na Rússia ― e conclui que o mundo não está em ordem e tira daí uma série de romances muito comedidos.

Um, vê no sofrimento a essência do ser e procura uma libertação no fundamento do mundo; o outro, vê-a como uma situação de infelicidade à qual se pode, e deve, remediar activamente. Tal alma sentir-se-á mais fortemente interpelada pela imperfeição do mundo, enquanto a outra sê-lo-á pelo esplendor da criação.

Um, só vive o Além como verdadeiro se ele se apresentar com brilho e com grande barulho, com a violência e o pavor de um poder superior sob a forma de uma pessoa soberana e de uma organização; para o outro, o rosto e os gestos de cada homem são transparentes e deixam transparecer nele a solidão de Deus. »

É premente que Eric Voegelin seja estudado nas faculdades e passe a fazer parte da cultura das nossas elites: as ideias como as do Frei Bento Domingues não resistiriam um segundo.

Adenda: o texto de Frei Bento Domingues em PDF.

Nota
1. Quem estudou a gnose sabe do que estou a falar

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