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Segunda-feira, 26 Outubro 2015

O Frei Bento Domingues e os vários tipos de família

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 9:08 am
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BD sínodo 2 progressoO Frei Bento Domingues escreve um artigo no jornal Público de 25 de Outubro com o título “Sínodo das famílias ou dos bispos?”. Frei Bento Domingues considera o desconstrucionismo e o estruturalismo como os expoentes máximos do progresso, progresso esse entendido por Frei Bento Domingues como uma lei da natureza. Quando alguém pensa que o progresso é uma lei da natureza, o advento de qualquer barbárie não pode ser concebido senão como uma forma de progresso.

A partir do texto de Frei Bento Domingues, podemos facilmente identificar os mentores do seu arquétipo mental: para além de Karl Marx e sobretudo Engels, o estruturalismo do princípio do século XX, Escola de Frankfurt e o marxismo cultural, o Existencialismo e desconstrucionismo de Heidegger e Sartre, Derrida, ou seja, toda uma visão hegeliana da História. Sobre este assunto aconselho o leitor a ler “A Filosofia de Hegel”, de Benedetto Croce, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1933, tradução de Vitorino Nemésio.

Não vou dizer que o Frei Bento Domingues está desactualizado, porque isso seria incorrer no mesmo erro e na mesma falácia ad Novitatem em que o Frei Bento Domingues cai; direi apenas que o Frei Bento Domingues está errado, porque não adequa os seus conceitos à realidade.

Segundo Frei Bento Domingues, a família pode ser tudo — o que significa que passa a ser nada.

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¿Como é que a Igreja Católica pode lidar com um conceito  de família sem definição real?

Frei Bento Domingues não o diz, porque estamos no domínio da utopia. Uma utopia psicótica, um delírio interpretativo. Quando o nosso desejo é anómalo, concebemos a utopia como parte do real concreto.


Em algumas culturas, o irmão mais velho da mãe tem um lugar mais importante (na família) do que o pai biológico da criança; em outras culturas, os homens passam a ser temporariamente considerados “mulheres”, ou determinadas mulheres são consideradas “homens”. Nestas sociedades (os tobriandeses, por exemplo), a lei do grupo prevalece sobre o indivíduo; as funções, códigos e estatutos estão em primeiro plano; o indivíduo apaga-se diante dos sistemas que o clã, a tribo ou a família formam; as relações são menos individualizadas, menos personalizadas.

Nessas culturas, em que existem formas de família diferentes da (ainda) família tradicional europeia, o conceito de família tem uma definição que serve de norma. Nessas culturas não coexistem diferentes formas de família: existe nelas uma clara noção de família que é universal. O erro do estruturalismo antropológico foi o de partir do princípio relativista segundo o qual é possível integrar em uma mesma sociedade vários tipos de família em coexistência pacifica — quando essa possibilidade não existe nas culturas de onde esses modelos de família são oriundos.

A ideia de Frei Bento Domingues segundo a qual é possível, em uma mesma sociedade, coexistirem diferentes noções de família, não é apenas uma utopia: é uma irracionalidade completa que é fruto de um erro de análise. Só é possível que existam várias noções de família em uma mesma sociedade, sacrificando a coesão social e atomizando a sociedade; este é um facto indesmentível.1

Uma concepção séria da História, que sabe o que foi feito da autonomia relativa das civilizações, não permite que se interprete em termos de “evolução” ou de “novidade”, aquilo que, pelo contrário, se assemelha a processos de decomposição ou de crise.

“O grande fenómeno que prepara a hominização e que consegue realizar o homo sapiens, não é o ‘assassínio do pai’, mas antes é o nascimento do pai”. — Edgar Morin

A família dita “nuclear” não é um acidente da História: ela é largamente maioritária através das civilizações. O triângulo mãe/pai/filho foi uma diferenciação cultural que tornou mais forte e mais estável a família, quando comparada, por exemplo, com a família “avuncular” em que o tio substitui o pai — porque a ligação tio/filho não é de modo nenhum simétrica à ligação mãe/filho; e, neste caso, o casal sexual mantém-se fora da educação e da transmissão. Ou seja, a família avuncular é um elemento de desordem social.

Quando o Frei Bento Domingues defende a possibilidade de coexistência, em uma mesma sociedade, de vários tipos de família, o que ele defende é uma exponenciação da desordem social em nome de uma utopia que se submete a um desejo anómalo.

Nota
1. É surpreendente como o neoliberalismo marginalista e Frei Bento Domingues estão de acordo.

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