perspectivas

Sábado, 17 Outubro 2015

O Anselmo Borges e o deus kantiano

Filed under: Igreja Católica — O. Braga @ 12:41 pm
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Montesquieu escreveu que “se Deus não existisse, teria que ser inventado”. O Anselmo Borges afirma uma coisa semelhante:

“Deus é um postulado da razão prática (de Kant) , isto é, exige-se moralmente que Deus exista, para dar-se a harmonia entre o dever cumprido e a felicidade. A natureza não faz isso, só Deus.”

Segundo o Anselmo Borges, parece que Kant — que criticou o utilitarismo de Hume — via no conceito de “Deus” uma “coisa útil” para se conseguir a “felicidade”. Porém, sabemos que o conceito de “felicidade”, segundo Kant, era contraditório nos seus próprios termos: passo a fazer um resumo do conceito de “felicidade”, segundo Kant:

1/ O desejo humano em relação aos objectos do mundo (a tal “felicidade” que implica uma conduta interessada) não é compatível com a ética e com a moral, a não ser por puro acidente — se for uma motivação sensível (o desejo) a comandar o estabelecimento de uma norma (lei positiva ou regra moral), então qualquer mudança no objecto de desejo e de satisfação implica ipso facto uma reviravolta da conduta.

2/ A “felicidade” não se pode traduzir em uma lei prática ou regra moral. A ideia que cada ser humano tem de “felicidade” é uma ideia absoluta — que satisfaz em sumo grau o máximo de inclinações no decurso de uma duração indeterminada. Porém, o que acontece na realidade concreta, é que a experiência humana da satisfação das inclinações individuais, é fragmentária, contingente e parcial. Logo, existe uma contradição entre a exigência de felicidade, por um lado, e a experiência humana concreta relativamente ao conhecimento dos elementos que a produzem, por outro lado. Ou seja: para que o homem pudesse ser feliz, teria que ter ao seu dispor exactamente o oposto do conhecimento empírico e contingente dos meios para satisfazer a exigência de felicidade: o ser humano teria, neste caso, que encarnar em si o próprio conceito de “Deus”.

Ou seja, invocar Kant para falar de “Deus” e/ou de “felicidade” é um absurdo. O Anselmo Borges poderia ter preferido falar em Santo Agostinho:

“Todos querem ser felizes, mas nem todos procuram viver do único modo que permite viver feliz: quem sabe amar-se, ama a Deus”;

mas presumo que, para o Anselmo Borges, seja embaraçoso referir-se a uma pessoa tão antiquada e fora de moda como é o Bispo de Hipona. Santo Agostinho cheira a mofo. Para um “teólogo” moderno, de vistas largas, e respeitado pelos me®dia, falar em Santo Agostinho não fica tão bem quanto falar em Kant.

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