perspectivas

Segunda-feira, 3 Agosto 2015

Na actualidade, um conservador não pode ser progressista

Filed under: Política — O. Braga @ 9:16 am
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“Lição do sábio Eugen Rosenstock-Huessy: só cretinos são conservadores ou progressistas. Todo homem normal é conservador e progressista.

Olavo de Carvalho

Teríamos que saber o que significa “progresso”, porque o conceito de “conservador” só existe em função do conceito de “progresso”. Antes de existir “progresso” não existiam “conservadores”.

Por exemplo, quando falamos em “progresso de uma doença”, ou em “progresso de uma epidemia”, a noção de “progresso” é (universalmente) negativa. Portanto, nem sempre o “progresso” é (universalmente) coisa boa. Mas não é esta interpretação de “progresso” que é dada na frase em epígrafe: ali, o conceito de “progresso” é positivo (entendido universalmente como coisa boa): trata-se de uma noção com um valor positivo e que significa a melhoria (seja o que for que a “melhoria” signifique) de uma escala de qualquer coisa: por exemplo, “o progresso do bem-estar social”, ou “o progresso moral”.

Mas se virmos bem, nem mesmo no conhecimento científico há progresso, a não ser em função de determinados pontos de referência estabelecidos a posteriori: em ciência, o progresso acontece só depois de se afirmarem determinados valores — primeiro na cultura da comunidade científica influenciada pela cultura das elites (a ruling class), e depois na cultura antropológica.

Não podemos falar de “progresso” em filosofia — a não ser na actualização de velhas noções, na releitura e enriquecimento das respectivas explicações iniciais, e eventualmente na rejeição de explicações consideradas obsoletas e que sempre se relacionam com a origem “não-filosófica” de toda a filosofia.

Portanto, o “progresso” existe apenas em função de valores que regem mundividências.

O conceito de “progresso” não pode ser claramente definido porque depende do conceito de “valor”. E quando falamos de algo que não tem uma clara definição real1 (em contraste com a definição nominal dessa coisa), entramos em terrenos movediços.

Os valores existem em si mesmos, e não dependem de uma qualquer utilidade. Por exemplo, se o valor da justiça dependesse de uma qualquer utilidade, a justiça andaria pelas ruas da amargura (como acontece amiúde). O valor da justiça (porque existe em si mesmo) não muda consoante os tempos (a justiça não é hegeliana) — o que significa que a justiça perfeita (a justiça absoluta) não é possível na sociedade, em qualquer tempo. O absoluto é uma referência da condição humana, um farol que nos guia nas procelas da existência no espaço-tempo.

Na dimensão dos valores, o que conta é a volição da aproximação ao absoluto dos valores (a aproximação à verdade, que também é científica), sejam estes negativos ou positivos. E aqui entramos em outro problema, que é do de saber como e por quê um valor é, em termos absolutos, positivo ou negativo (enquanto nos atemos à realidade da causa-efeito que condiciona a dimensão do espaço-tempo) — a não ser que digamos que um valor pode ser simultânea- e absolutamente positivo e negativo: se um conceito não tem, em si mesmo, um sentido exclusivo no absoluto, a sua definição é apenas operacional (prática e utilitária). Se o conceito de “justiça” (ou de “progresso”) não tem sentido no absoluto, então a sua definição é reduzida à sua utilidade, e o conceito de “justiça” (ou de “progresso”) deixa por isso de ter sentido em si mesmo.

Na dimensão dos valores, há que distinguir os meios e os fins. Se o conceito de “progresso” está imbuído de determinados valores, temos que saber se os meios utilizados — para atingir fins — estão de acordo com o absoluto desses valores (que existem em si mesmos). Antes mais nada, o problema do “progresso” é metafísico, e depois ético — antes de ser social, cultural, político, científico, etc..

Ora, o conceito de “progresso” faz hoje parte integrante de uma metafísica negativa — uma metafísica que nega os princípios metafísicos da realidade (a negação da metafísica não deixa de ser, ela própria, uma forma de metafísica). A não ser que um conservador adopte como positiva também essa metafísica negativa, não o podemos misturar com os protagonistas do “progresso”.

O problema da proposição de Olavo de Carvalho em epígrafe, é o de que descura o carácter actual e contemporâneo do conceito de “progresso”, que adopta uma metafísica negativa. É neste sentido que é impossível a um conservador ser simultaneamente progressista — exactamente porque um conservador propriamente dito é um reaccionário em relação ao conceito actual de “progresso”.


Nota
1. As definições nominais assentam numa convenção prévia (por exemplo, os sinónimos de um dicionário); as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência.

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