perspectivas

Segunda-feira, 22 Junho 2015

Quando leio Peter Singer, fico com os cabelos em pé

Filed under: ética — O. Braga @ 5:53 am
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Neue Zuricher Zeitung: You do not consider an infant to be more worthy of protection than an embryo. On the other hand, you do not necessarily ascribe a higher status to humans than to animals.

Peter Singer: Belonging to the human species is not what makes it morally wrong to kill a living being. Why should all members of the species homo sapiens have a right to life, whereas other species do not? This idea is merely a remnant of our religious legacy. For centuries, we have been told that man was created in the image of God, that God granted us dominion over the animals and that we have an immortal soul.

Peter Singer ‘disinvited’ from German philosophy festival

Chegamos hoje ao absurdo de termos que nos questionar por que razão a vida de um ser humano é mais importante e valiosa do que a vida de um peixe, por exemplo. Peter Singer pergunta: “¿por que razão todos os membros da espécie homo sapiens têm direito à vida, e os das outras espécies não têm?”. E depois atribui a maior importância dada à vida humana à “herança religiosa”.


Desde o tempo do paleolítico — ainda não existiam as religiões universais — que a vida humana, na tribo ou no clã, era mais importante do que a dos animais caçados. Portanto, a ideia de Peter Singer segundo a qual “a maior importância dada à vida humana é uma herança religiosa” é uma estupidez de todo o tamanho — a não ser que os trogloditas e os palafitas já fossem cristãos!

Fico com os cabelos em pé ao constatar que Peter Singer é hoje considerado um “grande filósofo”!

A razão por que “a vida humana é considerada mais importante e valiosa do que a dos outros animais” é, em primeiro lugar, a de que o ser humano é um animal gregário (social). Tão simples quanto isto. É uma razão biológica e natural. Só tem a ver com religião por via das diversas diferenciações culturais que desde o tempo do paleolítico foram forjando novas religiões. O “ter a ver com religião” é uma causa secunda construída a partir da natureza humana fundamental.


Desconstruído o argumento da “religião”, vamos ao argumento absurdo principal:

“¿por que razão todos os membros da espécie homo sapiens têm direito à vida, e os das outras espécies não têm?”

Peter Singer parte do princípio da aceitação da superioridade moral do ser humano em relação aos outros animais — porque só o ser humano pode fazer a pergunta supracitada —, para depois negar a superioridade ontológica (a superioridade do Ser) do ser humano. Se Peter Singer não aceitasse a priori a superioridade moral do ser humano em relação aos outros animais, a pergunta não faria qualquer sentido.

A partir de uma assimetria moral (entre o ser humano e os outros animais), Peter Singer cria uma simetria ontológica (entre o ser humano e os outros animais) — porque os outros animais não são capazes de pensar o mesmo, em termos morais, em relação ao ser humano, e por isso não podemos colocar o ser humano e as outras espécies em um mesmo plano moral, ontológico e natural.

Assimetria moral → simetria ontológica = contradição em termos

Ou seja: para Peter Singer, o ser humano é moralmente superior aos outros animais, mas simultaneamente ele nega que a vida humana tenha mais valor do que a de um peixe.

Para Peter Singer, a superioridade moral do ser humano — que, no fundo, é uma forma de “domínio” — funciona como um instrumento de negação da superioridade ontológica do ser humano. Ora, se Peter Singer aceita a priori o primeiro tipo de superioridade, tem que logicamente aceitar o segundo.

Por maioria de razão, a assimetria moral permite ao ser humano proteger (ou não: trata-se do livre-arbítrio que o ser humano tem e os outros animais não têm) os animais; mas não implica, por essa razão, que o ser humano seja ontologicamente equivalente ou idêntico às outras espécies.

Por vezes, tenho a sensação de que Peter Singer tem sérias dificuldades com a Lógica.

7 comentários »

  1. É angustiante perceber que certas pessoas têm valores invertidos !

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    Comentar por vileite — Segunda-feira, 22 Junho 2015 @ 2:54 pm | Responder

  2. A superioridade moral do homem é, ironicamente ou não, precisamente o que constitui o seu dever de não discriminar outros seres sensientes. “Discriminação” porque a superioridade moral não serve como critério de valorização de um ser, da mesma forma que a inteligência não garante (nem deve garantir) direitos especiais dentro da nossa sociedade.
    Esse é dos primeiros esclarecimentos feitos na leitura mais essencial de Peter Singer.

    Sem desvalorizar a sua opinião, julgo que o erro de raciocínio reside na sua suposição de que a “superioridade moral” é que garante os direitos humanos. Sem desvalorizar esta sua opinião, afirmo apenas que é contrária à de Peter Singer e que, portanto não é de forma alguma legíitimo que seja utilizada para acusar um grande filósofo de incoerência.

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    Comentar por José Pedro Pinto — Segunda-feira, 13 Junho 2016 @ 12:04 pm | Responder

    • 1/ Você acaba de me dar razão (em parte), porque o Cristianismo (por exemplo, através de S. Francisco de Assis e de muitos outros) sempre defendeu a Natureza e os animais.

      S. Francisco de Assis dizia que “a Natureza é nossa irmã”. Os naturalistas (como Peter Singer) dizem, implícita ou explicitamente, que “a Natureza é nossa mãe” (a “mãe-terra”). A grande diferença está no “grau de parentesco”.

      Ao contrário do que diz o Singer, o Cristianismo (que é uma religião) sempre considerou a importância dos animais na Criação. O Budismo, outra religião, também o fez. Portanto, o argumento da “religião” vai pelo cano abaixo.

      2/ temos que saber, em primeiro lugar, o que significa “discriminação”. O politicamente correcto usa os conceitos de forma avulsa, e a melhor maneira de o confrontar é entrando pela definição real.

      As definições nominais assentam numa convenção prévia (por exemplo, os sinónimos de um dicionário); as definições reais são as que resultam das características invariavelmente observadas a partir dos dados da experiência.

      “Discriminação” vem do latim discriminatio, -onis, separação.

      1. Acto ou efeito de discriminar (ex.: o exercício envolve discriminação visual). = DISTINÇÃO
      2. Acto de colocar algo ou alguém de parte.
      3. Tratamento desigual ou injusto dado a uma pessoa ou grupo, com base em preconceitos de alguma ordem, nomeadamente sexual, religioso, étnico, etc.

      No caso do ponto 1, discriminar é distinguir uma determinada coisa ou ser, de uma outra coisa ou ser, sem que essa distinção implique necessariamente qualquer injustiça. Ou seja, fazer a distinção entre seres diferentes entre si, não implica necessariamente uma injustiça. Se eu digo, por exemplo, que “uma mulher é diferente de um homem”, estou a fazer uma distinção, e por isso, estou a fazer uma discriminação — o que não significa que eu esteja a ser injusto, mas apenas a constatar um facto. A justiça não é tratar toda a gente de forma igual.

      No caso do ponto 2, “discriminação” já implica injustiça, na medida em que implica um tratamento qualitativamente diferenciado. Quando coloco alguém de parte, retirando-lhe direitos devidos, estou a ser injusto. O mesmo se passa com o ponto 3.

      3/ ou seja, quando tratamos coisas diferentes de maneira diferente, não estamos necessariamente a “discriminar” no sentido de “injustiça”. Pelo contrário!: quando tratamos coisas diferentes de maneira igual, estamos a discriminar a diferença (estamos a ser injustos em relação à diferença).

      4/ acho estranho que se diga que a inteligência (que é inata) não garante direitos especiais, mas ao mesmo tempo que se diga que a homossexualidade (que, alegadamente e segundo o politicamente correcto, também é inata) já assegura direitos especiais aos gays e às mulheres (por exemplo, o estabelecimento de quotas obrigatórias de mulheres). Pelo que parece, todos somos iguais em direitos, mas há uns que são mais iguais do que outros.

      5/ Quando falamos em “direitos”, temos que distinguir entre o Direito Positivo e o Direito Natural. No Direito Positivo, você pode lá colocar o que quiser — incluindo a própria negação do Direito Positivo. O Direito Natural diz respeito aos factos da Natureza, e portanto implica valores intemporais.

      6/ uma pessoa mais inteligente tem os direitos que advém do Direito Natural que estão condicionados pelos Direitos Naturais dos outros. Mas isso não significa que uma pessoa mais inteligente tenha que ser discriminada apenas porque é mais inteligente do que os outros. A falácia da mediocridade (nivelamento por baixo) é uma forma de injustiça. A desigualdade injusta não se cura com igualdade, mas com desigualdade justa.

      7/ A “desigualdade justa” significa que temos que categorizar a realidade: criar categorias que distingam os diferente seres (sejam humanos ou não). Tratar um ser humano e um animal de forma igual, é uma forma de discriminação injusta.

      8/ O que garante os direitos humanos (no sentido do Direito Natural) é o facto de existirem seres humanos que se distinguem objectivamente dos outros animais. Ou seja, os direitos humanos decorrem da análise científica da realidade e da sua categorização.

      O seu erro consiste em recusar as categorias da realidade, o que corresponde a uma nova forma de romantismo que tende a negar as categorias e a própria ciência. A irracionalidade romântica voltou a estar na moda.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 13 Junho 2016 @ 3:36 pm | Responder

  3. Ao enviar a resposta, ocorreu um erro informático que apenas me permitiu salvaguardar o texto numa imagem, que disponibilizo.

    P.S.:Fica aqui novamente o link do livro: http://www.libertarianismo.org/livros/pseticapratica.pdf

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    Comentar por José Pedro Pinto — Segunda-feira, 13 Junho 2016 @ 5:03 pm | Responder

    • 1/ os princípios de que partimos, ou são verdadeiros ou falsos, embora podendo ser diferentes, como você diz. Quando um princípio é falso, todo o raciocínio é falso.

      2/ depende do que você concebe como “direitos básicos de um ser”. Primeiro teríamos que saber o que significa “direitos básicos de um ser”. Se você coloca os “direitos básicos” de uma ameba em pé de igualdade com os “direitos básicos” de um macaco, verificamos que os “direitos básicos de um ser” não são alheios à capacidade cognitiva. Uma ameba também é um ser vivo e um animal.

      Mas tratando-se de um ser humano em gestação, Peter Singer coloca-o em um nível ontológico inferior a um peixe; e não vale a pena dizer que “ele não disse isso”, porque sabemos que é verdade. Peter Singer não é defensável! Ainda você não sabia quem era Peter Singer, já eu tinha lido os livros dele em inglês.

      3/ você não se dá conta das contradições de Peter Singer, o que é extraordinário!

      Peter Singer diz que a força física, a inteligência, e outras qualidades que podemos qualificar como talento, não devem servir como critério para atribuição de direitos naturais.

      Isto significaria que, em princípio, um ser humano nascituro teria pelo menos os mesmos direitos naturais do de um porco nascituro. Mas Peter Singer defende o direito da mulher/mãe ao infanticídio, afirmando que a ausência auto-suficiência é um critério que retira ao ser humano nascituro os direitos que um porco nascituro tem. Ou seja, Peter Singer entra em contradição, e você não vê talvez porque não quer ver.

      4/ a ciência não diz que um porco é mais “evoluído”, do ponto de vista do darwinismo ou da teoria da evolução, do que um ser humano.

      5/ Todos os seres humanos têm o mesmo valor ontológico. Valor ontológico. Repito: ontológico. Você não deve confundir o valor ontológico dos brócolos com o valor ontológico das galinhas. Você não deve dizer que “as galinhas apenas existem para pôr ovos” e que, por isso, o valor ontológico delas é igual ao dos brócolos.

      Muitas das considerações que você tece advêm do facto de você ler Peter Singer como uma espécie de Bíblia e sem sentido crítico, e de não ter tido preparação filosófica adequada anterior.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 13 Junho 2016 @ 8:11 pm | Responder


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