perspectivas

Quarta-feira, 17 Dezembro 2014

¿Onde está a “causa”?

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:12 am
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Quando uma pedra está ao sol, fica quente. ¿Será o Sol a “causa” do calor da pedra?

Desde Kant que sabemos que a “causa” é uma ideia que existe apenas na nossa cabeça. Não é possível ver a “causa” em lugar nenhum: a “causa” só existe no nosso pensamento. O facto da pedra aquecida pelo Sol, é um produto da nossa percepção sensorial — que pode ser medido com instrumentos criados pelo Homem, por exemplo, um termómetro — e do esforço interpretativo do nosso cérebro. Mas, em bom rigor, não é pelo facto de se terem criado termómetros ou espectrografias que, do ponto de vista do naturalismo, a “causa” do aquecimento da pedra tenha sido encontrada.

O Domingos Faria coloca aqui a tese de C S Lewis contra o naturalismo.

“Nenhum pensamento é válido se pode ser totalmente explicado como resultado de causas irracionais.”

Podemos substituir “irracionais” por “não-racionais” (é uma questão semântica).


universoÉ exactamente porque não encontramos a “causa” em lugar nenhum que o naturalismo vingou como uma forma de negação da metafísica — o naturalismo teve êxito porque foi capaz de suprimir determinadas questões ou até nem sequer as colocar. Mas qualquer negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica — o naturalismo é uma metafísica negativa.

A irracionalidade do naturalismo não está nas suas eventuais “causas irracionais” (porque não encontramos — fisicamente — a “causa” em lugar algum), mas antes está na negação do Ser para além das manifestações dos fenómenos da natureza material macroscópica. Quando falamos em “causas irracionais” (segundo C S Lewis), estamos a falar de “eventos” que são efeitos concatenados, ou de “factos” que por definição são “coisas feitas”; e não de “causas”.

Se nós não encontramos a “causa” em lugar nenhum do universo, as eventuais “causas” são sempre irracionais com relação ao Homem, embora tenhamos que colocar as hipóteses de serem falsas ou verdadeiras. Ora, é o critério seguro da verdade que o ser humano não possui (o facto de a verdade existir é independente do critério racional seguro que a distinga). A verdadeira irracionalidade está em pensar que o Homem possa descobrir a verdade das “causas racionais” para a existência do universo — porque a “causa” só existe no nosso pensamento. Só mediante a religião o Homem encontra a “causa”.

2 comentários »

  1. Se se diz que a causa existe no nosso pensamento somente, há que distinguir dois modos de falar de causa. Se nos referirmos a causa enquanto abstracção, então, só existe no nosso intelecto. Se nos referirmos a causa enquanto princípio extrínseco de actualização do qual depende realmente uma coisa na sua existência ou na sua acção, então, nego que só exista no nosso intelecto. A causa, como diziam os escolásticos, é um «sensibile per accidens», ou seja, é algo que só o intelecto apreende, embora a partir dos dados dos sentidos, que só percebem singulares em sucessão ou em contiguidade. O intelecto percebe que alguma coisa que começa a existir, por não ter em si mesmo a razão da sua existência, só a pode receber de outro. A precedência da causa sobre o efeito no ser, é também, quanto ao ente móvel, que é aquele que experienciamos, precedência no tempo – os corpos só causam por movimento e o tempo é a medida do movimento segundo um antes e um depois. A sucessão e a contiguidade daquilo que já existia e daquilo que começou a existir sugere, então, uma relação de causalidade. Que seja este ou aquele corpo em concreto que seja a causa de um dado efeito é já algo que o intelecto não pode descobrir sem a experiência, ou, melhor ainda, sem experimentação, utilizando, consciente ou inconscientemente, alguns ou todos dos quatro métodos de isolar a causa própria de um fenómeno enunciados por Stuart Mill. Mas que há a causa, que o efeito depende realmente dela, é algo que é evidente à inteligência.

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    Comentar por h__m_d — Quarta-feira, 17 Dezembro 2014 @ 8:32 pm | Responder

    • Vamos tentar simplificar (trocar por miúdos) o seu discurso.

      1/ a causa é o que produz um efeito; ou aquilo que constitui um antecedente constante de um fenómeno.

      Portanto, já temos uma definição de “causa”. Se você tiver uma definição melhor, agradeço coloque aqui.

      2/ quando hoje se fala de “causa”, não nos devemos limitar ao pensamento do século XIX. A filosofia não pode fazer de conta que a ciência não existe. A filosofia não pode ser reduzida a um logicismo.

      Albert Einstein dizia que “Deus não lança dados”, tentando vincar um determinismo causal. Mas a opinião unânime dos físicos quânticos — com a excepção de David Bohm — é a de “Deus lança mesmo os dados”.

      A casualidade, por um lado, e a a-causalidade, por outro lado, não são expressão dos nossos conhecimentos limitados sobre a natureza, mas sim constitutivas (fazem parte) do domínio da realidade.

      Por isso se fala hoje de uma probabilidade objectiva, em contraposição a uma probabilidade subjectiva (baseada apenas numa falta de conhecimento das razões causais). Heisenberg, no seu livro “Physics and Philosophy: The Revolution in Modern Science”, diz claramente:

      “A física quântica forneceu a refutação definitiva do princípio da causalidade”.

      3/ S. Tomás de Aquino dizia “a verdade é a adequação do intelecto à realidade” — sendo que a “realidade” é hoje aquela de que se falou no ponto 2: uma realidade a-causal em que as probabilidades são objectivas.

      ¿Onde é que — em rigor — cabe neste contexto, “a causa como princípio extrínseco de actualização do qual depende realmente uma coisa na sua existência ou na sua acção”? ¿onde se situa ou existe essa “causa como princípio extrínseco de actualização do qual depende realmente uma coisa na sua existência ou na sua acção”?

      À luz do naturalismo — e foi isso que eu quis dizer no verbete — não pode existir causa, na Natureza, como princípio extrínseco — por isso afirmei que não vemos “causa” em parte alguma.

      4/ quando você se refere à escolástica, estou de acordo, e os escolásticos também estão de acordo comigo. Não vejo qualquer contradição entre o conceito de “sensibile per accidens”, por um lado e por outro lado a ideia segundo a qual “a causa (natural) só existe na nossa cabeça”.

      5/

      “A precedência da causa sobre o efeito no ser, é também, quanto ao ente móvel, que é aquele que experienciamos, precedência no tempo – os corpos só causam por movimento e o tempo é a medida do movimento segundo um antes e um depois. A sucessão e a contiguidade daquilo que já existia e daquilo que começou a existir sugere, então, uma relação de causalidade.”

      Uma “relação de causalidade” são “efeitos concatenados”. “Relação de causalidade” não é “causa”: como o nome diz, é uma “relação” entre factos. Uma “relação entre factos” é uma relação entre “coisas feitas”; “coisas feitas” não são “causas”.

      “Relação de causalidade” é o princípio segundo o qual um dado fenómeno é associado pela mente humana (sublinho: pela mente humana) a um outro fenómeno, que é entendido (pela mente humana) como sendo a sua condição.

      Mas a condição de um fenómeno não é necessariamente a sua causa. Por exemplo, para que exista chuva tem que existir antes a condensação da água, mas esta não é a causa daquela — porque antes da condensação da água, um átomo de oxigénio tem que se unir a dois de hidrogénio; mas a molécula da água também não é a causa da chuva, porque teríamos que ver como se opera o colapso da função de onda quântica que dá origens às partículas elementares que por sua vez compõem o átomo; e por aí fora.

      O princípio de causalidade, segundo o qual “todo o acontecimento tem uma causa” fundou a ideia do determinismo natural que está no cerne da ciência até meados do século XX e que a física quântica destruiu (o determinismo; ver ponto 3).

      Do ponto de vista da física mais recente, a hipótese de o planeta Terra passar a orbitar uma outra estrela (salto quântico) não é impossível: a probabilidade de que isso aconteça é praticamente zero, mas não é zero.

      Ou seja, as leis da natureza que a ciência descobriu, e que se aplicam apenas e só na realidade macroscópica construída pela entropia da força da gravidade, não são 100% certas na sua aplicação — mesmo leis tão genéricas e comummente aceites como é a lei da gravidade.

      Não existe 100% de infalibilidade em qualquer lei da natureza defendida pela ciência. E não há nada que nos garanta que essa falibilidade venha a ser ainda maior, porque a ciência e a experiência humana escora-se no passado. Não seria, de todo, absurdo pensar que, no futuro, a lei da gravidade só se aplicaria realmente em condições muito distintas das que hoje existem.

      Posto isto: ¿Onde é que está a “causa”?

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      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 17 Dezembro 2014 @ 10:10 pm | Responder


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