perspectivas

Sábado, 6 Dezembro 2014

A origem da família, da propriedade e do Estado — Engels (parte 1)

 

engels1/ Qualquer observador atento que veja como a instituição da família está a ser tratada pela política europeia, não pode deixar de verificar a influência das ideias de Engels na cultura política actual. Engels escreveu um livrinho a que deu o nome de “A origem da família, da propriedade e do Estado” [a minha edição é da Editorial Presença, 1976], e este opúsculo marcou indelevelmente aqueles que hoje assumem cargos políticos em Portugal — desde Passos Coelho, que militou na Juventude Comunista, até ao José Pacheco Pereira que, como sabemos, diz que foi maoísta mas já não é.

Se repararmos bem, todo o esforço político da União Europeia actual, na área da família, vai no sentido de valorar politicamente e refundar, na cultura antropológica, a família sindiásmica segundo o conceito de Engels. Não se quer com isto dizer que a família sindiásmica de Engels seja transposta literalmente para a actualidade, porque isso seria impossível: o que quer dizer é que as características fundamentais da família sindiásmica formatam as políticas de família, não só em Portugal como na União Europeia.

2/ Engels pretendeu dar ao seu livro citado um cariz científico; porém, mais não fez do que citar Antropólogos do século XIX, como por exemplo Morgan ou Espinas; e depois enviesa as conclusões desses Antropólogos (conclusões muitas vezes incorrectas do ponto de vista científico) para lhes dar uma forte tonalidade ideológica-política.

Além disso, Engels entra muitas vezes em contradição: por exemplo, diz que a passagem à monogamia realizou-se graças às mulheres [pág 70], ao mesmo tempo que diz que o fim do matriarcado imprime um rápido desenvolvimento da monogamia da família patriarcal [pág 80]. ou seja, ficamos sem saber se é do interesse da mulher a adopção da monogamia, porque, por um lado, como ele escreve na página 70:

(…) as mulheres, que com maior força deviam ansiar ao direito à  castidade como libertação, pelo direito ao matrimónio, temporário ou definitivo, com um só homem. Esse progresso não podia ser devido ao homem, pela simples razão, que dispensa outras, de que jamais, ainda na nossa época, lhe passou pela cabeça a ideia de renunciar aos prazeres de um verdadeiro matrimónio por grupos.”

Mas, por outro  lado, na página 80, Engels critica a monogamia dizendo que não é do interesse das mulheres, porque, segundo ele, a monogamia é uma imposição patriarcal que vai contra a estrutura matriarcal da família.


“Casuística inata nos homens, a de mudar as coisas mudando-lhes os nomes! E achar saídas para romper com a tradição sem sair dela, sempre que um interesse directo dá um impulso suficiente para isso.”

— Karl Marx, ibidem, página 75

3/ Esta frase de Karl Marx pode justificar os conceitos actuais de “casamento” gay, de “adopção de crianças por pares de invertidos”, de “procriação medicamente assistida”, etc.; e vira-se contra o próprio Engels!

Há, no livro, conceitos extraordinários, a ver:

  • horda opõe-se à  família
  • a horda é a forma social mais elevada [página 46]
  • o homem só é livre quando abandona os seus laços familiares para que surja a horda [página 45].

Para além do conceito de Engels de família sindiásmica, Engels valoriza a horda e o “matrimónio grupal”.

E é exactamente esta valoração que é adoptada pelas políticas de família da União Europeia!, embora em nome de putativos “direitos individuais”. Ou seja, a União Europeia pretende o estabelecimento da horda na cultura antropológica através da atomização da sociedade e em oposição à família propriamente dita — ao passo que a horda primitiva existia em função de parâmetros de pura sobrevivência da comunidade (quanto maior fosse a prole, maior seria a probabilidade de sobrevivência da comunidade primitiva).

A recuperação, por parte da política europeia, do conceito de “horda” e de “matrimónio grupal” de Engels é hoje feita em nome de “direitos do indivíduos” levados ao absoluto, ou seja, é feita no interesse da transformação do indivíduo em um átomo social.

Ou seja: Karl Marx tinha razão: “Casuística inata nos homens, a de mudar as coisas mudando-lhes os nomes!”.

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A origem da família, da propriedade e do Estado – Engels (parte 2)

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