perspectivas

Terça-feira, 21 Outubro 2014

As três dimensões da Realidade

Filed under: Ciência,filosofia,Quântica — O. Braga @ 9:36 am
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“A distinção entre matéria e espaço vazio teve que ser finalmente abandonada, quando se tornou evidente que as partículas virtuais podem ser criadas espontaneamente, a partir do vazio, e nele desaparecem novamente, sem que esteja presente algum nucleão ou qualquer outra partícula que interactue fortemente.

As partículas formam-se a partir do nada e desaparecem novamente no vácuo. De acordo com a “teoria de campo”, acontecimentos deste tipo estão constantemente a acontecer. O vácuo está longe de se encontrar vazio. Pelo contrário, contém um ilimitado número de partículas que surgem infinitamente.”

→ Fritjof Capra, “O Tau da Física”, página 184

Temos que compreender alguns conceitos exarados no texto supracitado, como por exemplo, os conceitos de “nada”, “vazio”, “partícula virtual”. E temos também que perceber a linguagem metafórica e anti-positivista não só de Fritjof Fritjof Capra, mas também a da maior parte dos físicos actuais.


Imaginemos que estamos na Idade Média e pretende-se explicar a cor verde das folhas no Verão. Naturalmente que ainda não temos (porque estamos na Idade Média) a noção científica de “clorofila”. Um positivista medieval diria o seguinte:

“Não sei por que razão as folhas das árvores são verdes no Verão. Não tenho que me preocupar com isso, porque esse assunto pertence à metafísica, e não à ciência. Empiricamente não podemos verificar por que razão as folhas são verdes. As folhas no Verão sempre foram verdes, e por isso não faz qualquer sentido questionarmo-nos sobre factos óbvios e evidentes.” duende

Mas um anti-positivista medieval diria o seguinte:

“É possível que, durante a noite, uns pequenos duendes verdes pintem as folhas de verde; e por isso é que, quando amanhece, verificamos que as folhas continuam verdes. Não podemos afirmar isto com certeza, mas é uma possibilidade.”

Entre a posição do positivista e a do anti-positivista, eu prefiro a do último — porque mais vale uma qualquer tentativa de explicar um fenómeno do que nenhuma. A ciência é feita através de tentativas de explicação da realidade — teorias muitas vezes falsas. Mas mais vale uma teoria falsa do que nenhuma.


Conforme podemos verificar no discurso dos físicos actuais e no de Fritjof Capra em particular, prefere-se ter uma qualquer teoria, a não ter nenhuma — ou seja, a física actual é anti-positivista nomeadamente porque se baseia em grande parte no formalismo matemático.

O facto de a física actual ser anti-positivista não significa que descure ou despreze a verificação: o positivismo é uma forma de ver o mundo, uma filosofia (digamos assim) que coloca o empirismo acima de qualquer outra dimensão da realidade. Esta é a razão por que os cientistas apresentam uma “esquizofrenia” metodológica: ora são positivistas, ora são realistas.


Fritjof Capra, na sua qualidade de cientista, é obrigado a dizer que “as partículas elementares virtuais surgem do nada”.

Note-se que uma “partícula virtual” não tem massa, e por isso não é matéria no sentido clássico e positivista do termo. O “nada” surge aqui como uma espécie de “fonte” de onde “brotam” as partículas elementares “virtuais” desprovidas de massa que dão origem — através de uma interligação ou interacção entre elas — , às “partículas reais” (com massa). Por isso é que Stephen Hawking diz que “o universo surgiu do nada” — da mesma forma que o nosso anti-positivista da Idade Média dizia que “os duendes verdes pintavam as folhas de verde durante a noite”.

O físico francês Roland Omnès prefere dizer “abismo”, em vez de “nada”. Diz ele que “as partículas elementares virtuais surgem do abismo e desaparecem nele”  1

Baseada no facto de as partículas elementares virtuais “surgirem do abismo”, colocou-se a hipótese do Multiverso — mas esta hipótese apenas posterga qualquer tentativa de explicação do surgimento deste ou de qualquer outro universo possível. Portanto, a hipótese do Multiverso é uma “fuga para a frente”, uma tentativa de “empurrar com a barriga” o problema do Ser e/ou da Existência.

“¿Por que existe algo em vez de nada?” — perguntou Leibniz. Fritjof Capra diz que o “algo”, de Leibniz, surge do “nada”.

À luz da metafísica, o “nada” (segundo Fritjof Capra, ou o “abismo”, segundo Roland Omnès) já ultrapassa a imanência da dimensão quântica da realidade, e já entra pela transcendência adentro. O “nada” transcende a imanência da realidade quântica.

Temos, portanto, pelo menos, três dimensões distintas da Realidade:

  • a dimensão “material” macroscópica, determinada pela Força Entrópica da Gravidade, que é aquela que nós percebemos através dos cinco sentidos;
  • a dimensão quântica da Realidade gerida pela Força Quântica, que é imanente à anterior e regula o “avanço” do espaço e o “curso” do tempo;
  • e a dimensão transcendente da Realidade, que é aquilo a que Fritjof Capra metaforicamente chama de “nada”, e que é a dimensão da Realidade de onde surge a “matéria-prima” que fabrica o universo.

Nota
1. “A Filosofia Quântica”.

3 comentários »

  1. Reblogged this on O LADO ESCURO DA LUA.

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    Comentar por anisioluiz2008 — Terça-feira, 21 Outubro 2014 @ 9:58 am | Responder

  2. Interessante lembrar que de certas doutrinas cabalistas chamava-se Deus de “Nada”, o “Ein-Sof”. Falava-se que Deus criou este mundo através do Tzim-Tzum; palavras que já denotam o movimento que se intenciona ao falá-las. Por esse movimento, Deus, nele mesmo, destacava de si realidades diversas, sendo Ele a Realidade Primeira.

    Faz sentido, em parte, chamar Deus de “Nada”, pois “Nada” seria a parte que nos é oculta de Deus, é o Deus completo — e incompleto pela sua própria completude! Sendo nós partículas, fragmentos deste Ser, também só O conhecemos através de fragmentos. É o que são Paulo afirma com outras palavras: “agora conhecemos por espelho em enigma”.

    (melhorando — ou não — o comentário)

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    Comentar por Yogi (@7Anchors1Weight) — Terça-feira, 21 Outubro 2014 @ 3:30 pm | Responder

    • Eu não disse, no texto, que a transcendência — o “nada”, neste caso — era Deus. O que eu disse é que da transcendência vinha “a matéria-prima que fabrica o universo”. Muitas vezes, e por uma questão de eliminação de uma qualquer dissonância cognitiva, temos todos a tendência para “ler” — no sentido de interpretar — aquilo que não está escrito.

      O conceito de “Deus” que eu tenho não é nem panteísta (como defendem alguns cabalistas e a própria maçonaria) nem panenteísta (como defendem um certo Cristianismo da Nova Teologia ou os Rosa-cruzes). Deus está para além das três dimensões da Realidade, uma vez que é Ele que é a Causa delas. Por isso é que o catolicismo tem Deus (o Pai) como um conceito diferenciado do Logos (o Filho), embora — como escreveu simbolicamente Orígenes — “o Logos mantém o universo quando não deixa de olhar para Deus”.

      A dimensão da transcendência é gradual: pode estar, por assim dizer, “mais longe” ou “mais perto” da matéria (que tem massa) — por analogia: assim como uma onda quântica pode ter resquícios de massa, ou pode não ter nenhuma massa e por isso não é matéria; a própria onda quântica é gradual.

      A dimensão da transcendência é a dimensão do espírito ou da consciência; é a dimensão da Realidade a partir da qual as consciências podem (se puderem!) actuar no mundo — o que não significa que tudo o que acontece no universo seja produto da acção directa de consciências. Porém, a acção das consciências em relação ao mundo, quando acontecem, é sempre sancionada ou tolerada por Deus. À acção de Deus no mundo chamamos de Espírito Santo.

      Digamos que o universo tem uma “autonomia” de “funcionamento” (como defendeu Leibniz), através das leis da natureza (que não são absolutas: existe uma probabilidade muito pequena de as leis da natureza deixarem de funcionar tal como funcionam), embora possa haver intervenção divina através da consciência ou consciências “mandatadas” para o efeito: é aqui que entra o conceito de Logos.

      O que nos une a Deus é a consciência ou espírito — e não as “partículas virtuais” que são próprias da alma. O “espírito” ou “consciência” é um conceito diferente do de “alma”. Por exemplo, os animais ditos “irracionais” têm alma, mas não têm espírito ou consciência. Isto não significa que o espírito humano seja idêntico ao espírito de Deus, porque o espírito humano é criado por Deus, e um efeito não pode ter logicamente a mesma essência da causa.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 21 Outubro 2014 @ 5:01 pm | Responder


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