perspectivas

Domingo, 11 Maio 2014

A dissonância cognitiva da Raquel Varela

 

Por estes dias tenho andado a seguir o blogue da Raquel Varela. Estas coisas passam; daqui a uns dias não é nada, nem se nota. Por exemplo, neste verbete podemos verificar a dissonância cognitiva da Raquel Varela em relação à revolução sexual: por um lado, critica o Estado Novo por alegadamente ter proibido a divulgação de livros de “sexo e de amor”; mas, por outro lado, critica a Casa dos Segredos por transformar o “sexo e o amor” naquilo que é o corolário do império da liberdade negativa nos costumes: a libertinagem.

Eu não sei se Salazar proibiu a publicação de Cardoso Pires (como diz a Raquel Varela) apenas pelos seus livros de “sexo e amor”; parece-me que houve outras razões por que Salazar proibiu a publicação de Cardoso Pires. De resto, Natália Correia, por exemplo, publicou poemas eróticos no tempo de Salazar, e não me consta que tivessem sido proibidos. O problema de Salazar com Cardoso Pires não era o do “sexo e do amor” (antes fosse!): era antes um problema político fundamental que abarcava tudo (incluindo “o sexo e o amor”).

Tal como acontece, por exemplo, com Manuel Alegre, Raquel Varela confunde “conservadorismo” com “neoliberalismo” (ver ligação sobre a diferença entre os dois conceitos). O que se passa hoje em Portugal não tem nada a ver com conservadorismo, mas antes tem tudo a ver com neoliberalismo.

Neste caso, a dissonância cognitiva da Raquel Varela consiste em não querer reconhecer que existe um nexo causal inexorável — científico, mesmo! — entre a liberdade negativa destituída de liberdade positiva, por um lado, e a libertinagem, por outro lado. Quando os dois tipos de liberdade (negativa e positiva) não andam a par um do outro; quando só a liberdade negativa é contemplada pela cultura das elites que controlam os me®dia e o Direito Positivo — a consequência lógica é a constituição de novos tipos de escravatura, mais sofisticados do que os antigos porque se alega agora que as pessoas escravizadas são maiores de idade e que, por isso, deram o seu consentimento. Entramos já no domínio da noção absurda de “escravatura moral consentida”, como se fosse possível que uma pessoa quebrasse voluntariamente o seu sentido de auto-conservação sem que isso implicasse a existência de uma qualquer anomalia mental, privada e colectiva.

E o que a Raquel Varela não quer reconhecer é que o que está acontecer agora já tinha sido profetizado e anunciado, de uma forma apologética, por Herbert Marcuse em particular, e pelos mentores da actual Esquerda que foram os membros da Escola de Frankfurt.

Face à realidade actual de mercantilização da dignidade humana, e quando essa realidade não se adequa àquilo que a Raquel Varela pensa que ela (a realidade) deveria ser em função das suas (dela) crenças, então ela entra em dissonância cognitiva que se caracteriza por uma sensação de desconforto perante os factos.

E para obviar a esta situação, a Raquel Varela vê um “conservadorismo” em Portugal que não existe de facto (longe disso!), e implicitamente culpa Salazar pela existência da Casa dos Segredos, da lei do novo negócio das “barriga de aluguer” que se prepara, da adopção de crianças por pares de invertidos que transforma as crianças em um instrumento de legitimação de um determinado estilo de vida esdrúxulo, o “divórcio unilateral e na hora” que atinge principalmente as mães, o aborto “à la gardaire” por pressão dos homens que prejudica gravemente as mulheres em geral, o casamento que deixou de ser uma instituição e que foi transformado em uma amizade consentida pela polícia. Mas disto, a Raquel Varela não fala para não alimentar ainda mais a sua dissonância cognitiva.

Tudo isto foi feito através um tácito acordo político mútuo entre pessoas como Raquel Varela e os neoliberais: cada uma das partes beligerantes está convencida de que o movimento dialéctico de síntese trará um futuro que corrobore as suas mundividências e as suas crenças políticas. Ambos os lados da contenda optaram por uma política de terra queimada na cultura antropológica, para ver quem melhor sobreviverá quando a miséria moral grassar pela sociedade.

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