perspectivas

Terça-feira, 18 Março 2014

A síntese dos contrários, de Hegel

Filed under: filosofia — O. Braga @ 12:46 pm
Tags: , ,

 

Temos o seguinte número binário:

0101000001101111011100100111010001110101011001110110000101101100

Podemos ver aqui o que significa este número, em linguagem corrente.

hegel ddr web

O Zero e o Um não se opõem, nem são contraditórios entre si. Na relação entre o Zero e o Um não existe tese, antítese e síntese. O Zero e o Um não são idênticos (nem semelhantes) — ao contrário do que diz Hegel: “o Ser puro e o Nada Puro são idênticos”. Na natureza não existe o movimento triádico nem a “síntese dos contrários”, segundo Hegel. O Devir do tempo, na natureza, nada tem a ver com qualquer movimento triádico (tese, antítese, síntese), mas antes tem a ver com a probabilidade indeterminista e indeterminada de acontecimentos gerados pela função de onda quântica. Essa probabilidade é objectiva, ou seja, essa probabilidade é constitutiva do domínio da realidade quântica que está subjacente à realidade macroscópica e humana, e não é uma probabilidade subjectiva baseada apenas em uma falta de conhecimento das suas razões causais. “A física quântica forneceu a refutação definitiva do princípio da causalidade” (Heisenberg). Ora, na dialéctica de Hegel não há outra coisa subjacente senão o princípio da causalidade que determina o seu (dele) movimento triádico.

Vamos ver o exemplo análogo da relação entre onda quântica e partícula elementar:

Em 1923, Louis de Brogli aplicou ao electrão (partícula elementar) o estranho carácter duplo da luz: ficou provado que toda a matéria possui propriedades ondulatórias; mas em muitos métodos de ensaio aplica-se, antes, a “natureza de bola de bilhar” das partículas da matéria. Assim, fala-se do “dualismo onda/partícula” da matéria. Ora, Hegel recusou todos os dualismos em nome de uma “nova” lógica que, ao fim ao cabo, apenas considerou uma forma de dualismo verdadeiro: o dualismo, segundo Hegel, fundado sobre aquilo a que ele chama de oposição real: a antítese do “ser” e do “não-ser”, que não existe senão na linguagem humana.

Com a descoberta de Louis de Brogli, criou-se um problema difícil, do ponto de vista da Teoria do Conhecimento: passou a dizer-se que a matéria é “contraditória em si” — apenas porque, alegadamente à luz da lógica aristotélica, concebeu-se a ideia segundo a qual a onda quântica e a partícula elementar estariam “em oposição” e/ou “em contradição” entre si. Mas é o pensamento humano que atribui uma contradição ou uma oposição à relação onda/partícula; e atribui essa contradição ou/e oposição porque o homem precisa delas para poder conhecer. Porém, a necessidade do homem de poder conhecer não significa que a realidade seja necessariamente moldada de acordo com as necessidades humanas de conhecer.

Perante aquilo que se pensou ser a “contradição da matéria”, Niels Bohr propôs que se falasse de “complementaridade da matéria” que, para ele, significava que as propriedades da matéria, ou as suas descrições, sendo incompatíveis do ponto de vista da lógica (lógica aristotélica: princípio de identidade e da não-contradição), são, no entanto possíveis porque só em conjunto permitem uma imagem da totalidade. Mas o conceito de “complementaridade da matéria”, segundo Bohr, nada tem a ver com o conceito de “síntese dos contrários”, de Hegel: antes, tem a ver com a distinção das características dos componentes de uma certa realidade. Dou um exemplo:

O meu vizinho imaginário, o senhor João Pereira, pode ser descrito pela sua esposa como amável e inteligente; pelos seus filhos como teimoso e imprevisível; e pelo seu patrão, como indeciso e estúpido. Podemos dizer que só compreendemos alguma coisa acerca do verdadeiro senhor João Pereira ao vermos estas três descrições em conjunto. Não existe qualquer “contradição” ou qualquer “oposição” entre estas três formas de ver o Senhor João Pereira: e é neste sentido que existe uma “complementaridade”, segundo Niels Bohr, entre estas três concepções ou conceitos acerca do Senhor João Pereira. Essa “complementaridade” não é uma “síntese” (no sentido de uma “síntese dos contrários”, de Hegel) — porque não há contrários senão na nossa cabeça e no nosso discurso (linguagem) que decorrem da nossa visão ou concepção do mundo macroscópico adequado à percepção sensorial do homem.

A lógica de Aristóteles, em nenhum momento poderá ou deverá ser colocada em causa (como o fez Hegel com a sua “nova lógica”), porque a lógica clássica aplica-se  simultaneamente à realidade macroscópica e à linguagem humana e, portanto, é essencial à sobrevivência do ser humano e a qualquer possibilidade de conhecimento real e do real (através da lógica matemática, por exemplo).

Por outro lado, a “nova lógica” de Hegel — a da “síntese dos contrários” — é talvez a maior fraude cometida em filosofia, porque projecta, para toda a realidade, a necessidade que o homem tem de se confrontar com contrastes, concebidos pela percepção dos sentidos, para poder conhecer uma pequena parte da realidade. Esses contrastes (no sentido de “contradições”), que o homem percepciona, não existem necessariamente e enquanto tais, na natureza. Assim, não existe qualquer “contradição” (no sentido lógico da palavra) entre a onda quântica e a partícula elementar, nem a matéria é uma “síntese de contrários” que se possa subsumir, por exemplo, da relação entre a onda quântica e a partícula elementar. Também não existe qualquer contradição ou oposição entre o Zero e o Um da linguagem binária, e nem o número binário

0101000001101111011100100111010001110101011001110110000101101100

é uma “síntese contraditória” de Zeros e de Uns.

O Valor

Diz Hegel que “o que é real é racional”; e “o que é racional é real”; e que “a ideia e o facto são a mesma coisa”. No meio desta confusão hegeliana temos que saber o que significa “racional”; temos que fazer a distinção entre facto subjectivo, por um lado, e facto objectivo, por outro lado.

Hegel não faz a distinção entre facto objectivo e subjectivo: segundo Hegel, um facto artístico, se for feio, não é um facto artístico: não é uma realidade artística (que teria a “nota” de fealdade), mas antes é a irrealidade artística — ou seja, segundo Hegel, não só aquilo que é considerado “irracional” é irreal, como também “o irreal tem uma realidade”. A visão de Hegel acerca da ética é “mecanicista”, por assim dizer, quando ele reduz o Valor e/ou os Valores a um produto de uma “síntese dialéctica” quase determinística que só existe sua (dele) cabeça.

A verdade é que a arte ou/e a estética, como também as emoções humanas, dependem de Valores; e embora possamos aduzir logicamente a existência de uma racionalidade subjacente à existência (“mecânica”) do mundo ou da realidade, esta “racionalidade existencial” é instrumental, no sentido em que o mundo e a realidade são a condição da existência (no plano do Homem) de um outro tipo de racionalidade que se baseia nos Valores (racionalidade valorativa). O feio e o belo dependem de valores, valores esses que existem independentemente de qualquer utilidade e de qualquer “síntese dialéctica”; e se dependem de valores, tanto o belo como o feio são ambos factos objectivos e reais — tão objectivos e reais como o Zero e o Um da linguagem binária, sem que o Zero signifique o “Não-ser”, ou que o Um signifique o “Ser”.

Hegel incorre no mesmo erro de Kant (embora partindo de premissas diferentes): tenta impôr à realidade, de uma forma absoluta, aquilo que o homem pensa que é a realidade em um determinado momento da História: “O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as.” (Kant, “Crítica da Razão Pura”). De uma forma semelhante, Hegel pretende impôr à natureza o conceito de “síntese dialéctica”: não a partir da natureza, mas a partir do pensamento humano (enquanto discurso e linguagem) acerca da natureza.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: