perspectivas

Quarta-feira, 13 Novembro 2013

O tradicionalismo é hoje uma “sopa de pedra” (3)

Filed under: Ut Edita — O. Braga @ 7:46 pm
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1/ A ideia de que “se pode colocar o Rei no lugar do presidente da república” é anacrónica, e por isso absurda e falsa.

sopa_pedraOu seja, o princípio está errado, pelo simples facto de que o Rei existiu antes do presidente da república. Não é possível (no sentido da Lógica) colocar uma coisa que surgiu ontem no lugar de um outra coisa que surgiu hoje: seria como fechar uma gaveta à chave e meter a chave dentro da gaveta. O lugar de uma coisa que surgiu ontem — e em relação a outra que surgiu hoje — existe por direito próprio e independentemente de outra coisa que possa ter surgido depois.

Aquilo que surgiu ontem não desaparece necessariamente apenas porque outra coisa surgiu hoje. A “coisa de ontem” continua a existir enquanto tal, independentemente de outra coisa que tenha surgido hoje. A inversão do tempo é uma característica da mente revolucionária, e, por absurdo que seja, existem monárquicos revolucionários.

Não é o Rei que se coloca no lugar do presidente da república: antes, foi o presidente da república que se pretendeu que fosse colocado no lugar do Rei (o presidente da república é um Ersatz, uma fotocópia de má qualidade, do Rei). E não é possível inverter os factos ocorridos ao longo do tempo: por exemplo, não é possível dizer que a república surgiu antes da monarquia. Será difícil entender isto?

2/ O absurdo de alguns monárquicos é o de que criticam Rousseau — através da crítica à modernidade, com a qual eu parcialmente concordo — ao mesmo tempo que adoptam o conceito de “vontade geral” de Rousseau. Seria, por analogia, como se eu criticasse o Álvaro Cunhal e o Partido Comunista e, simultaneamente, adoptasse o materialismo dialéctico e histórico.

Eu não sei se essa contradição é propositada, nem vou fazer aqui qualquer juízo de valor. Apenas sei que essa contradição não é detectada por qualquer pessoa, e por isso esses monárquicos vão “levando a sua água ao moinho.”

Ora, adoptar o conceito de vontade geral, por um lado, e defender a essência societária da monarquia tradicional (medieval), por outro lado, é uma contradição em termos; ou, transparece uma espécie de esquizofrenia ideológica.

3/ A única forma de aproximar a realidade contemporânea da essência da realidade medieval é seguindo o conselho de Alexis de Tocqueville:

«A partir do momento em que a modernidade (neste caso, a portuguesa) perseguiu a nobreza aristocrática que fundou Portugal, “fez-se à liberdade uma ferida que nunca sarará”. A sociedade regride quando “a ambição de enriquecer a todo o custo, o gosto pelos negócios, o amor do ganho, a busca do bem-estar e dos gozos materiais” se tornam em paixões dominantes que degradam a nação inteira. O diagnóstico de Tocqueville está hoje à vista de quem quiser ver, com a degradação ética, moral e cultural das nações ocidentais.

Perante a dicotomia do estatismo republicano, por um lado, e da apatia democrática protagonizada por uma burguesia acéfala que implanta na sociedade uma anomia patológica, por outro lado, Tocqueville propõe a introdução e valoração, no sistema democrático, de uma espécie de componente não-democrática: a associação da sociedade civil. A associação proposta por Tocqueville não é uma corporação à moda do corporativismo medieval ou do corporativismo fascista: antes, é uma nova componente anti-sistema democrático burguês e/ou estatista. As associações naturais são, em si mesmas, um princípio não-democrático.

“Creio firmemente que não será possível fundar novamente, no mundo, uma aristocracia; mas penso que os simples cidadãos, associando-se, podem constituir-se como seres muito opulentos, muito influentes, muito fortes, numa palavra, pessoas aristocráticas” — (Da Democracia na América, volume II).

As associações, segundo Tocqueville, são elementos aristocráticos, e por isso, não-democráticos, que escapam ao controlo do Estado democrático e da acefalia burguesa. A nova aristocracia, da modernidade, são as associações de cidadãos livres, em grande parte independentes do Poder do Estado e do Poder da plutocracia. As associações criam vínculos entre os homens que impedem a absorção da sociedade pelo Estado e a instalação do “despotismo democrático”. As associações propiciam a aparição daquilo a que Tocqueville chama de “liberdade superior” que era característica da aristocracia anterior às revoluções burguesas – uma liberdade para fazer grandes coisas e que repudie qualquer tipo de servidão.

Um outro elemento que contraria o “despotismo democrático”, para além das associações, é o Rei. O Rei e as associações de cidadãos livres podem, até certo ponto, sarar as feridas da liberdade, abertas pela erradicação democrática da aristocracia.»

Tudo o resto é ucronia.

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