perspectivas

Sexta-feira, 25 Outubro 2013

A contradição de Hannah Arendt

Filed under: Política — O. Braga @ 9:56 am
Tags:

 

Há pessoas que passam uma vida inteira (supostamente) a estudar um qualquer fragmento da Realidade para depois retirarem, desse trabalho de uma vida, as conclusões mais absurdas. Quando digo “absurdas”, quero dizer “objectivamente” absurdas: não se trata aqui da minha opinião subjectiva, mas de factos demonstráveis. É o caso de Hannah Arendt.

Hannah che 400 png webO pensamento de Hannah Arendt é fundamentalmente o de Heidegger, embora com outras roupagens e expresso de uma forma diferente — como é evidente — e aplicado concretamente à História entendida como ciência. Heidegger e Hannah Arendt vão “beber” em Hegel. Até aqui, tudo bem: cada um come do que gosta.

No famoso Discurso do Reitorado, em que Heidegger declarou o seu apoio ao regime nazi, ele nada mais fez do que expressar a sua utopia de um retorno ao ideal da pólis grega, que alegadamente permitiria ultrapassar o mundo do “Se” (o mundo da tagarelice, da curiosidade e da publicidade), reduzindo a política à História com o conceito de “destino comum” do povo alemão. ¿E o que faz Hannah Arendt? Adopta o fundamento do pensamento de Heidegger!, ou seja, adopta a utopia do retorno à pólis grega para se ultrapassar o mundo do “Se”!

O caso de Hannah Arendt parece ser o de uma espécie de “síndroma de Estocolmo” aplicado às ideias (Heidegger foi o raptor): perante a objectividade do Mal, ela não o consegue ver em toda a sua dimensão e redu-lo à subjectividade. O problema do leitor de Hannah Arendt é que, normalmente, não consegue detectar o Historicismo no pensamento dela, porque ela é esguia e viscosa como a enguia. E aqui já não está tudo bem.

Tal como Heidegger, o Historicismo de Hannah Arendt é negativo: na impossibilidade de retorno aos gregos pré-socráticos, ela adopta e aceita a Idade Moderna tal qual ela é, embora “dourando a pílula” da modernidade. Para Hannah Arendt, o Mal da História foi o Cristianismo. Mas ao mesmo tempo que aceita a modernidade, justificando-a, revolta-se contra ela quando critica o nazismo — nazismo que é uma vergôntea da Idade Moderna. A verdade é que não é possível criticar o nazismo sem o colocar no contexto da História moderna. E eis a contradição de Hannah Arendt.

Dando-se conta da sua contradição, a viscosidade do pensamento de Hannah Arendt tenta escapar assumindo uma benevolência em relação a Eichmann: em sua opinião, o problema ético/filosófico resultava do facto de o “cimento ético” que sustentava o Estado nazi não ter nada de “demoníaco”, e nem “psicopatológico”, mas antes ser consequência do “consentimento” dado por homens e mulheres completamente “normais” — como é normal, segundo ela, o Eichmann. Como se pode verificar, Hannah Arendt concebe o Mal como um fenómeno subjectivo, porque ela não conseguiu ver a objectividade do Mal (neste caso, do nazismo). Ela não conseguiu ver que o Mal é um fenómeno objectivo, real, que tem vida própria. E como não conseguiu ver isto, reduz o Mal à subjectividade do "consentimento" dado por homens e mulheres ditas “normais”. Ou, melhor dizendo: ela não quis ver, porque de outro modo teria que fazer um juízo diferente acerca da modernidade — o que ela nunca faria, porque poderia ser interpretada como estando a defender a tradição cristã que antecedeu a Idade Moderna.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: