perspectivas

Quinta-feira, 3 Outubro 2013

A separação radical entre o público e o privado

 

“Faz confusão aos liberais imaginar que não existe uma divisão estrita entre o estatal e o privado.”

O que é a credibilidade para este governo?

Há frases que resumem um texto inteiro; e neste caso, resume a origem da modernidade. A modernidade começou com a separação radical entre o público e o privado — embora o público e o privado sempre tenha coexistido mais ou menos pacificamente antes do século XVI.

Se pudéssemos escolher uma figura que marcasse o início da modernidade, eu escolheria Michel de Montaigne. Há algumas ideias em Montaigne que são boas, e vou começar por aí, por exemplo:

“Há uma grande dúvida sobre se pode encontrar proveito evidente na mudança de uma lei recebida [da tradição] , seja qual for, melhor sendo que se lhe não toque de forma alguma, tal como à polícia [“polícia” é aqui entendida como “política de costumes”] , porque ela é como um edifício de vários andares tão unidos que se torna impossível retirar um deles sem que todo o corpo se ressinta”.

Ensaios, I, 23

Repare-se como, em finais do século XVI, Montaigne já era contra as experiências jurídicas e contra as engenharias sociais.


Mas nem tudo em Montaigne é bom. Aliás, a maior parte é má. Montaigne é o “marcador” do início da modernidade. É claro que Montaigne não era um liberal, no sentido moderno, mas foi o precursor do liberalismo, porque tinha as seguintes características:

  1. Operou um corte radical com o Renascimento e com a sua ética política como destino do Homem.
  2. Recuperou o epicurismo da Grécia antiga e aplicou-o à política.
  3. Reintroduziu a validade do pensamento sofista (relativismo) da antiga Grécia.
  4. Separou radicalmente o público e o privado.

Estas quatro componentes estão interligadas e formam um todo com uma coerência interna. O cepticismo de Montaigne em relação à religião levou-o a questionar, em primeiro lugar, a Autoridade (a do príncipe, a da religião, etc.); mas, por outro lado, Montaigne reconheceu que é necessária a Autoridade. Como conciliar o cepticismo religioso com a necessidade da Autoridade? Hannah Arendt escreveu um livro inteiro sobre este assunto, e chegou a conclusão nenhuma.

Para resolver este problema, Montaigne separou radicalmente o público e o privado — criou uma dualidade do público e do privado, destinada a neutralizar o perigo da subjectividade (leia-se, “individualismo”) que ameaçava a Autoridade.

Se juntarmos (como fez Montaigne) o cepticismo em relação à religião, por um lado, com o epicurismo, por outro lado, obtemos não só o individualismo que mina qualquer autoridade (porque “o epicurista isola-se da cidade”), mas também a negação da fundamentação divina das leis (Montaigne serviu certamente de inspiração a Kelsen). Perante isto, só lhe restou a separação radical do público e do privado, para que o individualismo pudesse ser controlado.

Montaigne não deixa subsistir nenhuma legitimação tradicional de Poder (estamos no século XVI !). Recusa a tradição. Mas como, recusando a tradição, se pode defender a Autoridade? A subjectividade moderna arroga-se no direito de examinar as ordens soberanas e de desobedecer alegadamente "em nome da consciência"; mas, sendo assim, não há Autoridade que resista (conclui Montaigne):

“(…) parece-me deveras iníquo querer submeter as constituições e observâncias públicas e imóveis à instabilidade da fantasia de qualquer um (a razão privada não tem senão uma jurisdição privada)” — ibidem

“A razão privada não tem senão uma jurisdição privada”. Temos aqui o princípio do actual politicamente correcto, que, cada vez mais, empurra e circunscreve a prática da religião ao recôndito do lar. A separação radical entre o público e o privado não é só liberal: também é socialista. É um fenómeno moderno.

Anúncios

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

%d bloggers like this: