“É eticamente aceitável criar um animal para o massacrar publicamente e ganhar dinheiro assim?” — pergunta de Nuno Markl, respigado no FaceBook
Repare-se na ênfase da pergunta no “publicamente”. Esta pergunta só faz sentido se lá se colocar o “publicamente”, porque se o retirarmos de lá, embatemos de frente com a realidade dos matadouros. Naturalmente que vem, logo a seguir, o argumento: “nos matadouros, a morte do animal é rápida” — como se fosse possível julgar da vida e da morte de um ser qualquer a partir de uma hipotética e pressuposta valorização do seu sofrimento. Qualquer dia, e por este andar, o novo puritanismo proíbe a matança familiar do porco, no Alentejo, na Beira Alta ou em Trás-os-Montes.
« Os puritanos detestavam os combates de ursos, não porque esses jogos causassem sofrimento aos ursos, mas porque davam prazer aos espectadores. » — Thomas B. Macaulay
Em matéria cultural, a antiga divisão entre Esquerda e Direita parece ser hoje mais a divisão entre duas seitas puritanas: uma, ultra-religiosa que retira qualquer racionalidade à religião transcendental; e outra, também ultra-religiosa no sentido político, que retira qualquer irracionalidade à utopia perfeccionista e neurótica que propaga e amplifica uma ansiedade patogénica por toda a sociedade.
O novo puritanismo persegue tudo o que “cheire” a tradição. Para o novo puritanismo, os homossexuais saem do armário, mas os cristãos entram dentro do armário; o acto de abortar um ser humano passou a estar fora da lista dos tabus, mas a tourada passou a ser tabu. O mundo virou ao contrário.
O puritanismo clássico, de raiz calvinista, que esteve na origem da revolução inglesa e que, mais tarde, colonizou os Estados Unidos, pode ser definido como “o medo inconsciente de que alguém se esteja a divertir, em qualquer sítio e seja onde for”. Mas o novo puritanismo não persegue apenas e só o divertimento dos outros, mas também significa “o pânico moral expresso em relação a qualquer resquício de tradição”. Basta um “cheiro” a tradição para que o puritanismo politicamente correcto entre em histeria.
O novo puritanismo, e em contraste com o puritanismo clássico que era de raiz religiosa transcendental, é um puritanismo religioso secular, e por isso é desprovido de uma axiologia cosmológica e cosmogónica. É um puritanismo que reduz o habitat do Homem ao planeta Terra, e estabelece as suas fronteiras nos satélites artificiais que difundem a Internet. É um puritanismo utópico que não se fundamenta na natureza humana — e por isso é que a tradição, seja em que aspecto ela se manifeste, é sempre hostilizada.
No novo puritanismo, o fundamentalismo religioso foi substituído por uma religião política a que se convencionou chamar de “politicamente correcto”; ou melhor dizendo: o novo puritanismo é a síntese da “guerra” centenária entre o fundamentalismo religioso, por um lado, e o liberalismo que tornou permissivas a cultura e a moral, por outro lado (segundo Michael Walzer).
Em matéria cultural, a antiga divisão entre Esquerda e Direita parece ser hoje mais a divisão entre duas seitas puritanas: uma, ultra-religiosa que retira qualquer racionalidade à religião transcendental; e outra, também ultra-religiosa no sentido político, que retira qualquer irracionalidade à utopia perfeccionista e neurótica que propaga e amplifica uma ansiedade patogénica por toda a sociedade.
Os valores da ética têm que ter uma hierarquia, e quando essa hierarquia não existe, então atribui-se um idêntico valor a um ser humano e a um animal qualquer. É o que acontece com os estupores que defendem o aborto livre, por um lado, e por outro lado são contra as touradas.![]()
A tourada tem a sua origem na multi-secular criação de gado e na vida dos campinos, e não se admite que um sibarita citadino qualquer, que provavelmente nunca sujou as mãos na terra e que gosta de um bom bife no prato, venha tecer considerações puritanas e hipócritas acerca de uma actividade tradicional portuguesa.














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