Sobre este texto acerca de Kant (ver ficheiro PDF), estou de acordo com a maior parte dele, apenas com as seguintes ressalvas (em sublinhado):
«Para Kant, a filosofia cessa a dimensão metafísica e passa a ser “a ciência da relação de todo o conhecimento com os fins essenciais da razão humana” ou “o amor que o ser razoável tem pelos fins supremos da razão humana.” Trocado por miúdos, o conhecimento torna-se apenas subjectivo e relativo a cada mente humana, é essencialmente relativo e imanentista.»
O conceito de “subjectivo” pode ser reduzido a duas noções: a primeira é psicológica (do âmbito da psicologia), e engloba tudo o que se relaciona com o sujeito e com o seu estado de consciência. A segunda noção é que se pode constatar em Kant, em que “subjectivo” significa tudo o que, no sujeito (ou no indivíduo), depende da sensibilidade (percepção do mundo sensível) ou de princípios subjectivos, e em oposição à Razão ou de princípios objectivos e universais.
Na primeira noção (a psicológica), não se faz a destrinça entre o irracional, o a-racional e o racional. Já na noção de Kant, o “subjectivo” abarca apenas os campos do irracional e do a-racional, ficando o racional sob a jurisdição do “objectivo” ou universal.
«Para Kant é impossível imaginar o infinito e o vazio. Após a exploração espacial e a formulação da teoria do Big Bang, nós não só sabemos que o vazio existe, como sabemos que uma quantidade finita de matéria e energia se expande num espaço vazio infinito. Portanto, temos uma noção empírica quer do infinito quer do vazio.»
Mesmo no século XXI, não temos uma noção empírica do infinito ou/e do vazio. Essa noção é teórica, por um lado, ou intuitiva (quando a intuição existe, porque nem sempre existe), por outro lado. É teórica na ciência e nas matemáticas; é — e sempre foi! Não se trata de um fenómeno moderno! — intuitiva no ser humano enquanto sujeito. A representação matemática do infinito não é empírica: é axiomática (e, por isso, lógica), e Kant considerava os axiomas como sendo a priori.
Por exemplo, o teorema de Pitágoras; ou o teorema de Euclides que diz que a soma dos ângulos internos de um triângulo é de 180º, e não outra coisa qualquer. Os teoremas derivam de axiomas.
«Os juízos analíticos, a priori: são compostos por noções evidentes que não resultam da experiência e em que o predicado (isto é, a qualidade do sujeito) nada acrescenta ao sujeito. Por exemplo, o triângulo tem três ângulos ou todo o efeito tem uma causa. Kant exclui desta zona de evidência qualquer conceito moral ou qualquer noção de existência transcendental. É o domínio do Espaço e da Geometria. Mas Kant não pode incluir neste conceito a geometria não euclidiana.»
Quando se fala aqui em “geometria não euclidiana”, refere-se à “geometria pura” de a Lobachevsky, Bolyai e Riemann.
A geometria pura de Lobachevsky e de Bolyai substituíram o pressuposto euclidiano — segundo o qual pode ser desenhada uma linha paralela passando por um ponto que não a uma dada linha recta — pelo axioma segundo o qual “por um dado ponto há duas linhas paralelas a uma dada linha recta”. A partir deste axioma, Lobachevsky deduziu o teorema segundo o qual “a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre inferior a 180 graus, e decresce à medida em que a área correspondente aumenta”.
Em contraponto, Riemann substituiu o pressuposto euclidiano pelo axioma segundo o qual “para um ponto não há linhas paralelas a uma dada linha recta”, tendo como consequência o teorema segundo o qual “a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre superior a 180 graus, e aumenta proporcionalmente à área do triângulo”.
Bom. Porém, a maioria dos pensadores da ciência — incluindo muitos cientistas — contestam o estatuto a priori de axiomas e teoremas da geometria pura, com as asserções empiricamente significativas da geometria física — ou seja, por exemplo, Helmholtz salientou que os vários sistemas da geometria estão, em si mesmos, isentos do conteúdo empírico: só quando se conjugam com determinados princípios da mecânica é que surgem proposições empiricamente significativas. Segundo Helmholtz, é preciso especificar como é que termos tais como “ponto”, “linha”, ou “ângulo”, se devem medir antes que os teoremas geométricos se possam aplicar à experiência.
Por outro lado, o juízo analítico a priori é aquele que explica, em geral, uma definição qualquer. Por exemplo, se eu digo que “o ser humano é um mamífero bípede, dotado de inteligência e de linguagem articulada”, estou a elaborar um juízo analítico a priori. Tudo o que pode ser definível de forma evidente (tudo o que não necessita de verificação experimental!) é um juízo analítico a priori — naturalmente que “realidade”, por exemplo, não é definível, e portanto, não é um juízo analítico a priori.
Outro exemplo de um juízo analítico a priori: “nenhum celibatário é casado”.
«Os juízos sintéticos a posteriori: decorrem da experiência. Por exemplo, a neve é branca ou todas as pessoas nesta casa são mulheres. Apesar de resultarem da experiência, Kant afirma que estes juízos não têm validade científica, porque se podem modificar com o tempo. Esta afirmação ignora que os conceitos científicos também se modificam com o tempo.
Esta é uma refutação forte contra a própria existência autónoma dos juízos sintéticos a priori.»
Em contraponto, o juízo sintético a posteriori é aquele juízo que resume uma experiência científica ou empírica, ou seja, depende da verificação. Porém, um juízo não é um conceito, embora o juízo estabeleça relações entre conceitos.
Um juízo é um processo mental que nos permite expressar e afirmar algo, estabelecendo uma relação entre um sujeito (S) e um predicado ( P) por intermédio da cópula (verbo). É o estabelecimento de relações entre conceitos que podem ser de afirmação ou de negação ou de indefinição. A expressão verbal do juízo é a proposição.
Se é verdade que os conceitos científicos mudam com o tempo, também é verdade que o juízo sintético a posteriori — entendido em si mesmo, e não entendido em função dos conceitos (que mudam) —, não tem validade científica porque se baseia exclusivamente no empirismo — e do domínio do empírico só podemos esperar soluções empíricas. Todas as verificações empíricas ficam sujeitas a uma qualquer teoria que as interpretam (foi isto que Kant quis dizer), e por isso é que o juízo sintético a posteriori não tem validade científica.
Conclusão: é muito difícil criticar Kant. A principal crítica que se lhe faz é que as descobertas da ciência invalidaram alguns dos seus (dele) conceitos (por exemplo, de espaço e de tempo), mas isso não é uma crítica propriamente dita — seria como se criticássemos Aristóteles pelo seu (dele) conceito de “motor do universo”. O que interessa, em Aristóteles ou em Kant, é aquilo que é intemporal.
Porém, é perfeitamente possível criticar a metafísica de Kant, por uma razão lógica: qualquer negação da metafísica é sempre uma forma de metafísica: pode ser uma metafísica imperfeita, mas é sempre metafísica.