perspectivas

Sábado, 21 Setembro 2013

O valor (3)

 

«Por que a Igreja não pode se adaptar ao "espírito dos tempos", mas deve, em vez disso, absorvê-lo e transcendê-lo dialecticamente, indo sempre adiante dele e nunca a reboque? É simples: O espírito dos tempos consiste em mudança, e nenhuma mudança faz sentido sem ser sobre um fundo de permanência, reflexo e símbolo temporal da supra-temporalidade. Para que algo mude, é preciso que algo permaneça para lhe servir de medida e até para confirmar que a mudança aconteceu e não é só uma impressão enganosa. A Igreja é o quadrante do relógio, sem o qual os ponteiros não teriam onde mover-se. A Igreja é o factor de permanência, a medida das mudanças.»

— Olavo de Carvalho (no Facebook; os sublinhados são meus)


«O valor absoluto é inseparável de todos os valores particulares que o implicam, em vez de lhes ocupar o lugar. É em nome do valor que estimo o direito de uma coisa a ser, que prefiro a sua existência à sua não-existência, que me obrigo a recorrer a tudo para o realizar consoante o meu poder.

(…)

O valor reconhece-se precisamente quando quero uma coisa com uma vontade absoluta à qual estou pronto a sacrificar tudo o mais. E, se se objectar que mesmo tal sacrifício pode ser ilusório, é preciso distinguir ainda entre o valor da coisa como tal, que é tão-só uma imagem ou uma sombra do valor absoluto, por um lado, e por outro lado, o próprio valor da vontade que se empenha em produzi-lo e que testemunha em favor do Absoluto pela própria extensão dos sacrifícios que está pronta a em consentir para não renunciar a si mesma.

Não há valor, por mais humilde que seja, que não exija algum sacrifício; eis aí um dos efeitos da hierarquia dos valores que se ordena toda entre o sensível e o espiritual. O valor não está na natureza: é uma superação da natureza, ao mesmo tempo seu suporte e instrumento. A nossa própria vida pode ser o preço dessa superação da natureza.»

— Louis Lavelle, “Tratado dos Valores”


Há qualquer coisa que liga estes dois trechos, e que os liga às recentes declarações do Papa Francisco I a uma publicação jesuíta. Depois dessa entrevista do Papa, a forma como nós o vemos, mudou: já não o podemos ver da mesma forma como víamos João Paulo II ou Bento XVI. Somos forçados a vê-lo como um irmão de fé que também erra e está sujeito a crítica — aliás, ele próprio se confessa pecador: foi o próprio Papa que renunciou ao estatuto da infalibilidade do Papa.

A Igreja representa “o valor absoluto que é inseparável de todos os valores particulares que o implicam”. Os valores particulares mudam, mas o valor absoluto, que é o fundamento dos valores particulares, não muda. Se definirmos o absoluto como aquilo que de nada depende e de que tudo o mais depende, o absoluto implica o relativo; mas se o absoluto implica o relativo como o que o exprime e manifesta, o relativo também implica o absoluto como o que o pressupõe e o fundamenta.

Não é possível uma Igreja sem Valor e sem valores, que exigem sacrifícios porque são a “superação da natureza”. Ninguém nos pode dizer, ou tem o direito de dizer: “abandonem a defesa dos valores”, porque isso seria o mesmo que nos dissessem: “ponham o valor absoluto de lado em nome da moda que passa na televisão”. Nem o Papa nos pode dizer isso.

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