perspectivas

Segunda-feira, 2 Setembro 2013

A nova cultura intelectual — e antropológica — que vem aí

1/ Não simpatizo com a expressão “cultura de massa”, não só porque a cultura antropológica sempre foi de “massa”, mas também porque aquilo a que se chama hoje de “cultura de massa” é cada vez mais uma cultura do “indivíduo-rei”, ou uma cultura de atomização da sociedade.

Na Idade Média, a oralidade substituía a imprensa; e embora a população europeia fosse, nessa época, muito menor em quantidade do que aconteceu depois da industrialização a partir do século XVIII – também poderíamos falar de uma “cultura de massa” na Idade Média. A cultura antropológica é sempre uma “cultura de massa”. O inconveniente da utilização deste termo (cultura de massa) é que tem uma directa conotação com a expressão marxista “cultura de classe”, e portanto reduz a cultura antropológica, ou a algo indefinido e portanto sem sentido, ou ao seu menor múltiplo comum.

2/ Aristóteles diz que Sócrates errou quando afirmou que “a sabedoria é uma ciência”; em vez disso – diz Aristóteles, “Ética a Eudemo”, 1246 b 35 -, a sabedoria “é uma virtude, não uma ciência”, ou seja, a sabedoria é um “outro género de conhecimento”.

A irracionalização da cultura antropológica ocidental (a tal “cultura de massa”), em geral, advém da identificação entre sabedoria e ciência.

A Ciência = Sabedoria; e quem disser o contrário disto é considerado ignorante pela cultura intelectual (que é a outra forma de cultura, estabelecida pelas elites ou pela ruling class ). Ou seja, segundo Aristóteles, a modernidade caiu no erro de Sócrates ao considerar que a sabedoria é uma ciência e que a ciência é sabedoria. E ciência é sinónimo de positivismo.

Vejamos o que Ernst Haeckel escreveu em 1898:

«Aquilo que a Física descreve é a Natureza, tal como ela é em si mesma; a Natureza… funciona objectivamente, tal como funciona uma máquina a cujo funcionamento nós, os sujeitos, na maior parte das vezes só podemos assistir.»

O mundo é, assim, concebido como uma grande máquina; e quem descodificar o seu projecto, tira-lhe tudo o que ela possui de miraculoso e pode utilizar essa máquina para os seus fins. Esta é a concepção de realidade ainda hoje patente na esmagadora maioria dos nossos contemporâneos – mas esta ideia é absolutamente errada! E quando digo que esta ideia é errada, cinjo-me à própria ciência microfísica que já demonstrou que ela é errada.

3/ O que faz falta é criar uma nova cultura intelectual que denuncie as ideias de Haeckel que ainda hoje predominam em grande parte da comunidade científica e na cultura antropológica em geral (a “cultura de massa”). Ou seja, o que é preciso é propalar a verdade das descobertas da própria ciência. E o que se passa hoje é que existe uma resistência muito grande das elites em relação à verdade científica – porque o que está em jogo é a exposição da absurdidade do materialismo da Idade Moderna.

John Gribbin , por exemplo, escreveu o seguinte (“Schrödinger’s Kittens and the Search for Reality“):

«Se continuarmos a investigar e se indagarmos sobre a imagem física daquilo que aqui (no mundo) acontece, chegaremos à conclusão de que todas as imagens físicas se dissolvem num mundo de espíritos.»

Essa nova cultura intelectual tem que aliar a religião à ciência – e não separá-las. Uma abordagem exclusivamente religiosa da realidade apenas alimenta a teimosia irracional do facciosismo positivista.

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