perspectivas

Domingo, 18 Agosto 2013

João César das Neves e o Papa Francisco I

Era inevitável. As justificações para a acção de Francisco I já começaram há muito tempo na estranja, e agora o João César das Neves toma, em Portugal, as dores de alma. Ou seja, teme-se “a entrada de leão e saída de sendeiro”, porque “quem não quer ser lobo não lhe veste a pele”.

Referindo-se a Francisco I, João César das Neves começa o seu texto com qualificativos como, por exemplo, “personalidade cativante”; e que Francisco I “tem traços únicos” (como se cada ser humano não fosse único e irrepetível); que tem um “carácter encantador” (como se “carácter encantador” fosse uma qualidade objectiva: por exemplo, para muitos nazis, Hitler também tinha um “carácter encantador”); e que “o mundo e a Igreja ainda não compreenderam totalmente o Papa Francisco I” (mas o João César das Neves já o compreendeu).

Depois, João César das Neves continua com a sua análise subjectiva acerca do Papa Francisco I – o que, aliás, vai de encontro à imposição, na cultura antropológica dos católicos, do império da subjectividade que este Papa encarna. Ele é “sábio, límpido e transparente”; ele é “mesmo genuíno” (o qualificativo “genuíno” é uma forma politicamente correcta de fugir ao adjectivo “coerente”)

O cognome deste Papa é o de “Papa ambíguo”; e este qualificativo é baseado em factos, concretos e objectivos, e não em estados de alma. Hiperbolizando, diríamos que Francisco I adaptou a ética intencionalista (sublinho: a ética, e apenas e só a ética) de Pedro Abelardo à modernidade da Igreja Católica.

Quando escrevemos palavras belas acerca de algo ou alguém, devemos basear-nos em factos, na lógica e na razão – a não ser que escrevamos poesia, onde as palavras são muitas vezes belas, mas com uma diferença: a poesia é filosofia sem lógica. O que o João César das Neves fez foi um panegírico poético, subjectivista e desprovido de lógica – porque, em contraponto, há panegíricos e encómios racionais e objectivamente fundamentados. Mas voltemos ao texto de João César das Neves.

Comparar o cardeal Bergoglio com o Papa João Paulo II – como fez João César das Neves – é idêntico a comparar o cardeal Karol Józef Wojtyła com o Papa Francisco I.

O que João César das Neves escamoteia é o facto de o Papa Francisco I não ter deixado de ser o cardeal Bergoglio, ao passo que o cardeal Karol Józef Wojtyła reconheceu, logo no seu primeiro dia de pontificado, que “tinha que aprender a ser Papa” (sic). O Papa Francisco I ainda vai a tempo de seguir o exemplo do Papa João Paulo II.

5 comentários »

  1. Discordo apenas em um ponto de você. A poesia é filosofia muitas vezes lógica sim. A lógica da Poesia é simbólica, por demais acintosa para ser percebida pelo populacho e inatingível ao vulgo dos farsantes.

    Porém, o caráter do que esse Joãozinho profere é pseudo-poético, não passando pelo crivo mais primário da canastrice de um saltimbanco de beira de estrada. Verborragia lisa como sabão, rápida como uma lesma fazendo sexo, mas inócua como o é um ventríloquo de comício político.

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    Comentar por Ebrael Shaddai — Domingo, 18 Agosto 2013 @ 4:04 pm | Responder

    • Nem tudo o que é simbólico tem lógica no sentido formal (por isso é que procurar uma lógica em uma gramática de uma língua é absurdo).

      Este “problema” entre a poesia e a filosofia já vem dos gregos antigos: por exemplo, Platão quis proibir Homero.

      A poesia é filosofia desprovida de lógica, no sentido em que através da boa poesia é possível captar uma realidade — ou a realidade — apenas pela intuição. Quem lê um poema, intui sem precisar de raciocinar. O discurso poético apela essencialmente à estética — à beleza — e não à lógica formal.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 18 Agosto 2013 @ 6:49 pm | Responder

      • Concordo, se levarmos em conta a Lógica como operação meramente racional. Eu consigo entrever a Lógica na Poesia sem operações racionais, como um passe subjacente, em que tudo é auto-explicativo.

        Símbolos são auto-explicativos e não necessitam de sinais ou convenções logicas em si mesmos, como você já tinha escrito em outro verbete. E é justamente aí que a clareza lógica da Poesia e dos arquétipos se manifestam em toda a sua evidência desconcertante. Uma coisa lógica derruba toda e qualquer chance de luta dialética, e é nesse fosso que cai, diante de nossos olhos, toda a falácia politicamente delirante de nossos dias.

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        Comentar por Ebrael Shaddai — Segunda-feira, 19 Agosto 2013 @ 1:00 am

  2. Convenções lógicas, aí, é um eufemismo para o que parte das pessoas usa para disfarçar o mimetismo crescente dos valores, enevoando ainda mais o significado evidente dos símbolos com palavras sutis e segundo as conveniências do momento.

    Parece verborragia minha, mas não é. Talvez eu precise de aulas para expressar algumas coisas que penso. Me desculpe se pareço pedante.

    Um abraço!

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    Comentar por Ebrael Shaddai — Segunda-feira, 19 Agosto 2013 @ 1:06 am | Responder

  3. […] de ter defendido a tese segundo a qual “o papa não é marxista”, João César das Neves meteu a viola ao saco e tem mantido um silêncio absoluto nos […]

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    Pingback por O papa Chico agora é especialista em Economia e Finanças | perspectivas — Domingo, 17 Outubro 2021 @ 5:00 pm | Responder


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