perspectivas

Segunda-feira, 29 Julho 2013

O último livro de Luís Portela, capítulo III

Filed under: filosofia,Livros — O. Braga @ 3:30 pm
Tags: , , , ,

(A série de verbetes acerca do livro de Luís Portela com o título “Ser Espiritual: Da Evidência à Ciência” pode ser lida na categoria (tag) “Luís Portela”.)


O terceiro capítulo do livro de Luís Portela, com o título “Espaço e Tempo”, faz referência à teoria de cordas, e é influenciado pela tradição hermética.

Convém dizer, aos leitores do livro de Luís Portela, aquilo que ele não escreveu acerca da teoria de cordas. Ao contrário do que acontece com a mecânica quântica, a teoria de cordas não pode ser verificada nem confirmada em laboratório: é apenas uma teoria, assim como é apenas uma teoria aquela que diz que os extraterrestres nos visitam em discos voadores. Misturar a mecânica quântica – ou física quântica – por um lado, com a teoria de cordas, por outro lado, não é um exercício intelectual honesto.

A teoria de cordas é uma hipótese criada para tentar contrariar o conceito de finitude do universo confirmado pela teoria do Big Bang que se apoia em dois tipos de evidências, ou inferências científicas: o efeito de Doppler verificado pela primeira vez por Hubble, e a radiação de base (Penzias e Wilson, década de 1960). Portanto, a teoria do Big Bang é mais do que uma mera hipótese, porque se escora em inferências a partir de fenómenos físicos verificáveis e confirmados pela ciência – ao passo que a teoria de cordas não passa de uma hipótese que não é passível de verificação pela ciência.

Em bom rigor, e se tivermos em consideração o princípio da falsificabilidade de Karl Popper, a teoria de cordas não pertence à ciência, mas antes pertence à metafísica.

A ideia de um universo infinito e eterno – universo, esse, que a teoria de cordas defende – vai contra a segunda lei da termodinâmica, também chamada “lei da entropia”, segundo a qual qualquer sistema isolado [com a passagem do tempo] tende para a desordem e para o aleatório. Se o universo fosse, de facto, um sistema isolado (1) por um lado, e eterno e infinito, por outro lado, não apresentaria a ordem que observamos; ou, como escreveu um atónito Einstein:

“Mesmo que os axiomas da teoria sejam formulados pelo ser humano, o sucesso de um tal empreendimento pressupõe uma elevada ordem do mundo objectivo, que não se podia esperar de maneira alguma”.


Convém esclarecer que o conceito de “elevada ordem do mundo objectivo” significa que existe uma estabilidade nas leis que regem o universo (como podemos verificar na estabilidade do átomo de hidrogénio, em que a energia total é a soma da energia cinética e da energia potencial), o que não significa que “estabilidade” seja sinónimo de “imutabilidade das leis do universo”. Dizer que as leis que regem o universo são estáveis, é matéria de facto; mas dizer que as leis que regem o universo são “imutáveis” é especular acerca do futuro (é ter a certeza do futuro), por um lado, e por outro lado, é inferir que as leis conhecidas do universo já não escondem quaisquer enigmas, e/ou que não existem leis do universo que nos sejam ainda desconhecidas.


Outro aspecto do segundo capítulo é uma certa influência ideológica do Hermetismo, nomeadamente quando Luís Portela escreve, na página 25, citando um trecho de um livro de Donald Walsch:

“De uma macro-perspectiva, não existe separabilidade, e (vistas) de longe, todas as partículas, de tudo, apenas parecem o Todo“.

A concepção de “macro-perspectiva”, com relação ao “Todo”, que Luís Portela adopta de Walsch, é uma perspectiva imanente e hegeliana do Todo, segundo a qual o Todo é igual à soma das partes. Mas a verdade é que o Todo é mais do que a simples soma das partes; e sendo que o Todo, sendo composto pelas partes, transcende a soma dessas partes, não existe uma “macro-perspectiva” propriamente dita no sentido imanente: Luís Portela faz um paralelismo que é um paralogismo. O Todo não “vê” as suas partes da mesma forma que eu vejo uma pedra, porque o Ser do Todo não é apenas imanente (pertencente à mesma realidade), mas é também transcendente em relação às partes.

A Totalidade – ou o Todo – é mais do que o universo físico; e tudo o que não é físico tem origem transcendental. Por exemplo, os princípios lógicos não são físicos; e a dimensão da validade independente do tempo também pertence à Totalidade. Por isso, qualquer concepção de “macro-perspectiva”, enquanto aplicada ao Todo e por analogia à relação entre um ser humano e uma pedra, é um absurdo.

(1) A ideia de Multiverso, ou de Mundos Paralelos, que a teoria de cordas também defende, apenas “atira” o problema da causa da matéria para um estágio anterior ao do surgimento do nosso universo. Podemos fazer uma analogia com a teoria da panspermia como explicação para o surgimento da vida na Terra: apenas transfere para um outro qualquer ponto do universo o surgimento da vida, mas não explica como a vida surgiu no universo.

Deixe um Comentário »

Ainda sem comentários.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: