(A série de verbetes acerca do livro de Luís Portela com o título “Ser Espiritual: Da Evidência à Ciência” pode ser lida na categoria (tag) “Luís Portela”.)
O segundo capítulo do livro de Luís Portela tem como tema e título a “Harmonia” (segundo o conceito de Leibniz de “harmonia pré-estabelecida”). Luís Portela faz referência a Heraclito, como segue:
« Mas, segundo Heraclito, “a bela harmonia nasce de das coisas contrárias e tudo brota da oposição”. Parece, afinal, ser algo que brota de todo o lado, que permanece e perdurará. »
A referência de Luís Portela a Heraclito de Éfeso segue a própria ambiguidade do filósofo pré-socrático, por um lado, e por outro lado segue um princípio que norteia todo o livro que é o da dialéctica hegeliana. Para Heraclito, é a guerra – e não a harmonia – que está no centro do mundo e, por outro lado, para Heraclito o mundo é instável (Newton seguiu este conceito de instabilidade do universo, ao contrário de Leibniz) – o que está em contradição com o seguinte trecho do mesmo capítulo do livro, na página 19:
“Compreendemos que as Leis que regem o Universo são naturais e imutáveis, abarcando todas as partículas, desde a mais insignificante poeira cósmica até à maior das suas galáxias, passando pelos reinos mineral, vegetal e animal e, nomeadamente, pelo Homem. Cada uma dessas partículas tem espelhado em si o Todo”.
Em verdade e em rigor, não se pode afirmar que “as Leis que regem o Universo são imutáveis”, porque as leis do universo que o Homem conhece baseiam-se na experiência do passado, e é impossível ao ser humano garantir com certeza que essas leis se aplicarão, exactamente como são, no futuro. Por exemplo, a probabilidade de um salto quântico através do qual o planeta Terra passe a orbitar uma outra estrela, em uma outra galáxia, existe de facto, embora essa possibilidade seja de quase zero.
De modo semelhante, afirmar que “as Leis que regem o Universo são naturais” impõe que se defina, em primeiro lugar, o que significa “natural”. Se, por “natural”, queremos dizer o “mundo material” – sendo que matéria é tudo o que tem massa -, incorremos em erro, porque, por exemplo, a onda quântica pura não tem massa (uma partícula elementar, viajando no universo em forma de onda, não é matéria!) e nem por isso deixa de pertencer ao mundo “natural”.
Na página 18, Luís Portela escreve o seguinte acerca da prática de rituais religiosos:
“Talvez não seja necessária a prática de qualquer ritual religioso para nos identificarmos com a Harmonia Universal. Ela está aqui e em todo o Universo. Ela existe agora e sempre.”
Em resposta a Luís Portela, vamos falar um pouco sobre o conceito de “hábito”.
O conceito filosófico de “hábito” refere-se ao virtuosismo, que é uma espécie de “segunda memória” adquirida, que funciona sem a evocação de recordações e sem apelo à linguagem. A transformação da vontade, em hábito, é a condição de desenvolvimento da nossa própria vontade aplicada ao mundo exterior. O hábito é também a condição da aprendizagem (Aristóteles). Sem o hábito da prática ritual da nossa religiosidade, não pode existir evolução espiritual propriamente dita. Por outro lado, o hábito, se limitado à nossa subjectividade, não tem um sentido objectivo: só na intersubjectividade – na partilha do hábito com os outros -, o hábito, transformando-se em um ritual colectivo, adquire um significado de evolução espiritual.
A negação do hábito intersubjectivo aplicado à religiosidade humana – a negação do ritual religioso propriamente dito, defendido por Luís Portela – é uma idiossincrasia de tipo “New Age” que é falaciosa em si mesma, por um lado. e autocontraditória por outro lado porque não existe qualquer possibilidade de progresso espiritual sem uma aprendizagem que depende do “hábito” ritualizado (intersubjectivo).