perspectivas

Domingo, 28 Julho 2013

O último livro de Luís Portela: capítulo II

Filed under: filosofia,Livros — O. Braga @ 7:05 pm
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(A série de verbetes acerca do livro de Luís Portela com o título “Ser Espiritual: Da Evidência à Ciência” pode ser lida na categoria (tag) “Luís Portela”.)

O segundo capítulo do livro de Luís Portela tem como tema e título a “Harmonia” (segundo o conceito de Leibniz de “harmonia pré-estabelecida”). Luís Portela faz referência a Heraclito, como segue:

« Mas, segundo Heraclito, “a bela harmonia nasce de das coisas contrárias e tudo brota da oposição”. Parece, afinal, ser algo que brota de todo o lado, que permanece e perdurará. »

A referência de Luís Portela a Heraclito de Éfeso segue a própria ambiguidade do filósofo pré-socrático, por um lado, e por outro lado segue um princípio que norteia todo o livro que é o da dialéctica hegeliana. Para Heraclito, é a guerra – e não a harmonia – que está no centro do mundo e, por outro lado, para Heraclito o mundo é instável (Newton seguiu este conceito de instabilidade do universo, ao contrário de Leibniz) – o que está em contradição com o seguinte trecho do mesmo capítulo do livro, na página 19:

Compreendemos que as Leis que regem o Universo são naturais e imutáveis, abarcando todas as partículas, desde a mais insignificante poeira cósmica até à maior das suas galáxias, passando pelos reinos mineral, vegetal e animal e, nomeadamente, pelo Homem. Cada uma dessas partículas tem espelhado em si o Todo”.

Em verdade e em rigor, não se pode afirmar que “as Leis que regem o Universo são imutáveis”, porque as leis do universo que o Homem conhece baseiam-se na experiência do passado, e é impossível ao ser humano garantir com certeza que essas leis se aplicarão, exactamente como são, no futuro. Por exemplo, a probabilidade de um salto quântico através do qual o planeta Terra passe a orbitar uma outra estrela, em uma outra galáxia, existe de facto, embora essa possibilidade seja de quase zero.

De modo semelhante, afirmar que “as Leis que regem o Universo são naturais” impõe que se defina, em primeiro lugar, o que significa “natural”. Se, por “natural”, queremos dizer o “mundo material” – sendo que matéria é tudo o que tem massa -, incorremos em erro, porque, por exemplo, a onda quântica pura não tem massa (uma partícula elementar, viajando no universo em forma de onda, não é matéria!) e nem por isso deixa de pertencer ao mundo “natural”.

Na página 18, Luís Portela escreve o seguinte acerca da prática de rituais religiosos:

Talvez não seja necessária a prática de qualquer ritual religioso para nos identificarmos com a Harmonia Universal. Ela está aqui e em todo o Universo. Ela existe agora e sempre.”

Em resposta a Luís Portela, vamos falar um pouco sobre o conceito de “hábito”.

O conceito filosófico de “hábito” refere-se ao virtuosismo, que é uma espécie de “segunda memória” adquirida, que funciona sem a evocação de recordações e sem apelo à linguagem. A transformação da vontade, em hábito, é a condição de desenvolvimento da nossa própria vontade aplicada ao mundo exterior. O hábito é também a condição da aprendizagem (Aristóteles). Sem o hábito da prática ritual da nossa religiosidade, não pode existir evolução espiritual propriamente dita. Por outro lado, o hábito, se limitado à nossa subjectividade, não tem um sentido objectivo: só na intersubjectividade – na partilha do hábito com os outros -, o hábito, transformando-se em um ritual colectivo, adquire um significado de evolução espiritual.

A negação do hábito intersubjectivo aplicado à religiosidade humana – a negação do ritual religioso propriamente dito, defendido por Luís Portela – é uma idiossincrasia de tipo “New Age” que é falaciosa em si mesma, por um lado. e autocontraditória por outro lado porque não existe qualquer possibilidade de progresso espiritual sem uma aprendizagem que depende do “hábito” ritualizado (intersubjectivo).

6 comentários »

  1. Boas Orlando. Tive oportunidade, ontem, de dar uma vista de olhos neste livro. Confesso que o livro em si é pouco esclarecedor (só li até à página 38), e a sua argumentação recai amiúde nas diversas falácias “filosóficas” que se foram desenvolvendo a partir dos meados do século XX.
    O autor limita-se a citar comentários e afirmações de autores mais ou menos esotéricos, não havendo “substância” na narrativa deste livro. É tudo muito vago e incompleto, fica-se pelas metades, ou pelas meias-verdades. Tenho de ler o resto do livro para poder dizer algo mais.

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    Comentar por Emidio Crisóstomo (@Emidcrisos) — Segunda-feira, 29 Julho 2013 @ 1:29 pm | Responder

    • Por isso mesmo é que é importante escrever esta série de verbetes acerca do livro.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 29 Julho 2013 @ 3:37 pm | Responder

  2. Luís Portela tenta apenas abrir novas perspectivas sem falar em verdades absolutas, como é normal em qualquer pessoa sensata e que já por isso reflecte algum conhecimento.
    Para além disso reflecte de forma sucinta um conjunto de possibilidades que denotam um estudo e uma investigação ecléctica, contrariamente a algumas das opiniões que parecem criticar as interpretações erradas que elas próprias fazem, por não terem sequer conhecimento suficiente para as avaliar correctamente.
    Independentemente das crenças de cada um, seria bom que este livro levasse as pessoas a quererem fundamentar cada vez melhor as convicções que têm, só possível com o saudável cepticismo que não nos prende a dogmas e nos coloca cada vez mais cientes da nossa ignorância.

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    Comentar por Sofia Sarmento — Sexta-feira, 18 Outubro 2013 @ 5:21 pm | Responder

    • 1/

      “Verdade absoluta” é um pleonasmo.

      Normalmente fala-se de “verdade” em ciência, mas tudo o que não seja estritamente do domínio empírico são hipóteses, e não “verdades”. E mesmo sendo do domínio estrito do empírico, a realidade empírica, proveniente dos nossos sentidos, é interpretada por uma espécie de “software” que temos no nosso cérebro e que nos permite sobreviver.

      Aquilo a que a nossa cultura chama de “verdades relativas” apontam para o Absoluto, porque se não existisse o Absoluto não poderíamos conceber o relativo, por um lado, e por outro lado, as “verdades relativas” não são verdades propriamente ditas: o mais que podem ser é “partes da verdade”.

      A ler: “A Verdade existe?”

      https://espectivas.wordpress.com/a-verdade-existe/

      2/

      Não devemos usar a falácia lógica que dá pelo nome de ad Verecundiam, que consiste sustentar uma tese fazendo apelo a uma personalidade de reconhecido mérito, mas cujo saber ou competência é irrelevante para o tema em discussão. Luís Portela não tem preparação filosófica, e por isso não se deve utilizar a figura de Luís Portela como uma autoridade de direito ou de facto nestes assuntos.

      3/

      O cepticismo pode ser dogmático. Uma coisa é ter um forte sentido crítico — o que é saudável. Outra coisa, diferente, é utilizar dogmaticamente o cepticismo como um instrumento anti-dogma.

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 18 Outubro 2013 @ 5:58 pm | Responder

  3. ” Verdade absoluta” não é pleonasmo é simplesmente um erro em que alguns incorrem por não possuírem o tal cepticismo saudável que os impede de pararem a busca no meio de tanta “verdade relativa”…Luís Portela tem sim formação Filosófica,no seu livro ele não reinventa conhecimento algum, simplesmente o transmite de forma sucinta e com muita clareza, qualidade rara nos dias de hoje. O resto fica ao critério da investigação de cada um.
    Não é necessário recorrer ou ler o Livro de Luís Portela para fundamentar coisa alguma.
    Mais do que teorias especulativas, o que ele faz também, e muito bem, é responsabilizar o Ser Humano na e pela vida, através de um caminho de rectidão e não egoísmo que obviamente não se desliga jamais do “outro”…mais do que falar de conhecimento específico e teoria, ele convida à pratica desse mesmo conhecimento, só possível através de valores Universais Humanos, no sentido do Bom, do Belo e do Justo e de que nada é bom para nós que não seja bom também para os outros.
    Esta é a essência de qualquer conhecimento e ponto fulcral de qualquer filosofia e isso esta no livro de Luís Portela, mas também, no Budismo, no Cristianismo, no Taoísmo, em Platão, Giordano Bruno e em tantas outras relíquias intemporais…de resto “o importante, não é saber muitas coisas mas viver algumas delas”…não adianta olhar para as coisas e detectar o que as distingue na sua superficialidade mas sim, detectar o que as une na sua essência.

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    Comentar por Sofia Sarmento — Terça-feira, 22 Outubro 2013 @ 5:11 pm | Responder

    • 1/

      Luís Portela tem formação em ciências. Isso é público (e notório!). E, como se diz em ciências, “letras são tretas”. Talvez esta noção explique muita coisa.

      2/

      Luís Portela, se queria escrever um livro desta espécie, deveria ir mais além do livro de auto-ajuda que se pode comprar num aeroporto qualquer, por exemplo, em trânsito no aeroporto de Bruxelas para o Porto e depois de um aborto de 20 semanas no Reino Unido. O conceito de egoísmo tem muito que se lhe diga — tem a ver com actos concretos e com a ética, e não deve ser reduzido à “vontade do freguês”.

      3/

      « A revolução francesa matou mais gente em apenas um mês e em nome do ateísmo, do que a Inquisição em nome de Deus durante toda a Idade Média e em toda a Europa. » — Pierre Chaunu, historiador francês.

      A filosofia de Luís Portela é uma forma pós-moderna de ateísmo. É um ateísmo “espiritualizado” e imanente.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 22 Outubro 2013 @ 5:52 pm | Responder


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