perspectivas

Quinta-feira, 25 Julho 2013

Sobre as críticas de Eric Voegelin a Karl Popper

Filed under: filosofia — O. Braga @ 4:46 pm
Tags: , , , ,

Eu não vou aqui tecer considerações contra o pensamento de Leo Strauss, porque, como conservador, não gosto de dar tiros nos pés. Para inimigos já nos bastam os que existem, e para além dos neocons.

Karl Popper foi um filósofo da ciência, por um lado, e por outro lado foi um neo-kantiano, coisa que Eric Voegelin também foi! Para além da filosofia da ciência, Karl Popper foi pobre: a sua metafísica é pobre, a sua ética é esquiva, relativista e escusa (mesmo cobarde). Não foi um lógico. Esta é verdade.

Mas na filosofia da ciência, Karl Popper foi muito forte. Reduzir as ideias de Karl Popper à “Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” não é honesto. Seria como se eu dissesse que “o Cristiano Ronaldo é muito mau jogador, como defesa central”, o que é um absurdo de se dizer, porque o Cristiano Ronaldo é um atacante e não um defesa central. De modo semelhante, Karl Popper foi muito bom na filosofia da ciência (assim como Thomas Kuhn, por exemplo), e é na área em que ele mais se destacou, na filosofia da ciência, que deve ser criticado.

Eric Voegelin diz que Henry Bergson é um “filósofo respeitável”, por anteposição a Karl Popper que ele considera implicitamente que não é “respeitável”. É a opinião dele, mas eu estou em total e completo desacordo. Um filósofo (Bergson) que reduz e limita a metafísica à pura imanência não é, em minha opinião, um filósofo respeitável. Para tratar a metafísica da forma como ele a tratou, mais valia que Bergson seguisse o exemplo de Karl Popper e evitasse falar dela.

Isto não significa que não exista alguma originalidade em Bergson; mas também existiu alguma originalidade em Karl Marx, por exemplo, e nem por isso o considero um “filósofo respeitável”. Ser original não significa ser automaticamente respeitável; o Marquês de Sade, ou o Mandeville, também foram originais, mas nem por isso eu os consideraria “respeitáveis”.

A filosofia de Bergson tem um fundamento gnóstico puro e duro, e admira-me, por isso, que Eric Voegelin tenha dito dele que foi um “filósofo respeitável”. Vejo aqui alguma contradição em Eric Voegelin.

Sobre os conhecimentos de filosofia grega, se colocarmos Eric Voegelin ao lado de Gadamer, por exemplo, Eric Voegelin é um aprendiz. No entanto, eu também não considero Gadamer como um “filósofo respeitável”. Gadamer era capaz de passar uma ou duas horas a discursar, escorreito, em grego antigo – ou seja, discursar na língua dos próprios filósofos gregos -, coisa que Eric Voegelin nunca jamais sonharia ter podido fazer. Um “filósofo respeitável” não tem que necessariamente falar correctamente grego antigo.

No que diz respeito ao ataque ad Hominem de Eric Voegelin a Karl Popper, não nos merece qualquer comentário.

[ ficheiro PDF ]

32 comentários »

  1. Caro Orlando, não sei se é pertinente, mas ai vai algumas observações:
    1°- A carta é abril de 1950, portanto Voegelin já tinha 49 anos, mas será que no fim da vida, ele manteve a mesma opinião?(ele faleceu com 84 anos).
    2° Pelo tom expresso na carta, tenho a impressão(posso estar enganado) de que há algo a mais, do que simplesmente discordância intelectual. Só não sei o que possa ser.
    3° Comecei a ler Voegelin através de um seminário de sociologia política(Graças a um professor conservador. O único do departamento) em 2012. Pergunto, aos 49 anos, Voegelin já tinha produzido o grosso de sua obra? As quase duas mil paginas que ele abandonou, quando mudou o rumo de sua análise sobre a história das idéias políticas, foi neste período? (Pergunto, porque não sei a resposta).

    Minhas observações não visam discordar de teu artigo(até porque, estou começando nos estudos de alta cultura. Não sou ainda capaz de discordar de alguém em questões mais profundas, as quais ainda não domino), antes, procuro entender a aparente contradição de Voegelin. Não que eu nutra a ilusão de que alguém não possa ser contraditório. Sei que é impossível não se contradizer em algum momento da vida, ainda mais quando se escreve sobre questões relevantes e profundas, intelectualmente falando. Em minha monografia, usarei alguns conceitos e categorias vogelianas, por isso, quero me precaver quanto às prováveis objeções ao filósofo, por parte da banca julgadora. Vai que algum outro professor tenha lido Voegelin ( o que acho difícil).

    Gostar

    Comentar por Fabricio Jean — Sexta-feira, 26 Julho 2013 @ 1:27 am | Responder

    • Em 1950, Eric Voegelin já tinha escrito muita coisa, por exemplo, o opúsculo “As Religiões Políticas”, que ele publicou em princípios da década de 1930. Penso que poderia haver um problema pessoal entre Eric Voegelin e Karl Popper, mas eu tenho alguma dificuldade em atribuir a acção dos outros a “estados de alma”, ou em fazer juízos de valor psicológicos que justifiquem os actos.

      Portanto, o que levou (as razões) Eric Voegelin a fazer aquela crítica ad Hominem, não sei bem — a não ser que Eric Voegelin reduza o conceito de filósofo a determinados parâmetros, e exclua a filosofia da ciência desses parâmetros.

      Dou alguns exemplos de filósofos da ciência:

      Aristóteles, Oslander, Roger Bacon, Newton, Locke, Hume, Kant, Herschel, Whewell, Meyerson, Duhem, Campbell, Hempel, John Stuart Mill, Jevons, Berkeley (positivismo matemático), Mach (positivismo de Mach), Poincaré, Karl Popper, todos os pensadores da filosofia reconstrucionista lógica da ciência (Bridgman, Nagel, etc.), o círculo de Viena (neopositivimo), os anti-ortodoxos (Feyerabend, Goodman, Toulmin, Kuhn, Lakatos, Laudan, etc.).

      É nesta fileira do pensamento filosófico que Karl Popper deve ser inserido, e não em filosofia política, em metafísica ou em ética.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 26 Julho 2013 @ 2:27 pm | Responder

  2. Desculpe, mas devo apontar que o Popper do qual falam é aquele retratado nas medíocres “introduções à filosofia” que se encontram aos montes no mercado editorial de língua portuguesa. Popper foi muito mais do que um filósofo da ciência. Fez contribuições significativas em parceria John Eccles em metafísica no que concerna ao problema corpo-mente, um volume dos seus Pós-Escritos é dedicado ao problema metafísico do determinismo. Fez diversos avanços em teoria da probabilidade, no evolucionismo e em teoria da história. Em lógica, publicou vários artigos, inclusive New Foundations of Logic (http://philpapers.org/rec/POPNFF). Vocês precisam estudar, antes de prestar tamanho desserviço a cultura em geral. Leiam o que Popper produziu depois falem, não fiquem repetindo aquilo que historiadores medíocres da filosofia falam alhures por aí. http://www.rep.routledge.com/article-bibliography/DD052

    Gostar

    Comentar por Júlio Fontana — Domingo, 15 Setembro 2013 @ 2:30 pm | Responder

    • 1/ Vc comete um erro semelhante ao erro cometido pelos críticos de Popper, quando faz uma apologia. E depois comete um segundo erro, que consiste em uma atitude de pesporrência acerca de pessoas que Vc não conhece. Vc não sabe o que eu sei e li de Karl Popper.

      Os trabalhos de John Eccles são dele próprio e não de Popper. Aliás, Eccles trabalhou com muita gente, nomadamente com físicos quânticos.

      2/ Este verbete acerca de Popper tem um contexto que está estritamente ligado à crítica feita noutro verbete (ler o que está escrito, por favor).

      3/ por exemplo, no que respeita à teoria da probabilidade, Popper limitou-se a seguir as conclusões da física quântica e de cientistas como Heisenberg, Niels Bohr, Pauli, etc. Popper não acrescentou nada de novo à teoria da probabilidade: apenas fez uma síntese do pensamento desses cientistas.

      O mesmo se aplica à metafísica, em que Popper apenas resumiu o pensamento de John Eccles e pouco mais. Não há nada de novo na metafísica de Popper, e só quem não sabe o que está por detrás do pensamento metafísico de Popper pode dizer que ele foi original.

      4/ antes de dizermos que os outros são burros, devemos colocar a hipótese sermos nós os burros.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Domingo, 15 Setembro 2013 @ 7:31 pm | Responder

  3. Eu não o chamei de burro no primeiro post, pois ainda não tinha certeza de que se tratava de um. Na sua resposta ficou evidente tratar-se de um burro, visto que não reconhece a própria ignorância com relação ao tópico da filosofia contemporânea. Caras como você e seu mestre olavo deveriam lamber as bolas do Popper. VTNC

    Gostar

    Comentar por Júlio Fontana — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 12:32 am | Responder

    • Vc não compreendeu uma coisa muito simples: um burro consegue aprender; com muita dificuldade, mas consegue aprender alguma coisa. Portanto, basta seguir a lógica para concluir que Vc não é burro.

      E tanto é verdade que Vc não é burro que Vc não compreendeu que este meu verbete faz uma crítica a um outro verbete do sítio MIDIA SEM MASCARA que, como toda a gente sabe (incluindo os burros) é tutelado por Olavo de Carvalho.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 9:36 am | Responder

  4. Imbecil, Popper não foi um neokantiano. Ele é uma racionalista crítico. Vi o outro verbete e você só fala asneiras também. Popper e Eccles escreveram a obra “O Eu e o seu cérebro” em conjunto. Você não leu sequer a LScD de Popper. É um merdinha metido a besta! O que você falou sobre probabilidade aqui levanta dúvidas de que saiba até mesmo contar! Não sabe diferenciar probabilidade subjetiva de objetiva. Não sabe o que uma teoria frequencial e a teoria das propensões de Popper. Você é um monte de bosta!

    Gostar

    Comentar por Júlio Fontana — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 12:37 am | Responder

    • 1/ John Eccles escreveu muita coisa COM outras pessoas. Por exemplo (e está mencionado na Wikipédia em inglês), escreveu um livro COM Daniel Robinson.

      Mas o que não está na Wikipedia — e portanto, Vc não pode saber — é que, por exemplo, Eccles escreveu o seu livro “How the Self Controls Its Brain” (eu tenho o livro na sua versão em alemão: “Wie das Selbst sein Gehirn steuert”, Heidelberg, 1996) foi escrito COM o físico quântico, e director do Instituto para a Física Nuclear da Universidade Técnica de Darmstadt, Friedrich Beck.

      Portanto, Eccles escreveu muita coisa COM outras pessoas, mas a originalidade (das ideias) de Eccles é dele próprio e não de outras pessoas. Vc compreende isto, e por isso sendo burro, ou não?!

      2/ Foi o próprio Popper que se definiu a si mesmo como neokantiano, quando negou que era positivista. E eu estou de acordo com ele: não acho que ele tenha sido alguma vez positivista, e penso que ele é neokantiano.

      Mas Vc consegue uma proeza formidável: negar o que o próprio Popper pensa dele mesmo! É obra!

      3/ Como eu não posso — em boa verdade e como expliquei no meu comentário imediatamente anterior — dizer que Vc é burro ou imbecil (porque os burros e os imbecis sempre aprendem alguma coisa), terei que concluir que Vc tem um comportamento raciomórfico, semelhante a um comportamento racional que já se manifesta nos seres mais primitivos. Digamos que Vc é uma possibilidade de um burro; é um burro em estado latente.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 10:12 am | Responder

  5. Popper escreveu o livro com Eccles. São capítulos separados e Popper está em discordância com Eccles, tanto que ao final transcrevem um longo debate ocorrido entre eles. Você é um olavete bem burrinho! Afirmar que Popper resumiu as ideias de Eccles é mostrar jamais ter aberto o livro “O Eu e o seu Cérebro”. Popper não se define com um NEOkantiano. Mas como kantiano. Vai o bicho burro, comer alfafa junto com o Olavo de Carvalho!

    Gostar

    Comentar por Júlio Fontana — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 11:22 am | Responder

    • 1/ Eu acho que Eccles escreveu o livro COM Popper, mas Vc afirma o contrário. Não se trata aqui de uma questão de semântica: basta LER o que está escrito na capa do livro.

      De modo semelhante, Eccles escreveu o livro “Wie das Selbst sein Gehirn steuert” COM Friedrich Beck, e ambos também escrevem em capítulos separados; mas a autoria do livro é de Eccles, e não de Beck.

      Seria (trata-se de uma analogia, e não de uma comparação) como se Vc dissesse que “quem escreve um posfácio de um livro também é autor desse livro” — o que é absurdo.

      2/ O Neokantismo (ou Neocriticismo, que é a mesma coisa) é a designação global de uma corrente filosófica aparecida na Alemanha por volta de 1860, e que se apresenta como um “regresso a Kant” — tanto na corrente empirista (com Helmholtz), como na corrente da Escola de Marburgo (Hermann Cohen, P. Natorp, etc.).

      Esta corrente (o neokantismo) desenvolveu-se até cerca de 1920 e influenciou gente como Renouvier e Cassirer — para além de outros que também se assumiram como neokantianos, como por exemplo Eric Voegelin e Karl Popper.

      Ser neokantiano é assumir o “regresso a Kant”.

      3/ Ao verificar que Vc já reconheceu que Popper é um kantiano, já consigo objectivamente ter alguma esperança que Vc possa um dia vir a ser burro. Afinal nem tudo está perdido.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 12:04 pm | Responder

  6. Vê se Popper está aí analfa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Neokantismo. Popper se afirma um kantiano até se transferir para Londres. Depois nunca mais fez tal afirmação absurda. Popper não é um kantiano. Leia o livro do Hans Albert. Quanto ao livro “o Eu e o seu cérebro” o Eccles afirma no livro que não poderia dar uma contribuição filosófica como a de Popper, visto que, não sabe filosofia. Encerro por aqui. Vai lamber as bolas do Olavão!

    Gostar

    Comentar por Júlio Fontana — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 3:30 pm | Responder

    • 1/ Vc recorre à Wikipédia (ainda por cima, a Wikipédia em brasileiro!) para demonstrar que Karl Popper NÃO era neokantiano?! Wikipédia??!!!

      Vc é pior do que eu pensava. Muito pior. Para burro não lhe faltam as penas, porque Vc nunca será burro.

      Lembrei-me que talvez Vc seja uma espécie de carraça que atracou aqui no blogue. A carraça é um animal que dispõe de um vago sentido da luz: fica imóvel, em cima de uma árvore, à espera que passe gente. E como o único sinal químico que a carraça é capaz de registar é o ácido bórico, desde que não surja o cheiro a ácido búrico, ela deixa-se cair em cima das pessoas que passam.

      Mas vendo melhor o problema, essa hipótese (da carraça) peca por excesso, porque a carraça tem cérebro. Por isso, penso que Vc estará mais perto, na cadeia da evolução, de um fungo marítimo que se chama Porifera. Esse animal fica fixado, sem cérebro, a uma rocha, libertando, na reprodução, um pequeno ser vivo parecido com um peixe com cérebro. Este procura um bom lugar para se fixar, e de seguida come o seu próprio cérebro visto que já não precisa de se mudar. (ver : http://goo.gl/Hrs3LO )

      2/

      A ler:

      Neo-Positivist or Neo-Kantian? Karl Popper and the Vienna Circle
      http://goo.gl/46OfO8

      Neo-Kantian Origins of Modern Empiricism: On the Relation between Popper and the Vienna Circle
      http://goo.gl/m9MZP5

      E, finalmente: http://goo.gl/yzDs6Z

      3/

      Vc não comenta mais aqui.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 6:26 pm | Responder

  7. […] “Presunção e água benta, cada um toma a que quer”. Porém, o que é (ainda) mais difícil de compreender é o ódio de estimação que esses “filósofos” têm em relação a Olavo de Carvalho — como se pode verificar nos comentários insultuosos do senhor Filósofo Júlio Fontana feitos aqui. […]

    Gostar

    Pingback por Os “filósofos” brasileiros e o ódio a Olavo de Carvalho | perspectivas — Segunda-feira, 16 Setembro 2013 @ 7:33 pm | Responder

  8. Boa Tarde! Passo para agradecer pelo texto. Alguns conservadores conhecem primeiramente a Voegelin e só depois eles vem a conhecer Popper – meu caso -, e acabam até mesmo adiando indefinidamente uma leitura essencial como “A Lógica da Pesquisa Científica” (título em português brasileiro).
    Acredito que as palavras pesadas usadas nas correspondências muito se devem ao caráter informal destas e à proximidade entre ambos os pensadores. Voegelin certamente seria mais comedido e empenhado se fosse fazer a crítica com objetivo de publicação, mas enfim… faltavam pessoas que fizessem justiça a Karl Popper.
    Quando lemos “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, podemos ter aquela impressão do “termo fácil”, do clichê substituindo uma análise mais séria. Mas também vejo que, politicamente, mais vale como inspiração – para tantos conservadores – um Popper tropeçando no uso de certos conceitos que um Marx decididamente subvertendo conceitos com finalidades desonestas.
    Quando conheci as correspondências de Voegelin e Strauss fui tomado de um certo desapontamento, mas vejo espaços dignos para os 3 nomes no panteão dos grandes filósofos do Ocidente.

    Gostar

    Comentar por Elvis Trivelin — Segunda-feira, 17 Novembro 2014 @ 7:31 pm | Responder

  9. Pena que só tenha tomado conhecimento deste “debate”, agora em 2015. Pena, pois estudando toda a obra de Popper, desde 1977, muito teria para contribuir com aqueles que imaginam saber alguma coisa a respeito do SIR Karl R. Popper. E sabem muito pouco! Muitíssimo pouco mesmo!

    Já tenho muita coisa escrita a respeito desse “monstro da Epistemologia”. Se não publiquei, ainda, é por que, cada vez que o releio descubro sempre algo novo e genial, que me faz concluir que ainda não conheço suficientemente o seu pensamento, tendo em vista poder divulgá-lo da forma mais devida.

    Vejo coisas absurdas, conforme classificar Popper como um positivista (absurdo dos absurdos); ou mesmo como um “neopositivista” que seja. Esta última condição significa desconhecer que grande parte da vida intelectual de Popper foi caracterizada pela sua luta contra os “monstros sagrados”, principalmente da Física e da Filosofia, componentes do NEOPOSITIVISTA “Círculo de Viena”!

    Para mim, Kant havia sido o maior de todos… Até o surgimento de Popper, quando em sua obra “Conhecimento objetivo” conseguiu superá-lo, ao comentar, em termos muito próximos, sobre as tais ‘categorias a priori’ de Kant: “se era verdadeira a afirmação de Kant, que o Sujeito do conhecimento abordava o Objeto do conhecimento, através das suas ‘categorias a priori’; não se dava que o RESULTADO dessa abordagem também pudesse ser AFIRMADO como verdadeiro ‘a priori’; ou seja, antes de haver sido testado!”

    Para encerrar, reproduzo um trecho de escrito meu, sobre um Justo RECONHECIMENTO a Popper. Algo com o que Eric Voegelin jamais foi contemplado.

    No ano de 2006, JAMES GARVEY, Secretário do [i] Royal Institute of Philosophy [/i], na Inglaterra, escreveu um livro cujo título, na língua original, foi [i] The twenty greatest philosophy books. [/i] Foi traduzido para o português por ROGÉRIO BETTONI e publicado pela Edições Rosari, de S. Paulo, em 2009, sob o título: “Uma introdução [b] aos vinte melhores[/b] livros de filosofia” (o negrito é meu).

    Começa, no que vem a ser o capítulo1, com “A república”, de PLATÃO. O capítulo 2 cita e aborda a “Ética a Nicômaco”, de ARISTÓTELES. Por aí vai, até quando, no capítulo 16, cita e aborda a obra de POPPER, só que tendo o seu título traduzido, para a língua portuguesa, por BETTONI, como: “A lógica da [b]descoberta[/b] científica”.

    No entanto, é sempre bom lembrar que o título da mesma, nas edições em língua portuguesa, é: “A lógica da pesquisa científica”. Já, na língua espanhola, é: ”La lógica de la investigación científica”. E, essas duas palavras em negrito são as traduções corretas, para as respectivas línguas, da palavra “forschung” do título do original em alemão: ”Logik der forschung”.

    Por outro lado, “forschung” foi erradamente traduzida para a língua inglesa como “discovery”, quando deveria ter sido traduzida como “research”. Em virtude disso, o título, na língua inglesa passou a ser “The logic of scientific discovery”

    Talvez por ainda não ‘dominar’ suficientemente bem a língua inglesa, quando a tradução foi feita, POPPER não tenha constatado o erro absurdo. Depois, quando teve condições de avaliar melhor, talvez já fosse tarde e o mais conveniente seria deixar tudo como estava mesmo.

    O erro foi absurdo, pois jamais POPPER falaria em “lógica de descoberta”. Ele defendia justamente o contrário, quando afirmava, em palavras muito semelhantes, que:

    “um cientista poderia até dormir e sonhar com uma hipótese (“descoberta” a ser proposta como solução para um problema); o importante seria que esse cientista, ao acordar, submetesse a referida hipótese aos testes mais cruciais e ela resistisse aos mesmos, podendo, então, ser aceita como verdadeira, até prova em contrário (seria, assim, considerada “corroborada)”.

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Sexta-feira, 8 Maio 2015 @ 12:42 am | Responder

  10. Querendo, na medida do possível, ser breve, no comentário anterior, terminei omitindo o que: seguirá.

    A exigência de que o resultado da abordagem do Objeto do conhecimento, pelo Sujeito do conhecimento, tivesse que ser submetido a teste, antes de poder ser afirmado como verdadeiro, foi o que transformou Popper num ‘racionalista crítico’, diante do apenas ‘racionalismo’ de Kant.

    Por outro lado, a afirmação de que Kant teria inaugurado o ‘criticismo’ nada tem a ver com o ‘racionalismo crítico’ popperiano. Tal ‘criticismo’ se referia mais, pelo menos para mim, à visão que Kant defendia, a respeito do papel da Filosofia e do filósofo.

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Sexta-feira, 8 Maio 2015 @ 1:10 am | Responder

    • Dizer que “o criticismo de Karl Popper nada tem a ver com o criticismo de Kant” é semelhante a dizer que “o Cristianismo de Santo Agostinho nada tem a ver com Jesus Cristo”. É claro que existe uma evolução na continuidade; mas o princípios de que partem ambos são idênticos.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 8 Maio 2015 @ 10:07 am | Responder

  11. Olá, O. Braga, eu não havia escrito, conforme você registrou, que: “o criticismo de Karl Popper nada tem a ver com o criticismo de Kant”. O que escrevi, volte e releia, foi: “a afirmação de que Kant teria inaugurado o ‘criticismo’ nada tem a ver com o ‘racionalismo crítico’ popperiano”.

    E, insisto que, para mim, não tem mesmo. Tanto é assim que, enquanto Popper se percebeu e passou a ser percebido como um ‘racionalista crítico’, Kant continuou sendo apenas ‘racionalista’. Mais uma vez, para Popper, nas questões empíricas, a tal ‘crítica’ é sinônimo de ‘submissão ao teste’. Preocupação não demonstrada nem assumida por Kant, diante da condição de verdade relativa ao RESULTADO da abordagem do Objeto do conhecimento feita, pelo Sujeito do conhecimento, a partir de suas ‘categorias a priori’.

    Contudo, quanto ao ‘criticismo’, enquanto modo de conceber a Filosofia, a função do filósofo e, mais especificamente, a função do PENSAMENTO, era adotado tanto por Kant como por Popper. Lembremo-nos de uma das passagens de Popper, em “Sociedade aberta e seus inimigos”, evocando Kant e concordando com ele, quando Kant ia contra uma concepção de Platão, manifestada na “República”.

    A referida concepção era aquela segundo a qual, para Platão, “o filósofo deveria ser o rei”, pois era o ‘Ser’ mais preparado para realizar uma ABSTRAÇÃO,mais próxima da forma perfeita, relativamente à ideia de sociedade. E Kant discordava, justificando que o filósofo era essencialmente um ‘CRÍTICO’, não podendo, portanto, estar COMPROMETIDO com o Poder, já que isso eliminaria a sua ISENÇÃO para realizar a CRÍTICA!

    Apesar de conhecer as principais “críticas” (agora, no sentido não filosófico) feitas por alguns, principalmente historiadores, inclusive Eric Voegelin ( o que é fácil de entender), fiz questão de evocar a obra de Popper, “A sociedade aberta e seus inimigos”. Faço isso, para aproveitar e citar um, dentre os muitos trechos em que Popper responde a autores dessas críticas. (escreverei, entre aspas e sem fazer separação de parágrafos).

    “Admito que cometi alguns erros de fato: o Sr. H. N. Rodman, da Universidade de Harvard, disse-me que errei ao escrever ‘dois anos’ na terceira linha do pé da página 28 e que deveria ter escrito ‘quatro anos’. Disse-me também que, em sua opinião, há certo número de erros históricos — ainda que menos nítidos — no capítulo em que minhas atribuições a Hegel de motivos ulteriores são, a seu ver, historicamente injustificadas.Tais coisas são muitíssimo de lastimar, embora tenha acontecido a historiadores melhores do que eu. Mas a questão de real importância é esta: afetam esses erros minha avaliação da filosofia de Hegel e de sua desastrosa influência? Minha resposta à questão é: ‘não’. Foi sua filosofia que me levou a encarar Hegel como o faço e não sua biografia” (este trecho encontra-se na p.414, v.2, ed. de 1974 da editora Itatiaia).

    Muito provavelmente, a revolta dos historiadores diante dessa obra, foi devida ao ataque que, nela, Popper faz ao que designava como ‘método historicista’ acrescido de uma pergunta que faz, e ele mesmo responde. A pergunta foi: “tem significado a História?”. Então, Popper responde, demonstrando, que História é ‘interpretação’. E, para que tais interpretações (sempre, de início, hipóteses) sejam aceitas como “verdadeiras” também têm que resistir aos testes

    No entanto, esse ataque tinha como principal finalidade demonstrar que nada tinha de CIENTÍFICO, conforme pretendido por Marx, o socialismo que propunha (e que seria diferente de todos os propostos, até então, já que aqueles tinham sido apenas ‘utópicos’)

    Nada tinha de científico, justamente por que essa pretensa ‘cientificidade’ era buscada através do emprego de um método, ‘historicista’, que Popper provou muitíssimo bem ser um método INCAPAZ para produzir qualquer tipo de ‘conhecimento científico’.

    Para não me estender, não irei reproduzir, integralmente, o elogio que Bertrand Russel faz a essa obra de Popper e que, em termos conclusivos, Russel escreve: “interessantíssimo e magistralmente escrito”

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Sábado, 9 Maio 2015 @ 4:32 am | Responder

    • O que eu percebi é que você diz que “Karl Popper estaria mais preocupado com o experimentalismo científico do que Kant”; e que Karl Popper estaria situado em uma categoria de “racionalismo crítico” — que é, em princípio, um conceito auto-contraditório uma vez que o empirismo se opõe ao racionalismo.

      Contudo, é preciso ter em consideração que Kant viveu no século XVIII e Karl Popper no século XX. Não seria possível a Kant ter uma visão experimentalista da ciência, assim como não seria possível a Copérnico no século XV conceber que os planetas orbitavam em elipses e não em círculos — contudo, a essência do pensamento de Copérnico está em Kepler e em Galileu que apareceram mais tarde.

      Por exemplo, a lei da queda dos sólidos, de Galileu, não pode ser verificada (pela experiência) senão em 1654 quando foi concebida a bomba pneumática; antes de isso era apenas uma hipótese. Neste sentido, a lei da queda dos sólidos de Galileu foi um “juízo sintético a priori”.

      A mecânica de Newton foi resultado de um “juízo sintético a priori”, na medida em que foi um postulado — sujeito a contraditório científico e de acordo com o princípio de falsificabilidade de Karl Popper. O mesmo se passa com a teoria do Big Bang ou com a idade calculada do universo em 13,7 mil milhões anos-luz: são ambos postulados que são contraditáveis e podem ser alterados a qualquer momento.

      A ciência experimentalista sofreu uma brutal evolução a partir do século XIX, e portanto Kant não poderia ser outra coisa senão aquilo que foi. O que interessa saber em Kant e em Karl Popper é a essência da mundividência dos dois, e esta é semelhante. Karl Popper nunca colocou em causa o conceito de juízo sintético a priori de Kant: pelo contrário, elogiou Kant por este conceito.

      Nota: cuidado com os “elogios” de Bertrand Russell.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Sábado, 9 Maio 2015 @ 8:34 am | Responder

  12. O. Braga, você levantou várias questões para quais julgo importante apresentar minhas considerações. Como tais questões são em quantidade significativa, estou demorando um pouco mais a me manifestar. Contudo, penso que valerá muito à pena fazê-lo.

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Segunda-feira, 11 Maio 2015 @ 5:52 am | Responder

  13. Olá, O. Braga.
    você escreveu que eu teria afirmado : “que Karl Popper estaria mais preocupado com o experimentalismo científico do que Kant”.

    Depois você escreveu: “a lei da queda dos sólidos, de Galileu, não pode ser verificada (pela experiência) senão em 1654 quando foi concebida a bomba pneumática; antes de isso era apenas uma hipótese. Neste sentido, a lei da queda dos sólidos de Galileu foi um ‘juízo sintético a priori”.

    Logo em seguida, também escreveu: “A mecânica de Newton foi resultado de um “juízo sintético a priori”, na medida em que foi um postulado — sujeito a contraditório científico e de acordo com o princípio de falsificabilidade de Karl Popper “

    Em sua obra, ’A miséria do historicismo’, Popper discute basicamente a questão de propostas de possíveis métodos para as ciências sociais, e o método ‘historicista’ seriam um dos propostos. Tal discussão se dá, em grande parte, comparando esses possíveis métodos com o “MÉTODO EXPERIMENTAL da FÍSICA

    Diante disso, e diante das suas afirmações que evoquei, passo a reproduzir alguns trechos da obra de Popper. Começarei com partes da ‘Introdução’ e, quando sair da mesma, indicarei.

    “Com Galileu e Newton, a Física projetou-se para além das expectativas, de muito ultrapassando todas as outras ciências; e, a partir dos tempos de Pasteur, o Galileu da Biologia, as Ciências Biológicas têm alcançado quase que o mesmo êxito. Aparentemente, entretanto, até o momento, as Ciências sociais ainda não encontraram o seu Galileu” (e ainda não, afirmo eu, agora)

    E Popper continua.
    “Em tais circunstâncias, os estudiosos dedicados a uma ou outra das Ciências Sociais são levados a preocupar-se grandemente com problemas de método; e boa porção do debate em torno desses problemas é travada tendo-se em vista os métodos das ciências mais florescentes e, em especial, a Física. Deliberada tentativa de copiar o método EXPERIMENTAL (a caixa alta é minha) da Física foi, por exemplo, o que levou, na época de Wundt, a uma reforma da Psicologia; e, desde J.Stuart Mill (…) o método das Ciências Sociais. (…) Quando os fracassos foram debatidos, logo se propôs a questão de saber se os métodos da Física eram realmente aplicáveis às Ciências Sociais. Não seria a obstinada crença em sua aplicabilidade a circunstância responsável pela deplorada situação em que se encontram os estudos de caráter social? “(E, para mim, continua deplorável, com exceção para a Economia, como o próprio Popper ressalvara.)

    Continuando, ainda, Popper escreve.
    “A pergunta sugere uma classificação simples das escolas de pensamento interessadas nos métodos das ciências menos bem sucedidas. Segundo a maneira como se colocam diante da aplicabilidade dos MÉTODOS da FÍSICA (caixa alta minha), procede classificar essas escolas como ‘naturalísticas’ (favoráveis) e ‘antinaturalísticas’ (contrárias)”. (estes últimos parêntesis são meus).

    Mais adiante, referindo-se a qual das respectivas doutrinas aderir ou se a uma que as combine, Popper escreve.
    “(…) dependerá largamente das concepções que tenha acerca do caráter da ciência em exame e acerca de seu objeto. E a atitude que assuma estará também na dependência da maneira como veja os métodos da Física.”

    E, agora, continuando as citações, seguem trechos daquelas que julgo as mais importantes para a nossa discussão presente. Assim, tendo como referência o final da citação imediatamente anterior, relativa à atitude a ser assumida, Popper escreve.
    “Creio, aliás, que este último ponto seja o de maior importância. Julgo que os erros fundamentais possíveis de apontar na maioria dos debates relativos a questões metodológicas nascem de MAL-ENTENDIDOS (a caixa alta é minha) muito comuns a propósito dos métodos da Física. Julgo, em particular, que nascem de interpretar mal a forma lógica das teorias físicas, dos métodos de submetê-las a teste e da função lógica da EXPERIMENTAÇÃO e da OBSERVAÇÃO.” (as caixas altas são minhas)

    Aqui, encerro as citações da ‘Introdução’ de “A miséria do historicismo”

    Antes de continuar, quero ressaltar, diante das citações feitas, até aqui, que Popper nunca professou aquilo que ele certamente designaria como uma IDEOLOGIA do “experimentalismo científico”, conforme a expressão utilizada por você, reproduzida logo no início deste comentário.

    Tal tipo de ideologia seria aquela que considerasse o emprego da experimentação como condição necessária e SUFICIENTE para a construção de conhecimentos que pudessem ser considerados científicos. Nem Popper defendia a ‘experimentação’ como condição NECESSÁRIA para a produção de conhecimento científico; nem defendia que o seu emprego viesse a ser condição SUFICIENTE para tornar um conhecimento científico.(Para não cansar, continuo no comentário de nº 14)

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quinta-feira, 14 Maio 2015 @ 11:08 pm | Responder

  14. (continuação do nº 13)
    Todos sabemos, e Popper também, que na Astrofísica, por exemplo, enquanto ciência, não há necessidade da tal ‘experimentação’. Nela, é NECESSÁRIO que as PREVISÕES sejam FALSEÁVEIS. O que poderá ocorrer, apenas, através da OBSERVAÇÃO.

    Por outro lado, reconhece que a EXPERIMENTAÇÃO, por si só, não é condição SUFICIENTE para tornar um conhecimento científico. Não vou me aprofundar neste ponto, pois traria a discussão para a questão do que seria um “cientista normal” (Thomas Kuhn; cientista secundário, para Collingwood e, para mim, técnico de nível superior ou, no máximo, tecnólogo) e “cientista, de fato, que para Popper, com quem concordo, seria o “revolucionário” (por razões que não pretendo expor, pelo menos neste comentário).

    Agora, quanto à questão levantada por você sobre os tais “‘juízos sintéticos a priori” que, inclusive, nos remeterá a outras questões, também levantadas por você, voltarei à “A Miséria do historicismo”, na seção 29, intitulada “Unidade de método”.

    Ali, numa longa nota de nº 2, dentre outras coisas, Popper escreve os trechos que virão a seguir.
    “A distinção aqui traçada, entre ‘detutivismo’ e ‘indutivismo’, corresponde, sob alguns aspectos, à clássica distinção que se traça entre ‘racionalismo’ e ‘empirismo’: Descartes foi dedutivista, concebendo todas as ciências como sistemas dedutivos; os empiristas ingleses, a partir de Bacon, concebiam as ciências em termos de coletas de observações, a partir das quais as generalizações seriam obtidas, por meio da indução.”

    Continuando…
    “Descartes acreditava, porém, que os princípios, as premissas dos sistemas dedutivos, deviam ser ‘seguras e autoevidentes’ — ‘claras e distintas’. Esses princípios assentam-se em discernimento da razão. (São ‘sintéticos e ‘a priori’ válidos, na terminologia de Kant). Opondo-me a isso, vejo os princípios como conjecturas provisórias, isto é, como hipóteses.”

    Mais adiante, Popper, que é um ‘dedutivista’, depois de ressaltar que também o eram, Henri Poincaré e Pierre Duhen (que, inclusive, Popper considerava os “dois maiores dedutivistas modernos”) diz divergir dos mesmos. Isso, em alguns aspectos, embora concordando noutros. Conforme citarei a seguir.

    “Concordo plenamente com os dois autores, rejeitando o indutivismo e a crença na validade sintética e ‘a priori’ das teorias físicas. Mas NÃO POSSO acolher a ideia de que É IMPOSSÍVEL SUBMETER SISTEMAS TEORÉTICOS A TESTES EMPÍRICOS (as caixas altas são minhas). penso que alguns sistemas teoréticos são passíveis de teste, isto é, são, em princípio, refutáveis. Assim, são ‘sintéticos’ (e não ‘analíticos’), ‘empíricos’ (e não ‘apriorísticos) e ‘informativos’ (e não simplesmente ‘instrumentais’)”

    Aqui, encerro as citações dos textos de Popper, esclarecendo que a seção nº 29, da “A Miséria do historicismo” foi baseada na “A lógica da pesquisa científica”.

    Braga, você me recordou que eu teria escrito que: “ Karl Popper estaria situado em uma categoria de racionalismo crítico”. Depois afirmou, em relação a esse ‘racionalismo crítico’: “que é, em princípio, um conceito autocontraditório uma vez que o empirismo se opõe ao racionalismo”.

    Não há a menor dúvida a respeito. Inclusive, no próprio “dicionário Oxford de filosofia” (edição brasileira de 1997) lê-se, relativamente ao ‘empirismo’, em determinado trecho:
    “Pode assumir a forma da negação da existência de qualquer conhecimento ‘a priori’, ou do conhecimento de verdades necessárias, ou de qualquer conhecimento inato ou intuitivo, ou de princípios gerais que adquiram credibilidade unicamente pelo uso da razão; opõe-se assim, sobretudo, ao racionalismo.” (continua e finda no comentário de nº15, a seguir)

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quinta-feira, 14 Maio 2015 @ 11:19 pm | Responder

  15. (continuação do nº 14; e é o ultimo)

    Sobre isso, numa das citações que fiz, aqui, de Popper , o mesmo se refere a uma “clássica distinção que se traça entre racionalismo e empirismo”. Assim, embora reconhecendo a existência dessa clássica distinção (e eu também) ele sempre afirmou que tal tipo de ‘racionalismo’ não é o ‘CRÍTICO’.

    E, por que não? Por que, para Popper (e para mim também), o que caracteriza a racionalidade NÃO É o fato de possuirmos um pontinho lá no cérebro, para o qual se possa apontar e dizer: eis aqui a sede da “razão”! E, é daqui que emanam todas as manifestações caracterizadoras duma tal “racionalidade”!

    NÃO ! Para Popper, (e para mim também), o que caracteriza a RACIONALIDADE: é a capacidade do Sujeito que constrói um conhecimento realizar a CRÍTICA, com base, não apenas em argumentos válidos, mas também nos fatos que possam ser experimentados, portanto empíricos (inclusive experimentados através de observações). Então, para Popper(e para mim também) essa parcela da crítica, com base nos ‘fatos’, é feita através de TESTES.

    Para encerrar, lembro que você escreveu(e eu reproduzi, no início deste comentário: ““a lei da queda dos sólidos, de Galileu, não pôde ser verificada (pela experiência) senão em 1654 quando foi concebida a bomba pneumática; antes de isso era apenas uma hipótese. Neste sentido, a lei da queda dos sólidos de Galileu foi um ‘juízo sintético a priori”.

    Sim, mas enquanto não pôde ser submetida a teste, era apenas uma especulação (hipótese não testada, já que era a respeito do mundo “experienciável”). Portanto, na classificação de Popper, era apenas metafísica (critério de DEMARCAÇÃO que Popper “batizou” de “o problema de Kant”).

    Para Irme Lakatos, que se julgava um “falseacionista sofisticado”, enquanto classificava Popper, de quem fora seguidor, como “falseacionista metodológico”: se hipóteses do tipo abordado, embora não testáveis, fossem PROMISSORAS, elas deveriam ser incluídas em “Programas de Pesquisa Científica”, até que essa submissão a testes fosse possível.

    Popper até concordava com isso. Apenas, considerando que as hipóteses eram metafísicas, propunha, ao contrário de Lakatos, que tais Programas fossem designados como: “Programas Metafísicos de Pesquisa”.

    Agora, para encerrar mesmo! Você escreveu: “a lei da queda dos sólido, de Galileu, não pôde ser VERIFICADA ( a caixa alta é minha) (pela experiência). Voltei a este ponto, embora imagine que você saiba a respeito, que VERIFICAÇÃO foi um conceito que gerou o maior debate entre Popper e os representantes do “Círculo de Viena”. Debate do qual Popper saiu vencedor, PROVANDO que a tal de VERIFICAÇÃO era IMPOSSÍVEL.

    O que se podia fazer era tentar mostrar, através de testes, se uma determinada hipótese era FALSA ou não, desde que fosse “falseável”, é claro! Se não fosse “falseável” deveria ser considerada “metafísica”; portanto, “não científica” (e por aí vai…)

    Observação importante, a seguir
    Muita gente pensa que ser “falseável” é condição SUFICIENTE para uma hipótese ser aceita como científica. Não, não é! Vem a ser suficiente, apenas, para não ser considerada, logo de início, uma hipótese “metafísica”. Poderá ser considerada científica, apenas depois de ter RESISTIDO aos testes mais cruciais.

    Nota:
    Percebi que a grafia de alguns termos utilizados por mim, está diferente da utilizada em Portugal. Isso, apesar do “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em 16 de dezembro de 1990, em Lisboa, por Portugal, Brasil, Angola, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e, posteriormente, por Timor Leste e ratificado pelo Brasil em 2004. Por outro lado, pelo que sei, em Portugal há uma certa resistência para adotar a nova ortografia (mas, claro que isso não impede a comunicação).

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quinta-feira, 14 Maio 2015 @ 11:39 pm | Responder

  16. 1/

    Hoje está na moda dizer que as ciências sociais são exactas, o que é um absurdo. E dizem isso principalmente na Esquerda, porque a maioria dos antropólogos, sociólogos, etc., são de esquerda, e uma das características da Esquerda é uma visão determinística (naturalismo) em relação ao ser humano; o ser humano é concebido como um fenómeno natural como qualquer outro (excepto os intelectuais de esquerda que se consideram a si mesmos como uma casta à parte das massas) sujeito a leis naturais que não lhe dão espaço a qualquer livre-arbítrio.

    2/

    Eu utilizei o termo “experimentalismo” em contraponto ao termo “experiência”, sendo que este último termo pode ter uma conotação vulgar de “experiência subjectiva”. O “experimentalismo” é próprio da ciência e é objectivo.

    Eu não disse que “Karl Popper defendia qualquer ideologia experimentalista”; o que eu disse, pelo contrário, é que Karl Popper seguiu Kant no que diz respeito à adopção do conceito de “juízo sintético a priori”; ou seja, nem Kant nem Karl Popper foram pitagóricos porque eram formalmente cépticos em relação à metafísica, mas reconheceram ambos o valor dos pitagóricos (como Galileu e Newton foram pitagóricos).

    3/

    “Observação”, em ciência, ou em epistemologia, é a actividade que consiste em examinar os factos unicamente com os nossos sentidos, e/ou com o auxílio de instrumentos especializados.

    “Experimentalismo”, ou “experimentação”, em ciência, é o conjunto dos meios e procedimentos de controlo destinados a “verificar” uma hipótese ou uma teoria — sendo que “verificação” é o processo que permite estabelecer a verdade de uma proposição.

    A “verificação” pode ser “demonstrativa” se pertence a ordem do cálculo (por exemplo, matemática). Nas ciências empíricas, é discutível falar de “verificação”. Karl Popper demonstrou que se pode estabelecer experimentalmente a falsidade de uma hipótese, embora não seja possível estabelecer a sua verdade (falsificabilidade).

    O que eu pretendo dizer é que “observação” e “experimentação”, se se considera que não são a mesma coisa, são pelo menos complementares — fazem pelo menos parte do mesmo processo de conhecimento científico. A observação é um modo (é uma forma de) de experimentação. Quando observamos, experimentamos de forma intersubjectiva (e não meramente subjectiva).

    4/

    Um “juízo sintético a priori” aquele que é formado independentemente de qualquer experiência e por uma espécie de intuição intelectual obrigatória.

    “Juízo sintético a posteriori” que é aquele juízo que resume uma experiência científica ou empírica.

    Chama-se “indução” ao argumento em que se as premissas forem verdadeiras, isto é, tiverem valor lógico de verdade, a conclusão não é necessariamente verdadeira, mas apenas provavelmente verdadeira.

    Exemplo:

    «O calor dilata o ferro. O calor dilata o cobre. O calor dilata o estanho. O ferro, o cobre e o estanho são metais. Logo, todos os metais dilatam sob a acção do calor.»

    O facto de se aceitar que: o calor dilata o ferro, o estanho e o cobre; e que o ferro, o estanho e o cobre sejam metais, não implica que seja verdade que «Todos os metais dilatam sob a acção do calor», a verdade desta afirmação é uma probabilidade ou possibilidade.

    Chama-se “dedução” ao tipo de argumento em que se as premissas tiverem valor lógico de verdade, isto é, se estão de acordo com a realidade, a conclusão é necessariamente verdadeira.

    Exemplo:

    «Todos os homens são mortais. José é homem. Logo, José é mortal.»

    É logicamente impossível não admitir que “José é mortal”, se admitirmos como verdadeiras as proposições «Todos os homens são mortais» e José é homem.

    5/

    As definições acima são úteis para nos situarmos precisamente no contexto.

    Não podemos confundir o tipo de indutivismo especulativo de Descartes com o tipo de indutivismo lógico de Newton e Galileu. Por exemplo, o indutivismo de Descartes da teoria do Homem-Máquina (no seguimento de Hobbes) não se baseou na observação, por um lado, e por outro lado não se baseou nas ciências formais — ao passo que o indutivismo de Galileu e de Newton baseou-se na observação (que é uma forma de experimentação) e nas ciências formais (matemática).

    Penso que não é adequado misturar Descartes e Newton.

    6/

    “As nossas teorias científicas, por melhor comprovadas e fundamentadas que sejam, não passam de conjecturas, de hipóteses bem sucedidas, e estão condenadas a permanecerem para sempre conjecturas ou hipóteses” – Karl Popper, em conferência proferida em 8 de Junho de 1979 no Salão Nobre da Universidade de Frankfurt , por ocasião da atribuição do grau de Doctor Honoris Causa.

    Kant escreveu o seguinte, no século XVIII, no prefácio dos “Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza”:

    “(…) a ciência da natureza chamar-se-ia “genuína” ou “imprópria” ciência da natureza: a primeira trata o seu objecto totalmente segundo princípios a priori; a segunda, de acordo com as leis de experiência.

    Ciência genuína só pode chamar-se aquela cuja certeza é apodíctica: o conhecimento, que unicamente pode conter certeza empírica, só impropriamente se pode chamar saber.

    (…)

    Mas se, por fim, estas razões ou princípios são nela apenas empíricos, como por exemplo, na química, e se as leis, em virtude das quais se explicam, mediante a razão, os factos dados, são simplesmente leis de experiência, não comportam então nenhuma consciência da sua necessidade (não são apodicticamente certas) e, por isso, a totalidade não merece, em sentido estrito, o nome de ciência; pelo que a química se devia chamar antes de arte sistemática, e não ciência.”

    “O entendimento cria as suas leis (as leis da natureza), não a partir da natureza, mas impõe-lhe-as.” — Kant, Crítica da Razão Pura.

    Kant e Karl Popper dizem a mesma coisa por palavras diferentes. Foi isto que eu quis dizer desde o primeiro comentário aqui.

    7/

    Não devemos confundir “racionalismo”, por um lado, com “racionalidade”, por outro lado. A racionalidade é crítica por definição.

    8/

    Em última análise, nem sequer o conceito de verificação segundo Karl Popper é correcto, porque toda a verificação se fundamenta na metafísica.

    A ciência afirma o seguinte: “o critério da significação é a verificação”. Isto significa que, segundo a ciência, tudo aquilo que não é passível de ser verificado não tem significado — tudo isso é considerado pela ciência como uma “falsa questão”, uma proposição ou questão sem sentido decorrente de uma “armadilha da linguagem”.

    Porém, esta proposição (“o critério da significação é a verificação”) não é, ela própria, verificável !Isto significa que a ciência parte de um dogma que separa o seu fundamento na metafísica.

    Quando você diz que, segundo Karl Popper, a falsificabilidade só é suficiente se não for considerada, logo de início, uma hipótese metafísica (foi isto que eu compreendi), a verdade é que uma hipótese considerada hoje como sendo “metafísica”, pode ser uma teoria científica amanhã.

    Gostar

    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 15 Maio 2015 @ 10:32 am | Responder

  17. Olá, Braga, demorei a responder, porque não estava encontrando tempo para tal. Vou, agora, começar a lhe responder, tendo como referência cada um dos blocos nos quais você organizou os seus. Apenas acrescentarei a letra “R” após o nº que você atribuiu ao seu caracterizar que é a minha resposta

    1R (minha resposta)
    Você começou escrevendo que: “Hoje está na moda dizer que as ciências sociais são exactas, o que é um absurdo.”

    Depois, continuando, escreveu: “E dizem isso principalmente na Esquerda, porque a maioria dos antropólogos, sociólogos, etc., são de esquerda, e uma das características da Esquerda é uma visão determinística (naturalismo) em relação ao ser humano”

    Pretendo demonstrar que essa designação de “exacta”, para somente algumas ciências, tem um caráter mais DIDÁTICO, apenas. Não sou de esquerda e defendo que: todo conhecimento que pretenda ser científico deve ser exato; caso contrário não será científico.

    Por outro lado, vou apresentar, rapidamente, uma visão “popperiana” do “determinismo científico”. Farei isso, reproduzindo, aqui, parte de um escrito meu, até bastante longo ( para o que, desde já, peço desculpas).

    Esse escrito, do ano de 2008, teve como origem uma solicitação, através da Internet, vinda de um estado brasileiro (Pará), bem distante do meu (Rio de Janeiro). Enviei-o por e-mail para uma pessoa que pretendia fazer uma monografia sobre Popper. Até hoje, pelo menos, não tive notícias se a pessoa solicitante reproduziu, na íntegra, o meu escrito, em sua monografia. (mas isso não é o importante)

    A seguir a reprodução de grande parte do meu escrito

    De toda obra de Popper, que é muito vasta, considero o seu escrito mais importante e mais fundamental “A lógica da pesquisa científica”, pois aí se encontra a base de todo o seu trabalho futuro. Principalmente, se incluirmos os “Pós-escritos à lógica da pesquisa científica” . Esses documentos foram escritos por Popper entre 1951 e 1956, portanto cerca de 20 anos após a publicação do original, em alemão, em 1934, do “Logik der forschung” ( “A lógica da pesquisa científica”). Eles tiveram a finalidade de corrigir, aumentar e desenvolver as idéias da obra original. Apareceram, primeiramente, como uma série de “apêndices”, na versão, para o inglês, em 1959, do original de 1934, como “The logic of scientific discovery” [sendo esse termo “discovery” (descoberta) uma versão completamente errada de “forschung” (pesquisa ou investigação)].

    Depois, esses “Pós-escritos” foram organizados, em 3 volumes, por W. W. Bartley, e publicados em 1983. Os volumes e seus respectivos títulos, na língua portuguesa, de Portugal, foram os que seguem:
    Vol. I — “O realismo e o objectivo da ciência”; (é com “c” mesmo)
    Vol. II — “O universo aberto: argumentos a favor do indeterminismo”; e
    Vol. III — “ A teoria dos Quanta e o Cisma em Física”

    E, é nesse Vol. II, que Popper fundamenta uma das diferenças que poucos são capazes de se dar conta de que “exista”. Passo-a para você, pedindo que não a divulgue. Guarde-a, assim como a outras que irei, no momento oportuno, repassar-lhe, para utilizar, apenas em debates, quando necessário, como o seu “pulo do gato”. Trata-se da diferença entre “determinismo causal científico” e “determinismo metafísico”. Assim, enquanto sustenta que as teorias científicas têm de ser “deterministas causais”; ou, no caso contrário, não são científicas, demonstra que não se pode afirmar nenhum “determinismo metafísico” . Isto é: afirmar-se que o mundo, como um todo, seja determinado. Contrariamente, até, defende que, sob o ponto de vista metafísico, justamente só é sustentável o “indeterminismo”.

    Expressando-me, de forma resumida e, noutros termos, Popper defende que, pela circunstância das teorias dignas de serem classificadas como científicas terem de ser “deterministas causais” não implica aquele “determinismo metafísico” (ou seja, que o mundo como um todo seja determinado). Isso vale, mesmo considerando que as teorias, tanto da Física clássica como da Física Quântica, sejam “deterministas”. Portanto, concluindo: a circunstância das teorias científicas serem “deterministas” não garante a “generalização”, através de “inferência indutiva”, de que o “mundo seja determinado” (determinismo metafísico).

    Então, o que caracterizaria o “determinismo causal científico”? O mesmo seria caracterizado por uma “explicação determinista causal” para um certo “fenômeno” considerado. Este tipo de “explicação” é o único que nos permite “deduzir predições”. Se assim não for, a “explicar” não é “explicar”, no sentido científico do termo. É apenas “justificar” ( o que se dá, sempre, a posteriori do ocorrido). E, como diria Popper, tudo sempre se pode, de alguma forma qualquer, justificar). É, pois, o que Popper classifica como o “justificacionismo” , de caráter metafísico.

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quarta-feira, 3 Junho 2015 @ 1:56 am | Responder

    • 1/ Eu não falei em “determinismo metafísico”; referi-me à “lei da causalidade”.

      http://sofos.wikidot.com/causalidade

      2/ não vejo, no seu comentário, qualquer explicação para o facto de alegadamente “todas as ciências serem exactas”.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 3 Junho 2015 @ 5:00 am | Responder

  18. Sobre Método científico, sabe-se que, para Popper, vem a ser, em essência, o mesmo e único, para toda e qualquer ciência, inclusive a social “elaborar e testar hipóteses”. Por outro lado, dentre os epistemólogos, igualmente de “bastante peso”, também defendem a “unicidade” do método científico Ernest Nagel ( 1901-1985 ); e Mario Bunge (1919 – ). Assim, reproduzo, a seguir, duas citações contidas na minha tese de 1987. Uma delas é relativa a um trecho de Nagel (1979) (nota de rodapé 1), (parenteses acrescentado agora, 02/06/2015, já que não tenho como escrever um nº índice, aqui, o que também ocorrerá com as notas 2 e 3)

    “Devo esclarecer, preliminarmente, que o vocábulo “método” não é sinônimo do vocábulo “técnica”. (…) As técnicas, via de regra, variam de acordo com o assunto de que se trata e podem alterar-se rapidamente com o progresso tecnológico. De outro lado, todas as ciências empregam um método comum em suas investigações, na medida em que utilizam os mesmos princípios de avaliação da evidência; os mesmos cânones para julgar da adequação das explicações propostas e os mesmos critérios para selecionar uma dentre várias hipóteses. (p.19)” ( o negrito é meu; não existindo, portanto, no trecho original) (acrescento, hoje, 02/06/2015 que não sei como produzir, no seu blog, negritos, itálicos, recuos de parágrafos etc. por isso, não o faço, o que, de facto, prejudica a apresentação)

    Posição semelhante, você encontra em Bunge (1974)(nota de rodapé 2) .

    “Hoje em dia as diferenças metodológicas entre as ciências de fatos não existem: as diferenças são de objetos e de técnicas, não de método nem de finalidade.” (p.231) (o negrito também é meu, para chamar sua atenção)

    A seguir, reproduzo outro trecho de outro autor, que não constou da minha tese. É de Nérici (1989) (nota de rodapé 3)

    “A palavra ‘método’ vem do latim, methodus, que, por sua vez, tem origem no grego, das palavras meta (meta = meta) e hodus (hodus = caminho). Logo, método quer dizer caminho para se chegar a determinado lugar. (…)

    A palavra ‘técnica’ é a substantivação do adjetivo ‘técnico’, cuja origem, por intermédio do grego, está na palavra technicu, e, por via do latim, na palavra technicus, que quer dizer ‘relativo à arte ou conjunto de processos de uma arte ou de uma fabricação’. Simplificando, ‘técnica’ quer dizer como fazer algo. (…)

    Assim, método indica o caminho e técnica mostra como percorrê-lo.” (p.53)

    (Separei o texto em 3 blocos distintos para ressaltar; mas todo esse texto se encontra na mesma página 53).

    (No escrito original, aqui saíram publicadas as notas de rodapé, que agora acrescento, ao final desta postagem de nº 18)

    Resumindo e juntando tudo o que foi escrito a respeito de método e técnica, tem-se: ‘Método’ é o que fazer para atingir um determinado fim (em ciência, elaborar e testar hipótese, tendo em vista construir conhecimento rigoroso, episteme, e não um conhecimento do tipo que represente apenas uma doxa, opinião ). ‘Técnica’ é como fazer isso? Portanto, a ‘técnica’ é como abordar o objeto de estudo de uma ciência qualquer, tendo em vista elaborar e testar hipóteses. Assim, o que varia é apenas a ‘técnica’.

    Agora, irei reproduzir, e depois comentar, um trecho do e-mail que você me enviou, logo após a conversa com a sua Orientadora.

    “(…) a problemática do trabalho é após exposição da tese de unidade de método entre as ciências naturais e sociais por Karl Popper, analisar as implicações dessa unidade de método, ou seja, do método hipotético-dedutivo nas ciências sociais, nas ações humanas. Discutir se é possível aplicar esse método nas ações humanas, isso implicaria afirmar que podemos estabelecer uma comparação entre fenômenos naturais com as ações humanas? E se a ciência no campo da natureza busca através do método científico fazer previsões, isso seria possível também no campo das ações humanas, é possível prever as ações humanas?”

    Na ‘nota de rodapé’ de nº 1, citei um livro que considero excelente e fundamental: o organizado por SYDNEY MORGENBESSER. O mesmo reúne 17 Conferências apresentadas, em sua maioria, pelos mais renomados e respeitados filósofos da ciência como, por exemplo, ERNEST NAGEL, citado na nota em questão. Inclusive, essa citação é parte da resposta ao trecho do seu e-mail que versa sobre a “unidade de método” . A outra parte da resposta a essa mesma questão está na “nota de rodapé” de nº 2.

    Ainda nesse livro, encontra-se uma Conferência do respeitadíssimo CARL HEMPEL sobre o que vêm a ser, de fato, as ‘explicações Científicas’ (a abordagem dele a respeito desse assunto é uma das consideradas ‘referência’, no meio epistemológico). Então, de forma resumida, e nas minhas próprias palavras, digo-lhe que HEMPEL demonstra, ali, que toda a ‘explicação’, inclusive a do ‘senso comum’, é deduzida de ‘leis’ (lembro que essas vêm a ser hipóteses acerca de ‘supostas’ regularidades).

    Nota 1 NAGEL, E. Ciência ; natureza e objetivo. In: SIDNEY, M. (Org.). Filosofia da ciência. 3.ed.
    São Paulo: Cultrix, 1979.

    Nota 2 BUNGE, M. Teoria e realidade. São Paulo: Perspectiva, 1974.

    Nota 3 NÉRICI, I. G. Metodologia do ensino: uma introdução. 3. Ed. São Paulo: Atlas, 1989

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quarta-feira, 3 Junho 2015 @ 2:50 am | Responder

    • 1/ não vejo, no seu comentário, qualquer explicação para o facto de alegadamente “todas as ciências serem exactas ou não-exactas”.

      2/ se você invoca o positivismo (Nagel, Hempel) para justificar a possibilidade de o ser humano, como objecto de estudo, ser comparável a qualquer outro fenómeno natural, isso não tem nada a ver com Karl Popper.

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 3 Junho 2015 @ 5:12 am | Responder

  19. Apenas, as tais ‘leis’ às quais o ‘senso comum’ recorre não passam de ‘generalizações apressadas’, contrariamente àquelas que o conhecimento científico recorre (que têm de ser, conforme Popper, submetidas, indiretamente, aos mais cruciais testes de tentativas de ‘falseamento’, antes de serem aceitas como ‘Leis’)(Nota de rodapé 4) . Inclusive, no texto, HEMPEL lembra que o filósofo da linguagem GYLBERT RYLE designava como ‘sentenças semelhantes-a-leis’ essas ‘generalizações apressadas’ utilizadas pelo ‘senso comum’ para produzir ‘explicações’.

    Outra Conferência importante é a de MAX BLACK: ‘Justificação da Indução’. Nela, o autor demonstra que falharam todas as tentativas de tentar ‘justificar’ o emprego das ‘inferências indutivas’ na construção de ‘conhecimentos científicos’. Inclusive, de modo bem interessante, chama atenção para uma circunstância importantíssima, conforme no trecho que reproduzo a seguir:

    ‘A longa história do tema atesta que quase todos os que atacaram a questão tinham em mente os critérios de raciocínio dedutivo: ainda que sejam bastante diferentes as tentativas de justificar a indução, todas admitem que o único modo respeitável de raciocinar, o único método ‘estrito’ é aquele em que a conclusão decorre das premissas com necessidade lógica.’ (pp. 229-230).

    Ou seja, tentam justificar o ‘raciocínio indutivo’, recorrendo ao emprego do ‘raciocínio dedutivo’. Então, depois de levantar e apresentar os principais fracassos, Max Black termina por concluir que: ‘(…) a sábia decisão é a de reconhecer que uma justificativa geral para a indução, nos moldes em que os filósofos da ciência a concebiam, nem é possível nem necessária.’ (p.230)

    A Conferência decisiva para a sua “problemática” parece-me ser a de MICHAEL SCRIVEN: “Um traço essencialmente impredizível do comportamento humano”. Isto porque, num determinado trecho daquele seu e-mail, você escreve: E se a ciência no campo da natureza busca através do método científico fazer previsões, isso seria possível também no campo das ações humanas, é possível prever as ações humanas? Então, considero possível encontrar uma resposta para a sua pergunta nesta Conferência. Embora considere que a forma de escrever do autor da mesma não seja muito fácil e clara, tentarei resumir o que defendeu, e que, aliás, me parece óbvio.

    Inclusive, o autor cita Popper ( sem especificar a obra), mas o que ele diz está basicamente em: ‘A miséria do historicismo’; e ‘O universo aberto’), quando Popper se refere ao tal ‘demônio de La Place’. Isso acontece para lembrar que mesmo o ‘determinismo físico’ não implica a ‘predizibilidade-em-princípio’ de todos os sistemas (como imaginava La Place). Deve-se recordar que a possibilidade de ‘prever’, depende da existência daquelas tais ‘leis’, já conhecidas/’descobertas’ e das informações (caracterizadoras das ‘condições iniciais’ ) que se tenha a respeito do sistema (físico, humano, social, etc.) em relação ao qual será feita a previsão.

    Outra questão que não deve ser confundida, e que o realizador da Conferência abordada levanta, é sobre a ‘possibilidade do Ser humano contrariar as previsões a seu respeito, se delas tomar conhecimento’. É claro que isso é possível, e comum de ocorrer (seria uma “tendência a se comportar, preferencialmente, de forma “contrapreditiva?). No entanto, o que se costuma esquecer é que o Ser humano também pode contrariar previsões feitas a respeito do ‘comportamento’ de sistemas estudados pela Física. Assim, o que vem a ser a possibilidade de se construir aviões, se não o emprego do conhecimento a respeito do ‘princípio de Arquimedes’ para contrariar a previsão da queda de um corpo, em virtude da ‘lei’ de atração de Newton.
    (FIM da REPRODUÇÃO)

    Temas que seriam fundamentais para completar esse escrito, levando em conta argumentos e posições de Popper seriam sobre: “determinismo X determinismo probabilístico X indeterminismo, na ciência” (e como Popper destruiu o argumento de Heisenberg, na pretensão deste último de sustentar um suposto ‘indeterminismo científico’, com base no seu “princípio da incerteza”)

    Também teria sido fundamental ter-se escrito a respeito do conceito popperiano de “universalidade estrita” e “universalidade numérica”, para justificar, por exemplo, a exigência de ‘leis’ que tenham validade para todos os Seres humanos, tendo em vista a possibilidade de existir o que seriam as tais de ‘Ciências Humanas’.

    Sem contar que ainda falta responder aos seus outros tópicos.

    Nota de rodapé 4 – É bom lembrar que Hempel é, basicamente, um seguidor de Popper e outro autor, no caso brasileiro, seguidor de Popper, Leônidas Hegenberg, escreveu ‘Explicações científicas’

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quarta-feira, 3 Junho 2015 @ 3:30 am | Responder

    • Você deveria criar um blogue, para que a discussão fosse mais profícua, porque é muito difícil discutir em comentários.

      Por exemplo, pelo facto de existir hipoteticamente uma lei que abranja (comum a) todos os seres humanos, não significa que os seres humanos sejam regidos por leis baseadas no princípio da causalidade.

      Afirmar que “existem leis determinísticas que regem os seres humanos”, é tautológico, porque quem afirmou isso é um ser humano.

      Afirmar que “todas as ciências são exactas”, ou que “não há distinção entre ciências exactas e não-exactas”, é um erro do cientismo politicamente correcto.

      Podemos distinguir três tipos de ciências:

      1/ as ciências experimentais ou empíricas. Referem-se a um dado objecto na experiência e validam-se através de controlos experimentais;

      2/ as ciências formais. São a matemática e a lógica, baseadas na dedução a partir de axiomas ou postulados. Nesta área não há qualquer necessidade de verificação experimental. Podemos até discutir aqui o nome de “ciência”, visto que, sendo puramente formais, a matemática e a lógica não têm objecto exterior à sua construção.

      3/ as ciências humanas, ou ciências sociais (História, sociologia, psicologia, economia, etc.). O seu estatuto é bastante controverso.

      Ou consideramos, como o positivismo faz, que, se merecem o nome de “ciências”, podemos aplicar-lhe os métodos e a linguagem da ciência experimental: reduzem-se, então, a um caso especial da ciência experimental, ao lado das ciências da natureza;

      ou pensamos, pelo contrário, como por exemplo o filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833 – 1911), que há motivos para distinguir entre “ciências da natureza” e “ciências do espírito” e, portanto, em virtude da particularidade do seu objecto (o ser humano), as ciências humanas ou sociais dependem de um outro tipo de processo, fundado não sobre a verificação experimental, mas sobre a interpretação das intenções humanas (hermenêutica).

      Gostar

      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 3 Junho 2015 @ 5:50 am | Responder

  20. Pois é, O.Braga, tenho evitado o “blog”, por falta de tempo para alimentá-lo, permanentemente. Muito embora já possua muita coisa escrita que possa ser publicada. Aliás, tenho um “blog” sobre “Epistemologia da Psicologia”, que terminei deixando de lado, exatamente por não ter podido me dedicar mais intensamente ao mesmo.

    Para não ficar muito tempo sem escrever, aqui, farei uma participação rápida, respondendo a algumas das suas ponderações mais recentes, por requererem uma participação mais rápida. Quando possível, retornarei para responder aos seus comentários realizados no tópico de nº 16.

    Você escreveu: “(…) pelo facto de existir hipoteticamente uma lei que abranja (comum a) todos os seres humanos, não significa que os seres humanos sejam regidos por leis baseadas no princípio da causalidade.”

    Para Popper, com quem concordo, o tal ‘princípio da causalidade’ não é científico. É sim, ‘metafísico’, pois defende que tudo que ocorre, no universo, tem uma causa O que ele argumenta, e eu concordo, é que, por uma questão de ‘decisão metodológica’, as teorias científicas TÊM de ser ‘deterministas causais’, pois somente sob tais circunstâncias será possível, com as mesmas, fazer-se ‘previsões’ ( que são lógicas, diferentemente das ‘profecias’, que são expectativas e, portanto, psicológicas, sem garantia, assim, de que venham a ocorrer).

    Não se deve esquecer que, para Popper, “Metodologia científica” é um conjunto de ‘regras lógicas’, NECESSÁRIAS para a construção de ‘conhecimentos científicos’.

    Depois você escreveu: “Afirmar que ‘existem leis determinísticas que regem os seres humanos’, é tautológico, porque quem afirmou isso é um ser humano.” Pelo que foi acabado de ser exposto, dá para constatar-se que Popper jamais faria tal afirmação, para ele metafísica, sobre a “existência” de leis determinísticas regendo os Seres humanos (ou qualquer outro tipo de ‘Ser’).

    Quanto a Dilthey, um “idealista lógico”, hegeliano, e principalmente por isso não levado muito à sério por Popper, não era mesmo alguém que pudesse ser, apropriadamente, classificado como um ‘filósofo da ciência”, de fato.

    Para finalizar, por agora, como nos lembra o filósofo inglês, R. G. Collingwood (1889 – 1943), em ‘Ciência e filosofia’: “O estudo pormenorizado do facto natural é vulgarmente denominado ciência natural, ou abreviadamente, apenas ciência.”(p.9) ( o título original da obra é: “The idea of nature”; a tradução para língua portuguesa foi feita para a Ed. Presença, de Portugal, sem data)

    P.S. Para mim, Lógica é uma disciplina da Filosofia e, para Mario Bunge, é a “teoria da Dedução”. Já, Matemática é apenas uma linguagem que, quando se refere ao mundo ‘real’, suas proposições não são ‘verdadeiras a priori’

    Gostar

    Comentar por Gilberto Hauer — Quinta-feira, 18 Junho 2015 @ 6:36 am | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

%d bloggers like this: