perspectivas

Quarta-feira, 24 Julho 2013

Para Rui Tavares, o futuro é uma certeza, e a língua portuguesa deve ser simplificada

Neste texto de Rui Tavares, se o lermos com atenção, fica claro e explicito de que é legítimo cada um escrever como quiser; e cabe ao Estado regular a “escrita oficial” que pode ser diferente da “escrita real”. Ou seja, cada um deve escrever conforme fala, o que significa potencialmente a implosão da língua portuguesa culta.

“Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram. Eu escrevo e continuarei a escrever da forma como quiser sem punição do Estado (na verdade, muitas vezes são os poderes privados que interferem: eu escrevo sempre “estado” com minúscula, e tanto este jornal como a minha editora costumam alterar para maiúscula). Mas reconheço legitimidade ao Estado [maiúscula introduzida pelo editor para confirmar declaração anterior] para escolher uma ortografia para os seus actos escritos, nomeadamente para que as leis estejam escritas de forma homogénea. O primeiro objecto do acordo será, nesse sentido, o Diário da República. O resto da sociedade só segue se quiser.”

Esta concepção de Rui Tavares acerca da língua portuguesa é, pelo menos em parte, coincidente com a do brasileiro Marcos Bagno. Ou seja, para ele não existe, de facto, um português correcto. Em vez disso, existe o Acordo Ortográfico que os Estados assinaram, e depois existe o português que cada um escreve ou quer escrever – e as duas versões da língua não têm que ser necessariamente coincidentes. Exigir ao cidadão a utilização de um português correcto passa a ser uma atitude bafienta, reaccionária ou salazarista.

A adopção da visão de Marcos Magno por Rui Tavares é confirmada no resto do texto, desde logo quando ele escreve que o Acordo Ortográfico “facilita-nos a vida”. Um dos argumentos de Magno é que a escrita deve facilitar a vida a quem escreve; a escrita deve ser fácil e simples, e mesmo simplificada, reduzida a um basismo essencial.

A argumentação de Rui Tavares resume-se à necessidade de um certo nivelamento por baixo. A falácia da mediocridade é o seu ponto mais forte: se há pessoas que têm maior dificuldade em aprender a escrever a língua culta, então que se acabe com a língua culta escrita e etimologicamente ligada ao latim e ao grego.

Esta visão da cultura assusta. E mais assusta, em Rui Tavares, a certeza absoluta que ele tem do futuro. Por causa de gente que sempre teve a certeza do futuro é que as hecatombes humanitárias e as decadências sócio-culturais têm acontecido.

[ ficheiro PDF do texto de Rui Tavares]

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