perspectivas

Quarta-feira, 17 Julho 2013

Desejo e moral

David Hume dizia que não seria irracional que alguém preferisse a destruição do mundo a sofrer uma esfoladela num seu dedo. Vamos chamar a este princípio de Hume a “absolutização do interesse próprio”. Desde logo, Hume joga com a palavra “racional”, e podemos perguntar: ¿será racional que alguém prefira que o mundo inteiro seja destruído – incluindo a própria pessoa que deseja salvaguardar o seu dedo de qualquer mazela – para evitar uma esfoladela num seu dedo?

Quando perguntamos, hoje, a uma pessoa se tem medo da polícia e se ela responder afirmativamente, podemos concluir que essa pessoa é considerada, somente por essa razão, um sujeito moral.

Também podemos dizer que Hume hiperbolizou (criou uma hipérbole como exemplo da absolutização do interesse próprio). Mas ninguém pode provar que não existam (ou tenham existido) pessoas que não encarem (ou tenham encarado) a proposição de Hume como uma hipérbole. É possível que, para muitas pessoas, seja plausível e até racional que o mundo seja destruído para que não tenham a chatice de uma arranhadela num dedo. E aqui levanta-se o problema da racionalidade da moral desprovida de uma axiologia cosmológica e metafísica, isto é, uma moral sem Deus.

¿Qual é racionalidade segundo a qual seria uma coisa boa querer preservar a integridade física de um dedo a qualquer custo? ¿Por que razão podemos considerar “racional”, por exemplo, que a vida de outrem possa ser sacrificada para que o meu dedo não sofra um arranhão? Para Hume, e para o Homem actual em geral, a razão é desprovida de lógica, sendo que “lógica”, neste caso, assume o significado de capacidade adequada e necessária para que o espírito possa ultrapassar a distância empírica entre o subjectivo e o objectivo, e entre o particular e o geral. David Hume marca a história das ideias porque através dele a razão passou a não ter lógica.

Hoje, verificamos que a absolutização do interesse próprio é apenas contrariada pela lei que é, cada vez mais, caracterizada por um “racionalismo ilógico”. E sendo que o actual processo de promulgação legislativo resulta em leis racionalmente ilógicas, a moral passou a ser reduzida ao medo da polícia. Ou seja, quando perguntamos, hoje, a uma pessoa se tem medo da polícia e se ela responder afirmativamente, podemos concluir que essa pessoa é considerada, somente por essa razão, um sujeito moral.

E sendo que os valores que presidem à feitura das leis são progressivamente dependentes da discricionariedade e da arbitrariedade dos consensos valorativos das elites, podemos então dizer que vivemos hoje sob uma ditadura moral racionalmente ilógica, na medida em que impera a absolutização subjectiva do interesse próprio apenas limitada pela objectividade da lei que, por sua vez, se escora na pura subjectividade consensual das elites. Vivemos hoje, do ponto de vista moral e normativo, o lado pior da Idade Média (porque existe um lado bom da Idade Média que não temos hoje).


Mesmo que toleremos a ideia de que não é irracional não ser moral (o que não é totalmente verdade), não podemos – não é lógico – porém considerar as considerações morais como imperativos hipotéticos. Se é impossível provar a um indivíduo que ele deve ser moral – porque a verdade de uma proposição moral não pode ser obtida, apenas e só, por um processo de deliberação racional -, então a sensibilidade moral só pode ser obtida através da educação. E voltamos a Aristóteles.

A sensibilidade moral só pode ser obtida pela educação a partir de tenra idade (os adultos não se educam). O problema é o de saber qual o conteúdo da educação (moral) das nossas crianças.

Por exemplo, a esquerda e a direita neoliberal defendem a ideia segundo a qual se deve ensinar às nossas crianças, através da dita “educação sexual”, que o aborto é um acto moralmente aceitável (porque é isto que resulta objectivamente da “educação sexual”); e sendo que o aborto é legal e gratuito, passou a fazer parte da moral universal através da sanção legal. Em termos objectivos, é hoje tão moralmente válido fazer um aborto como não o fazer, porque é o Direito Positivo que estabelece objectivamente as normas morais mediante o “medo da polícia”. Ou seja, se um dia existir uma lei que permita a uma mãe matar o seu filho recém-nascido, então o acto do infanticídio passa a ser moralmente válido porque a lógica moral actual resume-se ao “medo da polícia”.

Como poderia ter dito David Hume, mais vale destruir uma vida em gestação do que estragar umas férias nas Bahamas ou deixar de comprar um carro novo. A moral actual não é só utilitarista no sentido liberal de Stuart Mill: é sobretudo uma moral humeana de hiper-valorização do desejo que, por sua vez, está ao serviço do arbítrio político das elites.

Hoje, considera-se que o facto de se desejar uma coisa é razão para agir – salvo se a polícia não o permitir mediante a aplicação de uma qualquer lei arbitrariamente concebida pelas elites. A bondade da coisa que se deseja não existe por si mesma ou por uma razão natural: é a elite que define se uma coisa é boa ou má ao sabor do princípio da absolutização do interesse próprio dessa mesma elite. Se a elite decidir, por exemplo, que o aborto é coisa boa, então desejar o aborto passa a ser razão válida para agir. O problema que se coloca é o de saber se a valorização moral do aborto (neste caso, em concreto) através da sua validade legal é uma coisa boa, ou se o acto de abortar revela uma sensibilidade moral que é necessária e para além da capacidade de raciocínio ou do racionalismo científico.

Em suma: ¿como é que devemos educar as nossas crianças?

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