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Sexta-feira, 28 Junho 2013

Deus pode inverter a direcção do tempo?

Filed under: filosofia,Quântica — O. Braga @ 4:34 pm
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Católicos – em geral – e os cientistas estão de acordo: segundo uns e outros, Deus não pode inverter a direcção do tempo, ou, segundo os cientistas agnósticos ou ateus, é impossível reverter a direcção do tempo.

Temos que partir de um primeiro princípio:

1/ Deus não depende das leis da física, sejam estas leis as da física clássica, sejam as leis da física quântica (que são o fundamento propriamente dito das leis da física).

Depois, temos um segundo princípio:

2/ Deus é a Causa Primeira, ou seja, é Causa de tudo o que existe no universo. E sendo a Causa Primeira, estando fora do espaço-tempo, Deus pode intervir e intervém de facto (veremos mais adiante) na realidade do espaço-tempo.

E ainda um terceiro e quarto princípios:

3/ Deus intervém na realidade do espaço-tempo através da realidade quântica ou do mundo quântico (conforme lhe queiram chamar).

4/ No mundo subatómico, ou no mundo quântico, ou na realidade quântica – a inversão da direcção do tempo é possível.

Concentremo-nos agora no ponto 4. Por mais estranho que possa parecer, a verdade é que a nível microscópico – a nível subatómico ou nível quântico – a inversão da direcção do tempo é possível. A nível quântico, as leis básicas da física, incluindo a mecânica quântica, são as mesmas quando a direcção do tempo é invertida (“The Quantum Philosophy”, página 207, 1994, Roland Omnès).

É a força entrópica da gravidade, que “adiciona” massa à matéria subatómica e que é a causa directa do ” efeito de descoerência “, que impede que a direcção do tempo seja invertida à escala humana (a nível macroscópico).

Para que fosse possível inverter o tempo considerado à escala humana, seria preciso um aparelho experimental maior do que, ou exterior ao, próprio universo (ver ponto 2); e esse aparelho, se fosse feito de matéria, seria tão grande que não funcionaria devido à relatividade especial: a acção desse aparelho demoraria um tempo infinito a efectuar a operação de inversão do tempo. Para que seja possível a inversão do tempo macroscópico, é necessário que a “alavanca”, por assim dizer, que faça essa inversão esteja fora do espaço-tempo, embora com poder de intervir no espaço-tempo.

5/ Deus é um Ser detentor de vontade e de liberdade absolutos.

A questão não é a de saber se Deus pode inverter a direcção do tempo; em vez disso, a questão é a de saber se Deus quer inverter a direcção do tempo. Como Newton defendeu nos seus escritos, Deus intervém no universo a cada segundo cósmico no sentido da sua manutenção e da sua estabilidade. Portanto, parece ser a vontade de Deus que o universo seja estável. E se é essa a vontade de Deus, então podemos dizer que Deus não quer a instabilidade do universo que qualquer inversão da direcção do tempo poderia trazer. Não é que Deus não possa: é que Deus não quer.

6/ Em princípio, as leis da física não se aplicam com 100% de garantia de infalibilidade.

A probabilidade de uma pessoa, ou de um grupo de pessoas, ver, por exemplo, uma pedra desaparecer de um sítio e aparecer noutro, não é nula (não é igual a zero). A esse fenómeno de desaparecimento e reaparecimento da pedra, chama-se “salto quântico” ou “efeito de túnel”, e tem a característica de não ter qualquer garantia de repetição. A razão por que um “salto quântico” pode ocorrer é desconhecida pela ciência. E dado que não existe qualquer garantia de que o fenómeno do desaparecimento da pedra e o seu reaparecimento seja repetível, não existe qualquer possibilidade de estudo científico desse fenómeno, uma vez que a ciência baseia-se na análise dos fenómenos que se repetem regularmente na natureza (sem estatística não há ciência propriamente dita).

Essa pessoa ou grupo de pessoas que observaram a pedra desaparecer de um sítio e reaparecer noutro, provavelmente correm o risco de ser apodadas de malucos, se revelarem o fenómeno observado.

Aqui entramos na área do milagre. Por exemplo, ainda hoje os ateus e materialistas dizem que os milhares de pessoas que observaram o fenómeno das aparições de Fátima, no início do século XX, foram vítimas de alucinações. Tal como o exemplo supracitado da pedra, o fenómeno de Fátima não é repetível de forma regular de modo a ser objecto da ciência; a razão por que esse fenómeno ocorre é desconhecida da ciência. E, por isso, os ateus dizem que aquelas milhares de pessoas em Fátima eram malucas.

7/ Qualquer ser vivo, como qualquer outro objecto, é composto por uma certa sobreposição quântica de vectores de estado .

Um ser vivo é composto por um determinado conjunto de sobreposições quânticas de vectores de estado. Se se souber, com rigor, qual é esse conjunto de sobreposições quânticas de vectores de estado relativamente a um ser vivo (por exemplo, o gato de Schrödinger), poder-se-á deter ou controlar a fórmula quântica desse ser vivo em um determinado momento do tempo.

Se o gato de Schrödinger morrer, e desde que se saiba qual é exactamente a fórmula quântica do gato antes da sua morte, é possível, através de uma acção na realidade quântica (ver ponto 3), substituir o conjunto de sobreposições de vectores de estado do gato morto, pela fórmula quântica dos vectores de estado sobrepostos do gato enquanto vivo. É óbvio que a probabilidade de uma acção deste tipo, não sendo nula, anda pelo rácio de 10^120 (1 seguido de 120 zeros); mas pelo facto de a probabilidade ser muito baixa não significa que o fenómeno de devolver a vida ao gato seja impossível.

Quando, por exemplo, um cancro linfático é curado e a medicina desconhece as razões por que a doença desapareceu do corpo do doente, provavelmente estamos em presença de um milagre de cura que a ciência não consegue explicar.

Podemos, então, definir o milagre de cura como sendo a acção divina, directa ou indirecta, realizada no mundo macroscópico através da realidade quântica, e segundo a qual a sobreposição extraordinariamente complexa dos vectores de estado de uma determinada pessoa doente é revertida no tempo, sendo substituída por uma fórmula — parcial — de vectores de estado dessa pessoa anterior à contracção da doença.

As razões por que o milagre ocorre não são passíveis de ser estudadas pela ciência, porque não se trata de um fenómeno natural regular. Os milagres não obedecem à regularidade do universo: em vez disso, são excepções que decorrem da acção divina, livre e voluntarista, no macrocosmos – mas que não podem ser explicadas pelo racionalismo científico.

6 comentários »

  1. O termo adequado não seria reversão de movimento ao invés de inversão temporal?

    Você sai da sua casa e vai até o seu trabalho e volta para sua casa. Do ponto de vista clássico eu não consigo distinguir o antes do depois, ou seja, inicialmente(sai da casa) e no fim(chega na casa) são coisas equivalentes(mesmo lugar).

    Do ponto vista quântico, são estados(kets diferentes) : |sai da casa> e |chega na casa>. São diferentes por definição.

    Do ponto de vista filosófico como o tempo evolui como a entropia modela, ou seja, ao sair da casa você estava mais jovem e ao voltar para casa obviamente estará mais velho, não contradiz o quarto princípio?

    Achei interessante a perspectiva filosófica para se estudar milagres. Talvez não tenha compreendido por completo sua linha de raciocínio, poderia por gentileza, explicar melhor o quarto princípio?

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    Comentar por George Valadares — Sábado, 29 Junho 2013 @ 4:49 am | Responder

    • 1/ Por favor deve-se tomar em atenção que a minha abordagem é filosófica (metafísica) e não científica no sentido do Positivismo.

      Do ponto de vista estrito da filosofia, ¿o que é “movimento”?

      No universo da relatividade de Einstein, o movimento é a variação de posição de um corpo em relação a um ponto chamado “referencial”.

      À escala macroscópica, a teoria do movimento chama-se “mecânica” e implica o conceito de “dinâmica” e os “princípios da termodinâmica”.

      Portanto, embora estejam intimamente ligados, “tempo” e “movimento” são conceitos diferentes.

      2/ o seu exemplo de “sair de casa/voltar para casa” é exactamente o contrário do que se passa na Realidade.

      No mundo macroscópico (ou realidade humana) existe a “memória” que traduz o conceito de “tempo” (no sentido de “duração”) e, por isso, existe a distinção clara entre o antes e o depois, entre o passado e o presente.

      Se eu saio de casa, de manhã, para trabalhar, e volto a casa à noite, tenho a noção claríssima do que se passou antes de sair de casa, e do que se passou depois de sair de casa, até que voltei a casa. Essa noção é evidente, e tem a ver com o tempo, e não propriamente com o movimento.

      Já na realidade quântica, as coisas não se passam dessa maneira. As partículas elementares podem assumir a condição de ondas, o que significa que, nessa condição de ondas, não são matéria porque não têm massa. E na condição de ondas, as partículas elementares não estão sujeitas necessariamente ao tempo — ou seja, as partículas elementares podem “viajar” pelo universo por fora do “cone da luz”, o que significa que podem “viajar” a velocidades muitíssimo superiores à velocidade da luz.

      ¿O que é o “cone da luz”?

      Metaforicamente, podemos dizer que o “cone da luz” é a “barreira da luz”.

      Assim como existe o conceito de “barreira do som”, segundo o qual um objecto — por exemplo, um avião a jacto — que viaje a uma velocidade superior a 360 metros por segundo ultrapassa a “barreira do som”, assim existe o conceito de “barreira da luz” ou “cone da luz”, que é o limite máximo da velocidade possível no universo macroscópico, físico e material (com massa), tornado possível pela força entrópica da gravidade.

      Em suma, se uma partícula elementar “viaja” em forma de onda e, por isso, fora do “cone de luz” (ultrapassando a “barreira da luz”), essa partícula elementar pode deslocar-se no universo de uma forma quase instantânea, ou mesmo instantânea. Ou seja, é possível que uma partícula elementar esteja neste momento no planeta Terra e, no segundo cósmico seguinte, apareça noutro ponto do universo, por exemplo, a 500 anos/luz de distância da Terra.

      A nível da “função de onda” quântica (também chamado de “vector de estado”), ou não existe o antes e o depois, ou o antes e o depois são difusos, porque não é possível definir simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula elementar (ver “equação de Schrödinger” no Google).

      3/ no quarto princípio, quando se afirma que “na realidade quântica a inversão da direcção do tempo é possível”, não existe contradição porque na realidade quântica a entropia da gravidade é escassa ou mesmo inexistente.

      Ou melhor: o que eu quero dizer é que existe, de facto, uma contradição entre a realidade quântica, por um lado, e a realidade macroscópica, por outro lado, mas essa contradição faz parte da Realidade (com maiúscula) em si mesma. O ser humano utiliza o senso-comum (empirismo) para se orientar na realidade macroscópica, o que não significa que a realidade quântica não faça parte da Realidade e seja mesmo o fundamento não só da Realidade, mas também as leis da física quântica são o fundamento das próprias leis da física clássica.

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      Comentar por O. Braga — Sábado, 29 Junho 2013 @ 1:22 pm | Responder

  2. Estimado Braga, por hora, o item 1/ supri minha dúvida além de servir como guia para entender melhor seu artigo.

    Vou relembrar as outras visões da mecânica quântica além do positivismo. Acredito que isso será muito útil para compreensão, de minha parte, para entender o artigo.

    Todos os termos(conceitos) usados por você, tenho domínio, exceto: entropia da gravidade. Caso seja possível, poderia indicar uma bibliografia para que eu possa entender melhor este termo e por fim sua explicação.

    Abraços.

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    Comentar por George Valadares — Domingo, 30 Junho 2013 @ 5:23 am | Responder

    • A entropia da gravidade decorre da força da gravidade.

      http://pt.wikipedia.org/wiki/Gravidade

      A força da gravidade é “entrópica” porque quanto mais massa tem um objecto, menos probabilidade tem de se sujeitar à acção directa das leis da física quântica.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 30 Junho 2013 @ 9:06 am | Responder

  3. 1 – De fato, o mundo é quântico.

    2 – De fato, quanto maior for a massa(micro –> macro) de um corpo, as leis físicas que descrevem “serão” clássicas.

    3 – Portanto, na “realidade” humana, o “efeito” entrópico devido a força da gravidade não nos permiti perceber a inversão da direção do tempo.

    4 – Na realidade quântica(meio pelo qual Deus pode escolher agir), uma vez que a inversão temporal é possível ” a sobreposição extraordinariamente complexa dos vectores de estado de uma determinada pessoa doente é revertida no tempo, sendo substituída por uma fórmula — parcial — de vectores de estado dessa pessoa anterior à contracção da doença.”

    Apesar de não racionalizar o milagre, como você define muito bem. Abrimos a possibilidade descreve-lo através dos princípios elencados no artigo.

    Essa é seria a proposta do artigo?

    Abraços.

    obs: muito obrigado por sua atenção e consideração.

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    Comentar por George Valadares — Domingo, 30 Junho 2013 @ 3:23 pm | Responder

    • O ponto 3 do seu comentário deveria ser assim:

      3/ Portanto, na “realidade” humana, o “efeito” entrópico devido à força da gravidade torna altamente improvável (1 em 10^120), mas não impossível, a inversão da direcção do tempo.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 30 Junho 2013 @ 4:55 pm | Responder


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