perspectivas

Sábado, 8 Junho 2013

A epigenética e a adopção de crianças por pares de invertidos

Como escreveu Karl Popper pouco tempo antes de nos deixar, “vivemos num tempo em que o irracionalismo voltou a estar na moda”.

Mas o que Karl Popper não poderia prever é que, no dealbar do século XXI, o irracionalismo passou a ser científico. A comunidade científica vive hoje um raro momento de esquizofrenia em que, por um lado, assume que procura a verdade por intermédio da ciência, mas, por outro lado, apoia a manipulação e corrupção da verdade através da política.

A epigenética consiste no conjunto de mudanças cromossómicas estáveis e transmissíveis ao longo das gerações que não implicam alterações na sequência do ADN.

Na maior parte dos casos, essas mudanças cromossómicas – ou mudanças epigenéticas – são determinadas pelo meio-ambiente onde o ser humano viveu e foi criado; e essas mudanças epigenéticas são transmissíveis às gerações seguintes: podem não aparecer na geração imediatamente seguinte, mas podem ressurgir numa terceira ou quarta geração.

Por exemplo, os maus-tratos na infância de uma pessoa criam marcas epigenéticas que perduram ao longo da sua vida inteira, e essas marcas epigenéticas podem ser transmitidas a gerações descendentes dessa pessoa. As experiências tidas por uma criança – por exemplo, o ser adoptada por um par de invertidos – criam marcas epigenéticas que perdurarão nela e na sua descendência.

Em um trabalho de 2004, feito com o neurocientista Michael Meaney, também da Universidade McGill, foram comparados dois grupos de ratas: aquelas que tinham recebido lambidas frequentes de suas mães quando ainda eram bebés, e aquelas que não haviam recebido cuidados maternos.


Os resultados mostraram que os animais lambidos pelas mães tornaram-se adultos mais tranquilos. Isso porque o amor materno alterou os níveis de metilação nas regiões do hipocampo que regulam o gene do receptor de glicocorticoides, ou seja, alteraram a regulação dos níveis de hormónios do stress durante toda a vida adulta.


Para mostrar que essa lógica se aplicava também a humanos, os pesquisadores da McGill associaram-se ao Instituto Universitário de Saúde Mental Douglas, também do Canadá, e ao Instituto de Ciências Clínicas de Singapura, para analisar cérebros de vítimas de suicídio.


Por meio dos seus históricos médicos e de entrevistas com familiares, foi possível identificar entre os suicidas aqueles que tinham sofrido abuso severo durante a infância – seja verbal, sexual ou físico.


Os pesquisadores viram que nesse grupo que teve uma infância difícil os genes que regulam os receptores de glicocorticoides estavam 40% menos activos quando comparados aos dos suicidas que não sofreram abuso, e também quando comparados aos do grupo controlo (pessoas que morreram por outras causas, como acidentes de carro).


Os resultados sugerem, portanto, que o abuso infantil deixou essas pessoas mais sensíveis aos danos causados pelo stress no cérebro; eles foram publicados em 2009 na revista Nature Neuroscience.”Pioneiro da epigenética fala sobre relação entre ambiente e genoma

O que a adopção de crianças por pares de invertidos vai fazer é tentar normalizar o estatuto e a condição daquelas crianças que, por uma terrível infelicidade decorrente das contingências da vida, se viram sem pai e/ou sem mãe e estão internadas em orfanatos. A classe política serve-se desses casos infelizes e excepcionais para, baseando-se neles, tentar legitimar a adopção de crianças por pares de invertidos, e para legitimar as “barriga de aluguer” e a procriação medicamente assistida sem qualquer controlo ético.

Mas a epigenética não deixa de existir só porque o irracionalismo voltou a estar na moda.

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