perspectivas

Segunda-feira, 3 Junho 2013

O blogue Rerum Natura e a arte

“Dois homens não vêem uma mesa da mesma maneira; mas ambos entendem a palavra “mesa” da mesma maneira. Só querendo visualizar uma coisa é que divergirão; isso, porém, não é a ideia abstracta da mesa.” – Fernando Pessoa, Prosa, Ricardo Reis

Não foi por acaso que o blogue Rerum Natura colocou este postal sobre a arte , a que fiz referência em um verbete anterior . Contradizer um certo niilismo encapotado próprio e característico do blogue Rerum Natura tem-me dado muito trabalho; e diga-se que é preciso alguma paciência e “bagagem” para reduzir ao absurdo as ideias daquele blogue, o que infelizmente a maioria dos leitores dele, não tem.

A mim não me interessa aquilo que Tolstoi pensa sobre a arte; o que me interessa é que eu nunca publicaria, neste blogue, as ideias de Tolstoi sobre a arte sem um contraditório. E o Rerum Natura publica sempre o controverso, o polémico, e mesmo o niilista, sem contraditório.

“O público não é crítico, não pensa espontaneamente. Na escolha do que lê, na própria disposição do bom gosto, é guiado por influências externas.” – Fernando Pessoa, Correspondência


“A única coisa superior que o homem pode conseguir é um disfarce do instinto, ou seja, o domínio do instinto, por meio de instinto reputado superior. Esse instinto é o instinto estético. Toda a verdadeira política e toda a verdadeira vida social superior é uma simples questão de senso estético, ou de bom gosto.” – Fernando Pessoa, Reflexões sobre o Homem, textos de 1926-1928


Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis quantos forem os modos por que é possível ter a vida imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal.

(…)

Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida é imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensível que a cerca. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ela própria, tendo-a por infiel à sua própria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se apoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é ideal helénico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distintivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, por certo, ele foi herdado pelas civilizações posteriores.

(…)

É esta inferioridade essencial (da vida) que dá às coisas a imperfeição que elas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer porque é do corpo, e por isso vil, e a essência do que é vil não pode durar; desaparece a juventude porque é um episódio desta vida passageira; murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Só Deus, e a alma, que ele criou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida.” – Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção.


Ora bem. Destas quatro citações de Fernando Pessoa podemos concluir o seguinte:

  • dois homens não vêem uma obra de arte da mesma maneira; mas ambos entendem a palavra “obra de arte” da mesma maneira. Só querendo visualizar uma obra de arte é que divergirão; isso, porém, não é a ideia abstracta de “obra de arte”.
  • o povo não é crítico, por exemplo, em relação à arte; e por isso é que o blogue Rerum Natura age em função de um determinado nível de acrisia natural no povo, tentando manipular consciências e empreender uma lobotomia ideológica aos seus leitores.
  • o sentido estético define uma sociedade superior. E o que é o sentido estético?
  • o sentido estético advém da imperfeição do mundo, e faz parte de um ideal. Por isso é que a estética é inseparável da ética. E assim como os valores da ética são objectivos – os valores da ética existem por si próprios sem necessidade de serem deduzidos de uma qualquer utilidade -, assim os valores da estética são objectivos. Assim como acontece com os valores da ética, os valores da estética tendem a transcender a imperfeição do mundo através do ideal helénico de beleza, e segundo os filósofos gregos que o romantismo alemão (Fichte, Hegel et al) apenas subsumiram nas suas teorias.

Aos autores do blogue Rerum Natura faz falta ler Fernando Pessoa, em vez de promover Tolstoi. “O que é nacional é bom”.

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