perspectivas

Sábado, 1 Junho 2013

Luiz de Camões, Shakespeare e o efeito Trickle-down de Georg Simmel

Só tive consciência plena de quem era Camões quando fui obrigado a estudar, no antigo 4º Ano dos Liceus, os Lusíadas. A “coisa” metia medo. Os Lusíadas não eram apenas lidos: eram estudados. E eram mesmo decorados, em algumas partes. E como escreveu Edouard Herriot (e não André Gide, como alguns dizem), “a cultura é o que fica quando se esqueceu tudo”.

A “coisa” era levada muito a sério. A tolerância era quase zero: quem não estudava os Lusíadas não passava na disciplina de Português. De vez em quando lá surgia um professor meio canhoto e canhestro que, identificando Camões com o Estado Novo, via no poeta um símbolo do “fascismo”. E foi aqui que começou o problema do negacionismo da nossa cultura, quando o reviralho fez associações simbólicas indevidas e irracionais entre a História de Portugal, por um lado, e as ideologias políticas coevas, por outro lado. A verdade é que Camões nada teve a ver com o “fascismo”, quanto mais não seja porque no século XVI ainda não tinha surgido o Afonso Costa.

E os doutos picaretas ideológicos das canhas começaram, então, a martelar na cultura. Por exemplo, davam uma ligeira ensaboadela d’Os Lusíadas em um mês, e depois impunham o estudo de Aquilino Ribeiro durante um trimestre inteiro. Foi assim que os invertidos políticos destruíram a cultura portuguesa. Não é que Aquilino não seja legível: o que é, é que o cu não tem nada a ver com as calças, e o estudo de um não proíbe o estudo de outro. Mas os professores do reviralho silencioso, no Estado Novo, não pensavam assim.

Depois veio o 28 de Abril de Troca-O-Passo. A “coisa” piorou. Na filosofia, por exemplo, a teoria do conhecimento foi erradicada e substituída por Karl Marx. Passamos a conhecer as ideias de Karl Marx e Engels sem termos mínima ideia do que era o Conhecimento. Iniciou-se o desconstrutivismo histórico – tão caro a Fernando Rosas e ao Bloco de Esquerda e ao Partido Comunista – que transformou a História de Portugal em uma narrativa acerca de gerações multi-seculares de malfeitores façanhudos sem escrúpulos. Os nossos tetravós passaram a ser uns filhos da puta, e o Camões da família deles. “Vai chatear o Camões!”, passou a ser o slogan. Isto é uma das “coisas” que eu nunca perdoarei à Esquerda! Jamais!

Mas se eu só tive consciência plena de quem era Camões quando fui obrigado a estudá-lo, já tinha ouvido falar nele através do efeito de Trickle-down. Camões era mencionado amiúde em conversas de família, ou em conversas entre adultos a que a criança assiste. Apesar do negativismo comuna embutido no sistema, Camões era falado, conversado, e mencionado às mesas dos cafés, em tertúlias de amigos, nas famílias – e as crianças ouviam. Hoje, as crianças não ouvem nada porque ninguém fala.

Portanto, não admira que as crianças inglesas não saibam hoje quem foi Shakespeare , assim como não me admiro que as crianças portuguesas só conheçam o Camões quando querem mandar alguém à bardamerda. A Esquerda venceu a guerra cultural. E depois, ainda se queixam

Adenda: o que interessa é ensinar, nas escolas, a “educação sexual”, e a ideia de que “não existem sexos”. E que se lixe o Camões! A cultura faz-se nas alcovas!

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