perspectivas

Sexta-feira, 24 Maio 2013

Sobre os conceitos de ‘tirania da maioria’ e de ‘tirania revolucionária’, ou a nova ‘maioria silenciosa’

Eu não concordo com muita coisa em Fernando Pessoa mas ele “provoca-nos” o raciocínio — o que é raríssimo nos intelectuais actuais. Fernando Pessoa provoca e estimula os neurónios.

censura gayzista web pngDiz Fernando Pessoa (*) que “a tirania consiste na escolha forçada entre um mal e outro mal” ( sublinho, forçada ), ou seja, a tirania é uma situação de double blind em que parece não existir alternativa a duas situações negativas, cada uma à sua maneira. Segundo este raciocínio, a guerra é uma tirania se formos obrigados a alinhar por um dos lados do conflito; e deixa de ser uma tirania se tivermos a opção de nos abster em relação ao belicosos e procurar o nosso próprio caminho e mundividência em relação a essa guerra.

Temos que retirar das cogitações de Fernando Pessoa aquilo que é logicamente aproveitável, porque Fernando Pessoa foi um poeta e não propriamente um lógico. A poesia é filosofia sem a lógica — o que não significa que seja desprovida de lógica: uma coisa sem lógica não é necessariamente desprovida de toda a lógica, porque pode ter a sua paralogia intrínseca; o que essa coisa não obedece é ao formalismo da lógica.

Portanto, vamos partir do princípio de que a definição de “tirania”, segundo Fernando Pessoa, está correcta embora não seja perfeita — porque diz Fernando Pessoa que a perfeição das definições é uma tirania (a tirania da perfeição: “o erro capital de todas as definições perfeitas é a perfeição. Uma coisa perfeita deixa sempre suspeitas de não-existência”).


A partir desta definição de “tirania”, Fernando Pessoa classifica-a em três categorias: 1/ a Força; 2/ o Número; 3/ a Astúcia. A partir daqui não fala Fernando Pessoa mas interpreto eu aquilo que ele quis dizer.

censura 258 png web1/ a Força é, nomeadamente, a força bruta do Estado que se serve da lei e do Direito Positivo que é repressivo em si mesmo. Muitas vezes a lei e a força bruta do Estado coloca-nos em situações de double blind, (ou até em situação de dissonância cognitiva) em que somos obrigados (forçados) a escolher entre um mal e outro mal diferente. A força bruta do Estado é tirânica, salvo se o Estado não é o agressor e apenas se protege a si mesmo (“direito de emergência”, ou Notrecht em Hegel).

2/ o Número é o argumento dos que se referem à “tirania da maioria”, como por exemplo o movimento político guei, para justificar a promoção e imposição cultural coerciva das suas agendas políticas, não só independentes da maioria, mas muitas vezes contra essa mesma maioria.

3/ a Astúcia (que não é sinal de força, mas de fraqueza que se faz força) é aquilo a que Fernando Pessoa chama de “tirania revolucionária”, a citar:

“A tirania revolucionária é o vivermos sujeitos não aos hábitos de ontem, mas aos hábitos de depois de amanhã; a tradição do passado é má, mas a tradição do futuro ainda é pior. (…) A tirania é a limitação da personalidade de alguém em virtude de um princípio que ele não aceita e contra o qual não se revolta (que não tentou substituir).”

Ou seja, pelo facto de eu ter uma determinada opinião, que inclui por exemplo a ideia segundo a qual a actual classe política é decadente e deve ser substituída por outra, o Estado e essa classe política não têm o direito de “limitar a minha personalidade em virtude de um princípio que eu não aceito e contra o qual não tenho nenhuma acção violenta de substituição”. Naturalmente que se a maioria das pessoas concordar comigo, essa classe política será, em princípio, pacificamente substituída por outra. E aqui não se trata de “tirania da maioria”: pelo contrário, trata-se de uma opinião e acção reactivas a uma “tirania de uma minoria” previamente existente.

Quando o movimento político guei, por exemplo, invoca uma pretensa “tirania da maioria” para impor a sua agenda política homossexualista à sociedade inteira, está de facto a criar uma tirania de uma minoria, porque a maioria é limitada na sua identidade comum e na sua personalidade, por intermédio da força bruta do Estado que reprime essa maioria através da lei — como já está a acontecer em países como a Inglaterra, o Canadá, a Holanda, a Suécia, a Bélgica, etc., em que quem se opõe à agenda política guei é política e juridicamente perseguido pelo Estado.

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Existe hoje uma declaração de guerra cultural de uma minoria contra a maioria, por exemplo com a utilização e manipulação da força do Estado para impor à sociedade o princípio da adopção de crianças por pares de homossexuais, retirando à criança o princípio do direito à filiação em duas linhagens (pai e mãe). Trata-se da erradicação de um princípio fundamental à liberdade na sociedade, porque a liberdade diz respeito a todos e não apenas a alguns. E se a liberdade diz respeito a todos, uma minoria não pode restringir a liberdade da maioria nem sequer nos princípios éticos que regem a feitura das leis.

E, por outro lado, existe uma maioria que se revolta — muitas vezes em silêncio, e por isso é uma “maioria silenciosa” — contra a tentativa da manipulação do Estado e do Direito no sentido da limitação da identidade e da personalidade de cada um dos membros dessa maioria.

Portanto, o que existe de facto hoje em Portugal (e noutros países) é uma “tirania da minoria” que, com o apoio do Estado e da classe política em geral, colocou a maioria em uma situação de double blind ou em uma situação de ter de escolher entre dois males: ou submeter-se, por exemplo, à lei da adopção homossexual que essa maioria considera iníqua (limitação da personalidade, por exemplo, com perseguições políticas aos funcionários do Estado, o que constitui um autêntico homofascismo); ou reagir contra essa lei iníqua com acções concretas que podem incluir a tentativa de substituição da actual classe política. É neste double blind que consiste a actual tirania de uma minoria — porque a tirania é, por definição e salvo excepções, quase sempre minoritária! — sobre a maioria.

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