perspectivas

Sexta-feira, 17 Maio 2013

Uma errata para um verbete sobre o conservantismo

Filed under: Política,Ut Edita — O. Braga @ 6:28 am
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Vamos fazer um breve fisking de um texto publicado aqui, como segue:

“ [características do conservadorismo] descrença em modelos racionalistas que ignoram o facto de que os homens são governados mais pelas emoções que pela razão;”

Não devemos confundir “emoção”, por um lado, com “intuição”, por outro lado. A intuição é uma forma de inteligência, e portanto, uma forma de razão. E se houve alguém que se apoiou quase exclusivamente na emoção (nas paixões) para justificar o comportamento humano foi David Hume, o pai do cepticismo moderno. E dizer que Hume foi conservador é um preciosismo.

“Em minha interpretação da leitura dos textos conservadores, eis o que ficou de mais relevante: uma cautela contra tudo que é extremista e utópico; a preferência por reformas graduais em vez de saltos revolucionários;”

Uma reforma pode ser extremista, independentemente de ser utópica ou não. Extremismo e utopia não são sinónimos nem podem ser colocados num mesmo plano. Por exemplo, em relação à sua época, o Cristianismo foi extremista. Um conservador pode ser extremista sem ser utópico, dependendo das circunstâncias.

“Há em todo conservador uma boa dose de respeito pelo árduo processo de tentativa e erro ao longo dos tempos, que serviu para moldar instituições úteis a nossa sobrevivência. E o mais importante: tais instituições nem sempre podem ser perfeitamente compreendidas pela nossa razão. O liberal Friedrich Hayek tinha postura semelhante, apesar de não se considerar conservador.”

O segundo parágrafo é absolutamente falso; aliás, entra em contradição com o primeiro parágrafo.
O processo de “tentativa e erro” é um processo científico, e portanto racional. É aqui que está a contradição entre o primeiro e o segundo parágrafos.

Hayek adoptou o cepticismo de David Hume. Não há um liberal qualquer que se atreva a desmentir isto, ou então não sabe o que diz. O cepticismo de David Hume é o cepticismo moderno, que também influenciou, por exemplo, Bertrand Russell. Em contraponto, o conservador é um céptico no sentido grego (no sentido socrático), o que é uma coisa totalmente diferente.
Por outro lado, Hayek juntou, na sua teoria, um certo optimismo utópico de Kant ao cepticismo de Hume — o que é uma contradição em termos, porque Kant não fez outra coisa senão colocar em causa Hume.

“Para Hayek, faltava aos conservadores a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir.”

Há aqui uma confusão entre conservantismo, por um lado, e tradicionalismo, por outro lado. Um conservador pode não concordar com algumas tradições, por razões éticas. Para um conservador, os valores da ética devem ser universais, fundamentados racionalmente, intemporais, e facilmente distinguíveis nas suas características principais. Para um conservador, sendo realista, os valores existem por si mesmos e não decorrem de uma qualquer utilidade prática.

Por exemplo, eu não concordo com a tradição islâmica da excisão feminina. E também não concordo com o aborto livre que já se vai tornando uma tradição na Europa: de certa forma, também existe uma tradição liberal ou de esquerda, e um conservador não concorda necessariamente com essas tradições.

E, por outro lado, há que definir “mudança” para sabermos do que estamos a falar. É absolutamente falso que, a um conservador propriamente dito e consciente, lhe falte “a coragem de aceitar as mudanças não programadas pelas quais novas conquistas humanas irão surgir”.

Isso nos remete ao outro ponto de divergência entre liberais radicais e conservadores: estes são, via de regra, mais pessimistas. Para Rothbard, por exemplo, a “atitude adequada ao libertário é a de inextinguível optimismo quanto aos resultados finais”, enquanto o “erro do pessimismo é o primeiro passo descendente na escorregadia ladeira que leva ao conservadorismo”.

Há distinguir “pessimismo” de “realismo”. O pessimismo é a atitude de espírito que consiste em pensar que, no mundo em que se vive, a soma dos males é superior à soma dos bens. Ora, um conservador não pode pensar assim sob pena de não o ser, porque por muito mal que exista no mundo, ele vê esse mal como uma mera ausência de bem. Normalmente os liberais perguntam: “porque é que existe o mal no mundo?”; enquanto o conservador pergunta ao liberal: “e porque é que você não pergunta por que existe o bem?”

O pessimismo pode ser revolucionário (no sentido de ser não-conservador), como por exemplo em Schopenhauer que via o mundo como absurdo; e o mesmo se se passou com Nietzsche que foi um pessimista e de conservador tinha quase nada, e passa-se com os existencialistas que fazem também a apologia do absurdo.

O conservador não vê o mundo como absurdo: pelo contrário, ele vê um fundamento racional no mundo. O conservador é realista em dois sentidos diferentes mas que se conjugam nele: 1/ é realista no sentido em que tende a valorizar a realidade como um dado a considerar, por não ser possível proceder de outro modo; e 2/ o conservador, à semelhança do matemático, é realista quando afirma que existe uma realidade independente do pensamento e do espírito humano.

Em outras palavras: até que ponto a “morte de Deus” não abriu espaço para o nascimento do “Deus Estado” e, com ele, dos totalitarismos modernos? Não tenho a pretensão de saber a resposta, mas reconheço que há aqui uma importante divergência entre liberais e conservadores. Se estes afirmam a religião como garantidora do tecido social, aqueles preferem a defesa secular das liberdades.

Não podemos confundir secularismo — que os conservadores também defendem — com laicismo — que muitos liberais defendem. Um conservador não tem nenhum problema em relação ao secularismo. Aliás, a história da Igreja Católica na Europa é — salvo raros momentos de radicalismos — a de um certo equilíbrio notável entre o poder secular e o poder religioso, ao contrário do que se passou por exemplo no mundo islâmico, ou mesmo na Rússia cristã ortodoxa.

Há conservadores seculares, como Oakeshott. Mas talvez seja um ponto fraco do conservadorismo moderno esta enorme dependência da religião. Talvez a filosofia, as artes e a literatura possam substituir a religião neste encanto pelo mistério do universo, nesta contemplação pelo desconhecido, eterno e indizível. Mas talvez os conservadores, apelando para o argumento utilitarista da fé, tenham um ponto quando alegam que, sem o freio religioso, as massas demandarão algum outro “Pai” em seu lugar.

Quem escreveu isto é burro. Ou seja, é tipicamente um liberal. Se o homo sapiens sapiens existe na Terra há pelo menos 75 mil anos e sempre teve religião, o burro revolucionário e liberal vem dizer que hoje, devido a uma e qualquer putativa mutação genética no ser humano que de facto não existe, “a religião é substituível”. Fernando Pessoa dizia que “a religião não só é a condição da liberdade eficaz do pensamento, como é a condição da função hígida do pensamento”. Duvido que o liberal típico consiga perceber o que Fernando Pessoa quis dizer.

O texto é longo e é um exemplo de um conjunto de meias-verdades, por um lado, e por outro lado é uma narrativa. Ora, um texto filosófico deve ser sucinto quanto baste, evitar o gongorismo e não contar estórias; e deve ser preciso nos termos que usa e não incorrer na falácia da anfibolia.

1 Comentário »

  1. Toda sociedade SECULAR, conservadora, quando enredada pelos libertários que querem impor o LACISMO, reage e termina no CONFESSIONALISMO. Os dois extremos laicismo e confessionalismo (também) representam perseguição à liberdade religiosa.

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    Comentar por Cinéfilo Realista (@cinerealista) — Domingo, 9 Abril 2017 @ 7:35 pm | Responder


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