perspectivas

Sábado, 11 Maio 2013

O trabalho e a ‘indiferenciação da diferença’

Sobre este verbete:

1/ Não é verdade que nas sociedades primitivas — no neolítico — não tenham existido estratos sociais.

A pulverização de direitos individualizados, para além de subverter o Direito que passa a adequar sistematicamente a norma ao facto, faz com que a noção cultural de pessoa moral seja largamente substituída, na sociedade, pela noção de indivíduo entendido como unidade fisiológica e biológica. Este fenómeno actual de subalternização ou mesmo de desvalorização da pessoa moral, em favor do indivíduo entendido como unidade biológica que se caracteriza essencialmente por diferenças fisiológicas, é um produto da anomia e da “indiferenciação da diferença” e, por isso, é a causa de um processo de construção de um novo tipo de “tribalismo” que se caracteriza por tornar o indivíduo permutável e socialmente indiferenciado.

A antropologia demonstrou, através do estudo de sociedades tribais primitivas, por exemplo, entre as tribos da América do Sul ou do Bornéu, que nessas sociedades também existiam e existem estratos sociais (só não são “classes” propriamente ditas porque a população de uma tribo é pequena). O que acontece é que essas tribos têm um número reduzido de indivíduos — frequentemente, uma tribo pouco mais é do que uma aldeia —, e por isso as distinções grupais ou de “classe” dentro da tribo (mas não distinções “individuais”, que é outra coisa) tornam-se mais difíceis de identificar para quem olha a tribo a partir de fora. Mas dentro dela, os estratos grupais e as funções sociais são claramente distintos definidos.

À medida em que o número de indivíduos foi aumentando e a tribo foi-se expandindo em um determinado território, os estratos sociais existentes tornaram-se mais visíveis.

2/ o trabalho visto como uma “alienação do Desejo” (a alegada “Era de servidão em que vivemos”) é uma alienação marxista que decorre de uma fé metastática. A utopia marxista de transformação da realidade, segundo a qual o actual “reino da necessidade” se transmuta na certeza de um futuro em que surgirá o “reino da liberdade” (Engels) é o equivalente psicótico da “mão invisível” do mercado. Em ambos os casos, lidamos com doentes mentais graves, com psicoses irreversíveis.

3/ Dizer que na tribo primitiva existia “uma liberdade de ausência de constrangimentos sociais” também é falso.

Pelo contrário, na tribo primitiva o indivíduo apaga-se, desvanece-se face à sociedade liderada por uma pequena elite (podem ser os anciãos e/ou o curandeiro, ou o chefe guerreiro e a sua família, etc.). Não é possível conceber um maior grau de “constrangimento social” senão numa sociedade em que o indivíduo é permutável (tanto faz um indivíduo como outro qualquer) e se torna quase indistinto face ao grupo.

Uma das características do politicamente correcto — que é o marxismo actualizado, ou marxismo cultural — é claramente uma tentativa contemporânea de “tribalizar” a sociedade, tornando o indivíduo quase indistinto e permutável face ao todo social; e, no entanto, mesmo numa sociedade tribalizada, segundo a utopia politicamente correcta, as classes sociais nunca deixarão de existir: pelo contrário, a tribalização da sociedade levará a uma distinção social radical (uma espécie de sociedade “militarizada”) entre o povo, por um lado, e uma nova classe de “curandeiros tribais” coevos traduzidos no conceito de Platão de rei-filósofo, que mais não é do que a atribuição de um poder quase discricionário a essas elites.

Quem conduz hoje esse processo de “tribalização” das sociedades a Ocidente é a plutocracia internacional aliada tacitamente (mas não explicitamente) a uma certa esquerda, em uma espécie de lógica de “Tratado de Tordesilhas”, por assim dizer (divisão do espólio da sociedade), em que o Poder futuro sobre a sociedade pretende ser partilhado. Tanto essa esquerda, como a plutocracia internacional, ganham com o esbatimento do indivíduo, e por isso, com a tribalização da sociedades. A China actual é o exemplo dessa estratégia de Poder partilhado que se pretende que se estenda também e de certa maneira, à Europa e à América do Sul (sinificação).

4/ O valorização do indivíduo enquanto tal é uma “invenção” da cultura judaico-cristã. Mesmo nas cidades gregas, onde existia a democracia (para alguns), o indivíduo identificava-se com a cidade que substituía a tribo. Por exemplo, para Sócrates era impossível abandonar Atenas para evitar a morte, porque para ele a vida não fazia nenhum sentido fora de Atenas.

5/ pode dar-se a ideia de que a pulverização de concessão de direitos individualizados, que se verifica actualmente, é incompatível com a tese de tribalização em curso na sociedades europeias.

Ou seja, parece ser uma contradição que se diga, por um lado, que uma sociedade tribal faz desaparecer o indivíduo, e por outro lado que se diga que caminhamos para uma tribalização da sociedade quando se verifica hoje uma política que se baseia na atribuição prolixa de direitos individualizados.

Mas essa aporia é aparente, porque a pulverização de direitos individualizados ou grupais (mediante a adequação crescente da norma do Direito ao facto), gera uma “distinção indistinta” do indivíduo (ou uma “indiferenciação da diferença”), na medida em que num ambiente de atomização social e cultural radical, ou de múltipla guetização cultural em uma sociedade, a distinção individual (ou a diferenciação individual) perde valor porque se vulgariza — gera-se uma anomia social — e o indivíduo torna-se “invisível” através de uma afirmação radical do seu “direito à diferença”.

Para que um indivíduo seja realmente diferente e diferenciado, a sua diferenciação deve ser realizada em relação ao Todo da sociedade, e não em relação às múltiplas partes que se criam mediante uma anomia que é produto de uma multiplicação da atribuição de direitos individualizados. A ausência ou a desintegração de normas colectivas tornam-se num factor de indistinção do indivíduo, porque só é possível distinguir, de facto, o indivíduo, quando este se encontra em presença de normas morais e culturais colectivas e universalmente aceites que constituem uma ética que desenha uma política e o Direito (e estas normas não podem ser impostas à sociedade ao arrepio da lei natural, ou através de símbolos culturais que não tenham uma aderência à realidade por ausência de representações objectivas — porque um símbolo cultural exige um representado que emane da realidade objectiva e intersubjectiva).

A pulverização de direitos individuais e/ ou grupais (marxismo cultural, segundo o conceito de “tolerância repressiva”), para além de subverter o Direito que passa a adequar sistematicamente a norma ao facto, faz com que a noção cultural de pessoa moral seja largamente substituída, na sociedade, pela noção de indivíduo entendido como unidade fisiológica e biológica. Este fenómeno actual de subalternização ou mesmo de desvalorização da pessoa moral, em favor do indivíduo entendido como unidade biológica que se caracteriza essencialmente por diferenças fisiológicas, é um produto da anomia e da “indiferenciação da diferença” e, por isso, é a causa de um processo de construção de um novo tipo de “tibalismo” que se caracteriza por tornar o indivíduo permutável e socialmente indiferenciado.

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